domingo, agosto 14

Mãos fortes

Ele chegou com mais uma ruga na testa e um olhar de preocupação, atrás das lentes. Na bolsa que carrega para cima e para baixo mais duas ou três caixas de remédios. Eu cheguei toda sorridente, o esperava ansiosa para dá-lhe um beijo no rosto, com o batom novo que havia comprado. Ele nem me notou.
Passou por mim com alguns exames debaixo do braço suado, nem sentou em sua poltrona como de costume. Foi logo, atrás das bulas de outros remédios. Leu elas, como se devora, um livro que nos prende até a alma. Eu fiquei observando. E recordei de um tempo, que nas segundas feiras, quando era sua folga, me levava à praia. Ficávamos ali, por horas nas areias do Olho d’Àgua, cúmplices. Eu tão pequena e ele, tão grande.
Eu gostava de correr em direção do mar (sempre gostei do mar), e ele me protegia das ondas violentas com suas mãos fortes. Segurava minha mão e dizia: “Pula, menina as ondas! Pula! Não tenha medo!” E com ele eu não tinha, não.
Adorava sair com ele de mãos dadas pelas ruas de São Luís. Os outros olhavam para nós dois, com ar de espanto. O contraste de nossas peles era fantástico. Eu amava sair com ele. Toda orgulhosa. As pessoas ás vezes curiosas tentavam ousar perguntar: “Quem é ele?”, “Quem é ela?”
Meus cabelos dourados, como ele dizia, antigamente, que iria vender, porque parecia ouro. Eu sorria. Toda envergonhada.
Hoje quis acordar de meu sono profundo de donzela e dizer a ele o quanto é importante para mim, o quanto o amo incondicionalmente, apesar de saber que ele não acredita muito em minhas palavras de atriz de quinta. Mas, quando resolvi levantar só notei sua bolsa de remédios na cadeira, sua blusa pendurada no cabide e seu cheiro pela casa toda. Tive uma saudade gostosa. Mas, sei que vou esperá-lo chegar mais uma vez suado, com seus ósculos, com suas rugas, com sua zanga e suas mãos fortes, que espero que possam ainda me segurar por muito e muito tempo, como quando fazia quando eu era criança, não é papai?!
Cris pequena, Meu pai Seu Valter e meu primo Hugo. Foto de Cris Lima


P.S: Dedico este texto ao meu pai, Seu Valter, e a todos os pais: aqueles presentes e também aqueles não presentes no mundo físico, mas sei que mesmo assim estão com suas mãos fortes a nos segurar.

5 comentários:

Alberto Júnior disse...

Estão a nos segurar mesmo que não nos toquem, velam por nós mesmo quando parecem serem figuras tornadas estátuas e memória pelo feitiço de Medusa. Amam, mesmo em silêncio.

Beijo.

Lícia. disse...

Faço as palavras de Alberto Junior as minhas.

Anônimo disse...

de chorar

di

Anônimo disse...

Emocionante, singelo parabéns Cristiane Feliz dia dos Pais...

Natan Castro.

Anônimo disse...

Obrigada! E eu chorei por todas as linhas deste texto e fiz meu pai também lágrimas...." Seu Lunga " papai..rsrsrs Cris