quarta-feira, julho 31

Encantado ( Performance )


Por Vinicius Viana


Baseada nas rodas de Tambores do Maranhão, “Encantado” é um espetáculo, que mostra a beleza visual e corporal em um conjunto de expressões sagradas, que a partir da teatralidade e da dança, através do batucar constante que varam as noites, partem para uma coreografia pulsante enfatizando a ligação entre os pés descalços e o terreiro, gingados pelos cantos entoados para passar do corpo vivo ao transe em um personagem vivo e transmitir um vocabulário com gestualidades que evidenciam a ligação entre a terra e o céu, o universo como todo. Podemos considerar como um fenômeno rompendo com o espaço e o tempo, e vislumbra-se onde palco é a tradição e tudo se torna encantado.



Fotos: Indra Nogueira

terça-feira, julho 30

Sonhos

Estava presa num lugar que parecia um quarto. Era todo branco e claro. Havia uma cama, um grande espelho que eu desconfio ser uma janela de observação, um relógio de parede antigo e uma saída para ar. O banheiro, fechado durante a madrugada e obsessivamente limpo, tinha duas portas, uma dava para o meu quarto, a outra, para o mundo. Era minha única comunicação e, para meu azar, era também surda e muda.

Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Minha última lembrança foi de bater o carro na madrugada de uma sexta-feira contra um poste. Eu havia bebido com amigos e perdido o controle numa curva. Meus ferimentos estavam bem limpos e toda manhã ao meu lado estava dois comprimidos com a indicação "TOME-ME".

A princípio achei que eu estivesse numa ala nova de um hospital, No entanto, as portas trancadas e um gás sonífero exalado toda meia noite não deixavam qualquer dúvida de que eu me tornei uma cobaia de experimentação. O que me exaure dia após dia são minhas lembranças: o que será que aconteceu com meu noivo? Como será que vai meu chefe? O que aconteceu? Essa última dúvida faz meu cérebro se contorcer filosoficamente afim de responder coerentemente essa questão. Já cheguei a beira da loucura achando que eu teria sido abduzida por óvnis, até mesmo cheguei a pensar que fui sequestrada, mas essas são possibilidades não eram passíveis de veracidade.

O que me chamava a atenção era como eu não tinha nenhum contato com outros seres vivos. Notei nesse tempo em que já estou que há um trabalho enorme para que eu não tenha nenhum tipo de comunicação com nada que se mova e seja vivo. Pelo jeito a sala que estou é vedada para áudio, mesmo com a saída na parede, por onde vêm minhas refeições, não consigo escutar nada. Não tenho nenhum contato visual, e acho que sou monitorada 24 horas por dia, porque, certa madrugada que acordei, o banheiro estava trancado e ouvi barulho de esfregões e água corrente. Gritei por socorro, mas de nada adiantou, ou melhor, só percebi outra dose de gás sonífero sair pela saída de ar.

Só o que me consolava eram meus sonhos. Certa noite, sonhei que estava num jardim colhendo flores, de repente eu era criança de novo e havia um parque de diversões enorme na minha frente.. Fui correndo brincar no gira-gira, mas ele começou a se tornar um furacão e, num instante, eu estava no centro dele. Então uma face apareceu sob o furacão e me disse: CORRA. Eu corri, mas passei a andar em círculos e percebi que um exército de coelhos assassinos me perseguiam com adagas e espadas. Consegui chegar ao meu quarto e lá me tranquei. Corri deitar debaixo do meu cobertor e quando dei por mim estava coberta de aranhas, meu cobertor não passava de uma grande teia. Acordei aterrorizada.

Eu perdi a conta dos dias que eu passava lá. Eles eram tão iguais que não fazia diferença se eram um ou dois, mas pareciam semanas e meses. Simplesmente o tempo parou para mim, não havia mais calor ou frio, não havia mais chuva ou sol. Eu me tornei pálida e meus olhos escuros ficaram ainda mais destacados no meu rosto. Usava sempre uma camisola branca. Mas eu não perdi a vaidade. Um dos meus passatempos é de refazer a camisola até ela parecer uma outra roupa. E meu “guarda-roupa” ia ficando a cada dia mais diversificado.

