sexta-feira, junho 17

Para ler sussurrando

Finalmente entraram no quarto. Penoso é o caminho que fizeram até chegarem ao motel. Barato ou não, não se sabe. O fato de ser um local escondido, numa dessas ruas sem asfalto, cobertas por uma luz espessa, era a única certeza que tirava aquele medo de ser descoberta, embora isso não importasse de forma alguma. Provia, naquele instante, mais de um direito do que um desejo propriamente dito. A vontade era apenas o corolário, apesar de querer fazer isso e de estar, indubitavelmente, decidida. Mas e agora? Entrara fatalmente naquele quarto. De certa forma, em tal decisão, havia um acordo tácito, um contrato invisível que fora assinado quando se deixou levar até lá. Não seria obrigada a fazer nada, é certo. Tinha o poder sumário do ‘não’, no entanto, ela se trairia se o dissesse, pois, quando saiu de casa, resoluta, decidiu ir até o fim, mesmo a razão permanecendo opaca, mesmo vendo o tempo e o ato se consumado a golpes de hesitação. Mas algo está errado. A luz incomodava. Deixava o jogo claro, desnudava com mais ênfase o corpo não somente nu, mas exposto, fragilizado pela evidência, suscetível, como um animal encurralado, ao olhar, do qual nada poderia passar em branco, do qual não haveria outra saída a não ser fazer parte de uma memória flagrante, indelével aos dois, que não deixaria impune o passado. Não! Definitivamente, era preciso apagar a luz... Agora sim, a escuridão trazia de volta a segurança das roupas. A pele se sentia mais a vontade longe dos olhos. A brecha da porta trazia alguma claridade e os corpos se tornavam contornos de um único desenho, embora o mundo lá fora ainda existisse e batesse na porta, insistindo em entrar, embora tal realidade fosse apenas uma impressão de que, depois dali, ainda havia trânsito entre a noite e a madrugada. No entanto, como se não bastassem à discrição e a penumbra, que davam ao proibido a condescendência de ser permitido, ela, mesmo assim, fechou as pálpebras como se fechasse venezianas do mundo, podendo, então, se entregar a compleição  dos tímidos gemidos que se fizeram escutar, finalmente. 
Igor Nascimento

4 comentários:

Anônimo disse...

acho que os dois perderam perderam a virgindade.(sussurrando).

Anônimo disse...

o engraçado é que eu pensei em uma mulher traindo o marido ou o namorado. Mas a questão da virgindade também cabe. Massa!
Igor

diariodoandre.com disse...

Pensei na opção da traição na primeira metade do texto. Na segunda, a perda da virgindade se insunou. Porém em todo texto há - sendo sussurado pela insegurança - a perda de uma certa inocência. Abraço.

Anônimo disse...

uma mulher escondendo a inocência, onde a perda da virgindade é literal (Um desconhecido, virgindade de valores, o 'MITO' da mulher moderna)- afirmando a coragem e mostrando-se completamente insegura - ela a trai com ela mesma.