Não me reconheço mais. E
não adianta me olhar no espelho durante uma hora seguida ou perguntar pra
alguém quem eu sou. Rio sozinho. Tenho vontade de empinar pipas e bater uma
bola. Ser o prefeito da cidade. Assaltar
bancos com amigos. Matar Sarney a queima
roupa e ser manchete nacional com muito orgulho. Ontem pisei num caco de vidro
e vi o sangue escorrendo e nem parecia que era meu. Nem dor tive. Foi estranho
assim como meus sonhos ultimamente. Tantas pessoas que nem conheço estão neles.
Coisas malucas. Vi um homem em ritmo frenético transando com uma mulher e
depois o esperma branco e aquoso saindo pelo nariz e pela boca como se a mulher
acabasse de ser retirada de um afogamento.
Não vejo o futuro de forma clara e nem dou palpites. O passado tento
relembrar nas fotos em cima da estante na sala e nem quero saber de livros de
História. O presente é esmagador assim como o calor da ilha e os pensamentos.
Bebo água como se tivesse caminhando por um deserto sem cor numa eterna
diáspora. Dá pavor pensar em faltar grana pra comprar água e eu morrer desidratado.
Antes sentia dó pelo mendigo da esquina da minha casa. Agora não tenho mesmo tempo
pra isso ou talvez seja eu o próprio o mendigo e outros é que me vêem com dó. O
cabelo cresceu, as unhas, o desvio na coluna, a paranoia. Tenho um canal pra
fazer no segundo molar inferior direito.
O mundo ta cada vez mais sem pé nem cabeça ou sou eu ou os dois. Não
codifico os signos. Medo de parar num hospício como um personagem que criei.
Sou um pouco dele. E isso aqui não é um conto, um poema, um desabafo, um vômito
a la Caio Fernando Abreu ou uma espécie de diário. É uma necessidade como
cagar, mijar, comer, fuder. Não há começo, meio, onde, quando, estilo, final
de efeito, muito menos dor ou prazer, mas vai ter um título como quase
tudo. É isso e pronto. Faz parte. Não
tem onde chegar essas palavras. Sei que tou com um tersol no olho esquerdo e
ele furou e isso significa que está próximo de ficar bom.
quarta-feira, março 13
terça-feira, março 12
segunda-feira, março 11
domingo, março 10
UTI
Me sacode
Me esmurra
Enfia o dedo no meu olho
Sacaneia da minha cara
Descola uma coisa boa pra mim
Pareço num coma sem aparelhos
Estirado na cama de um quarto alheio
Sem romantismo nenhum, um dois, três, quatro
Canta uma música.
sábado, março 9
O Canto dos Malditos - Jards Macalé 1972
Vai bicho desafinar o coro dos contentes
Por Natan Castro.
Muito se fala em Tropicália,
MPB da virada dos sessenta para os setenta, Bossa Nova, Jovem Guarda. E vários
são os artistas ovacionados nesse período no Brasil. O próprio Caetano Veloso à época do exílio em
Londres produziu dois discos importantes dentre eles um clássico chamado Transa.
Sem dúvida alguma um álbum genial porem toda sua genialidade pela parte musical
não teria se consumado se não fosse um cara chamado Jards Macalé. Um iconoclasta da nossa cultura, um artista que
passeia até hoje pelo o erudito e o popular com uma desenvoltura que poucos
possuem.
Em 1972 ele lança um
álbum ousado misturando rock, samba, eruditismo, jazz, bossa nova, tropicalismo.
Em plena ditadura não poderia haver ousadia musical maior, um acetato
minimalista, pois tinha o próprio ao violão, Lany no violão solo e Tutty na
bateria. Esse disco tem a clássica “Lets Play That” que se tornou um hino da resistência
por conta do refrão “Vai bicho desafinar o coro dos contentes” junto da vinheta
de outra importante canção “Vapor Barato” eternizada na voz de Gal Costa de sua autoria e do poeta Wally Salomão. Esse álbum possui letras
e músicas de Torquato Neto, Luiz Melodia, Gilberto Gil dentre outros. Tamanha
ousadia musical deu a Jards Macalé um lugar cativo na cadeira da Academia Brasileira
dos Artistas Malditos com bastante propriedade.
Incerteza.
Pego um ônibus qualquer.
Posso descer em qualquer parada. Saca? Partir sem saber pra onde. Posso ser atropelado por
um carro a 100 por hora. Posso parar na casa de alguém. Posso ver um burocrata
entrando num banco e uma mulher saindo de uma academia. Posso ver o sol se
pondo sobre minha cabeça se não tiver nuvens. Pode não acontecer nada disso.
Mas é tudo incerto quando parte-se sem saber pra onde. Nem o vento é certo,
pois o ar pode estar sem movimento. O que é certo é exatamente o não certo. A porra
da incerteza é o lance.
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