Reparei que estava ficando gorda, reclamei que queria fazer exercícios. No dia seguinte apareceu uma bicicleta ergonométrica. Estranhei o fato. Queria testar melhor. Então passei a reclamar e pedir de tudo. No dia seguinte lá estava a coisa reclamada anteriormente. Era inacreditável. Certa vez resolvi pedir amigos, então uma pessoa, quando eu acordei, dormia numa cama ao lado. Comecei a chorar. Era inacreditável.

Comecei a perguntar a essa pessoa. Quem era, o que havia acontecido, desde quando estava ali. Andréa era como ela se chamava. Tinha dois filhos, estava lá fazia algum tempo e coincidentemente desejou a mesma coisa que eu no dia anterior. Coincidência? Ela tinha por última memória estar no hospital, num quarto e estar sendo anestesiada para fazer uma cirurgia. Quando ela estava só também apareciam dois comprimidos com a mesma indicação. Depois que nos encontramos passou-se a não aparecer mais qualquer comprimido.

Andréa e eu tivemos a mesma idéia. Queríamos conhecer mais gente. Pedimos. Quando o relógio bateu a meia noite ainda estávamos jogando truco, em vez do gás sonífero, a porta do banheiro deu um estalo. Foi então que eu e Andréa não sabíamos o que fazer. Comecei a sentir desespero, uma espécie de agonia. Alguém iria entrar por aquela porta. Não aguentei. Andréa disse que não, que eu devia ficar longe da porta, mas não consegui. Dentro do banheiro havia dois vestidos de festa, um com meu nome e o outro com o de Andréa. Vestimos e eu fui adiante. A outra porta também estava destrancada e eu a abri.
Havia um salão enorme com um bifê. E muitas portas, incontáveis. Imaginei que todas davam para um banheiro que daria para outros quartos em que estariam outras pessoas jogando truco ou vendo TV a cabo. Comecei a gritar. Pouco a pouco as outras portas foram se abrindo desconfiadas, o salão foi enchendo de pessoas como nós. Algumas choravam, outras gritavam.
Eu comecei a entender o que acontecia. Era um mecanismo de reintegração social, mas todas as pessoas tinham que passar por um ritual antes. Mas porquê? E será que eu estava certa? Já havia me enganado antes, mas algo me dizia que desta vez eu estava certa. Talvez fosse o desespero por uma resposta a tudo aquilo, talvez fosse apenas um sonho, talvez eu ainda estivesse na batida, estava sendo socorrida e minha mente divagada pelo que estaria para acontecer e não pelas minhas lembranças. Essa última hipótese me incomodou, e se eu estivesse morrendo enquanto tudo isso acontecia?
Tudo fazia sentido! Não havia frio ou calor, tudo que eu desejava aparecia. A planta do lugar teria que ser redesenhada milhares de vezes para que toda aquela construção fosse verdadeira. De onde teriam surgidas aquelas pessoas? Era tudo fruto de uma mente cansada e debilitada. Eu mesma era fruto. Será que minhas memórias eram minhas? Quando cheguei nesse ponto parei de questionar. Eu tinha que manter uma certeza, eu sou eu e minhas memórias são minhas.
Me lembrei da festa. Eu estava agora no centro sendo olhada por todos. Estava nua... meu vestido havia se dissolvido. As pessoas pareciam não me enxergar nem me escutar. Eu tentava contar a elas o que estava acontecendo, mas não conseguia. Comecei a chorar, me dava por vencida. Eu não queria continuar ali. Queria voltar ao meu quarto. Quando cheguei lá outra surpresa.

Meu quarto só tinha novamente a cama, o relógio, a saída de ar e o espelho. Tentei voltar para a festa, talvez eu tivesse errado de quarto, mas todos os quartos eram iguais, todos eram o meu, não importa que porta eu tentasse. Me joguei exaurida na cama, não havia nada que eu pudesse fazer, então, lembrei de Andréa, ela talvez poderia me ouvir. Corri de volta para a festa, mas quando saí já não era mais o salão.
Era um local diferente. Tive medo de sair, senti que ia conseguir as respostas que tanto precisava, acabei voltando para o meu quarto. Fui dormir. Quando acordei estava naquele mesmo local. Era também todo branco e claro, mas não havia mais nenhuma porta. Era como se fosse um jardim inextensível, mas sem flores, apenas um tapete branco. Da névoa surgiu um homem.

O homem veio até mim e me disse: Carol, sei que você tem muitas dúvidas, mas antes eu preciso te mostrar um coisa que tudo se resolverá. Então tudo começou a girar em volta de nós dois. E num instante estávamos num enterro. Eu parei para olhar as pessoas, estava enjoada, queria vomitar, mas não sabia o porquê. Passei a olhar nos rostos das pessoas. Vi meus familiares, meu noivo, todos de luto e chorando muito. Não senti a falta de ninguém, me perguntava quem teria morrido.

Eu fui abduzida? Perguntei a ele. “Não, Carol, olhe mais atentamente que você terá as respostas que busca. Você sabe o que aconteceu, apenas está negando”. A hipótese era muito louca para ser verdade, eu percebi que eu teria que achar a resposta dentro de mim e sozinha. Cheguei perto do meu noivo e ele pareceu me encarar. Dei um abraço forte nele, mas comecei a escorrer. Percebi que eu não posso tocar ninguém. Por quê? “Você sabe o porquê, Carol. Pare de negar e encare os fatos, veja por quem pranteiam e rezam”.

Cheguei perto do túmulo e quase desmaiei. Comecei a gritar e chorar, enlouquecida, enraivecida. Tudo começou a fazer sentido. Era eu que estava ali, mas não era eu, porque eu estava aqui. Eu morri? “Sim, Carol, você morreu”. Então, enquanto as respostas vinham na minha cabeça, todas aquelas pessoas, mortas, eu senti que tudo novamente rodava, pobre Andréa, ela tinha dois filhos, cheguei numa sala de jogos onde havia várias pessoas, a maioria idosos, uma festa para mortos.

Navegante

navegante a noite nos olhos e uma lâmpada tentando iluminar a escada duma enorme caixa d'água na beira da estrada os pés no chão e uma vontade irreprimível de partir um caminhar desdenhado de tudo um sorriso-escudo um sorriso que abre caminho me poupa de perguntas irrespondíveis um desconhecido que me aperta a mão e me empresta o fogo os sorrisos anêmicos e aéreos das virgens e os contidos e desajeitados das interioranas enquanto uma sensação de finitude toma conta toda vez que me vêm à cabeça as imagens de seus rostos felizes como se me dissessem para guardar segredo e não pensar nisso agora não pensar no quão pesado é o nosso fado fragilidade esvoaçante olhos que estampam abismos molhados redemoinhos transbordam a garganta como uma agonia uma irremediável vontade de contemplação meu último cigarro um sorriso de volta compactuando silenciosamente ninguém precisa saber é sempre um naufrágio que nos espera.

domingo, julho 21

O vestido


 Por Maria Ligia Ueno

E o meu coração resolveu bater forte hoje. E no meu vestido se percebe a marca da aceleração do pulso, marcando o tecido e desenhando espirais pelas minhas curvas. Pernas eriçadas e pelos cruzados, esperando.

Ó Édipo, tu mataste a esfinge que havia em mim, desvendou os mistérios do portal Tebano, transformastes-me na filha de Asopo, tiraste-me a inquietação para introjetar o sossego nas minhas artérias. 

E o meu vestido roda sozinho, sem qualquer vento, sob a bandeira nacional, parece até que tem vida própria, bailando ao som do teu riso e comemorando tantas despedidas quantas forem necessárias, sabendo da brevidade de cada uma delas.

As linhas do tecido formam uma trama forte, um verdadeiro emaranhado de ideias, complicações, sentimentos e sensações, desfiando as mazelas do cotidiano, bem como, desfilando a última moda parisiense nas calçadas.

-Que bela moda, da mais alta costura. Transformou em boneca de luxo aquela menina de porcelana arranhada.
- Que bela moda, muito mais refinada. Agora todos desejam ser menina encantada.

E o tecido fora tingido, antes mesmo da tosa, tingido pela alegria do sol, e pela seriedade da lua. Tingido pelo sorriso do campo e pelas pegadas da ovelha. Tingido pelo menino do pastoreio, que afagava aquela lã preciosa e bruta com amor. E quando a lã foi retirada da ovelha, e quando a lã foi fiada e tramada, e quando a lã virou tecido, já restava impregnada a sua cor.

Em vão tentou a costureira moldar teu corte, em vão tentou a costureira tirar-lhe a vivacidade, que sempre existiu no vestido. Ele nasceu para ser assim, vívido, radiante, contagiante. É um tecido de bolinhas, feito catapora, que adoece todos os corpos que o vestem, contaminando-os com sua alegria esporádica e frequente (ao mesmo tempo). E todos aqueles corpos enfermos, cheinhos de pintinhas, cheinhos de risinhos, cheinhos de canções e feijões mágicos, fluíam despercebidos pelo trânsito, feito epidemia, feito pandemia. Uma invasão invisível e terrível na alma humana.

E o vestido seguia pelo salão, bailando solitário, aguardando o paletó para dançar colado, aguardando que o paletó lhe trouxesse sua bebida refrescante, aguardando que o paletó (aquele paletó específico) lhe acompanhasse até o guarda-roupas para o enlace. O paletó de sarampo.


sábado, julho 20

Vira- Latas

vira-lata assistindo aula de filosofia na UEMA (Universidade estadual do MA)

Na antiguidade, esses sábios viviam como animais abandonados e vagabundos, mendigos e miseráveis sem nenhum bem. Acreditavam que o principal ensinamento que a filosofia lhes proporcionava era estar preparado para tudo na vida. Você não precisa ser exatamente pobre, mas precisa saber que é capaz de viver sem desejar o que não precisa. Eles ficaram conhecidos como "cínicos", o que literalmente significa "cães". Sempre me agradou a imagem de vira-latas pelas ruas da cidade. Quando me dou de cara com uma criatura iluminada dessas, sinto mais admiração do que pena. Não há nada mais sagrado do que a serenidade e sinceridade dos vira-latas pelas calçadas, ignorados e expulsos do mundo dos homens, mas muito mais reais do que nós, muito mais saudáveis, verdadeiros, honestos consigo mesmos e, talvez até, infinitamente mais felizes. Todo vira-lata tem algo de imortal, voraz, imprevisível - morde quando dá na telha, quando decidem que querem. Latem quando acham melhor e, sempre latem. Isso não quer dizer que não possam demonstrar paixão (em todos os sentidos da palavra) quando sentem necessidade. Alguns homens jamais chegarão aos pés dos vira-latas. Eles não possuem pátrias - vivem no mundo. Não precisam de cultura - a única verdade está no universo. Não precisam da cidade, da sociedade, da política - não possuem uma identidade social, porque não precisam disso - o mundo inteiro é o mundo. E só. Os cães dormem nas portas das igrejas e acreditam que os homens tenham construído justamente para os vira-latas relaxarem na sombra de uma laranjeira numa tarde qualquer de verão. Aí está no que a humanidade é superada mais uma vez - esse sentido de realidade está muito mais presente nos vira-latas. Também sua imunidade às besteiras humanas - não possuem esperanças de imortalidade, ambições, qualquer tipo de arte, riquezas, carreiras, ideais, ideias, ambição, deveres. Às vezes me sinto um vira-lata abandonado mas não acho ruim. Vira-latas não se lamentam, ao invés disso, nós, bons vira-latas, temos o espírito mais claro, a nossa alegria é de viver. Somos livres para sermos sós. 

sexta-feira, julho 12

Mulheres




Uma Coletânea de Histórias de Ficção que abordam a lombra que o relacionamento do sexo feminino e sexo masculino. Sabemos que isso é TUDO muito MAIS que um pau e uma xoxota.

é só fechar os olhos