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quinta-feira, maio 29

Pingado

O meu amor pingou,
No teu café,
Aroma do meu suor

Eu me faço de leite, esperando ser pingado contigo, embebida aos goles pela sua língua, e saboreada com todo teu prazer pelas suas papilas. Degustada, devorada e deglutida, passo pelo seu sistema digestivo e sou absorvida em escalas no teu corpo. E desta forma, torno-me sua: torno-me a cafeína ligada em seus pensamentos, torno-me o açúcar, torno-me a gordura. Até o momento em que completamente mastigada, reinicio o ciclo.
No teu café,
Fiz risos e vapor
Perfumei.

O calor da minha fervura e o sabor integral do meu leite combinam com seu aroma arábico. Seu sabor marca a minha boca e lava meus dentes, aguçando meus sentidos, para desejar mais e mais goles da tua poção. Seu café é irresistível, e minha gula, inexorável. Exalo seu perfume no ambiente, e estimo seu gosto no meu gosto.

Je t'adore. 

segunda-feira, maio 12

A garrafa

Meu coração foi engarrafado, socado dentro de um vidro de cerveja. Meu coração virou conteúdo de um continente sujo e alcoolizado. Preso pelo recipiente, meu coração dá tímidas batidas pedindo indulto, meu coração dá tímidos gritos pedindo socorro, meu coração dá tímidas lágrimas prendendo o choro. Minha garrafa de cerveja preta não agradou.

Meu coração foi adormentado em meio ao resto preto da garrafa, mas depois ele acordará e se conformará. E meu coração virou drink!

terça-feira, abril 22

A língua do P.

Meu peito apertado espreme minhas artérias.
E minhas artérias exprimem a dor que corre em meu sangue.
Pura expressão da confusão de pensamentos que me subtraem.
E diminuída de sanidade, reduzida ao fardo, sofro.
Sofrimento espremido, exprimido, extirpado e subtraído.

Se da transfusão do sangue que doei nada restou,
Se da minha pressão arterial multiplicam-se as tensões
Se da minha testa pesam todos
Se do caixote em que caibo sufocada não me abrem.

Por hoje sem alívio,

Apenas o sono dos injustos. 

quarta-feira, dezembro 4

Do tempo


O tempo me esquece e sinto minhas unhas irremediavelmente transformarem-se em garras. Estas adentram minha carne e me despedaçam em três.

A tríade Aristotélica, fruto da passagem do tempo pelas minhas mãos, envelhecendo-as, engradecendo o tato, criando habilidades cirúrgicas para o conserto de minhas juntas, e para o zelo com meus calos.

E o tempo cruel arrasta-se em triângulos desenhando minhas expressões faciais e pintando as cores do meu esmalte, e bordando as rugas dos meus risos.

Aplica-se em minha alma a teoria da relatividade, mitigando meus dogmas e meus preconceitos, acalmando minhas preces e extirpando minhas dúvidas. A fé devora meus encantos e meus defeitos, e a mesma fé rasga a sola dos meus pés, colocando-me em eterna provação.

O tempo é colaborador da sapiência, e cicatrizante das feridas. Aerossol de tempus verbum.

E ressuscito a deusa que me habita o corpo, reanimando a própria com sua forca, fé e esperança. E minha deusa esquece o tempo e faz deste teu servo e teu escudeiro. E minha deusa escreve com meu sangue e deságua minha mente no papel.

Minha mente iludida e derretida entrega a cera quente - que são minhas opiniões - aos leitores, arrancando seus cabelos sem sombra de compaixão. E minha mente, palhaça com palavras, prega pecas na deusa que habita meu corpo, e com a alma, refaz minha fé.

E o tripé que me sustenta segue manco, compassado pelo tempo que tatua a minha pele de forma invisível, e concretiza as pegadas  na calçada não famosa da minha vida.

terça-feira, julho 30

Sonhos

Estava presa num lugar que parecia um quarto. Era todo branco e claro. Havia uma cama, um grande espelho que eu desconfio ser uma janela de observação, um relógio de parede antigo e uma saída para ar. O banheiro, fechado durante a madrugada e obsessivamente limpo, tinha duas portas, uma dava para o meu quarto, a outra, para o mundo. Era minha única comunicação e, para meu azar, era também surda e muda.

Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Minha última lembrança foi de bater o carro na madrugada de uma sexta-feira contra um poste. Eu havia bebido com amigos e perdido o controle numa curva. Meus ferimentos estavam bem limpos e toda manhã ao meu lado estava dois comprimidos com a indicação "TOME-ME".

A princípio achei que eu estivesse numa ala nova de um hospital, No entanto, as portas trancadas e um gás sonífero exalado toda meia noite não deixavam qualquer dúvida de que eu me tornei uma cobaia de experimentação. O que me exaure dia após dia são minhas lembranças: o que será que aconteceu com meu noivo? Como será que vai meu chefe? O que aconteceu? Essa última dúvida faz meu cérebro se contorcer filosoficamente afim de responder coerentemente essa questão. Já cheguei a beira da loucura achando que eu teria sido abduzida por óvnis, até mesmo cheguei a pensar que fui sequestrada, mas essas são possibilidades não eram passíveis de veracidade.

O que me chamava a atenção era como eu não tinha nenhum contato com outros seres vivos. Notei nesse tempo em que já estou que há um trabalho enorme para que eu não tenha nenhum tipo de comunicação com nada que se mova e seja vivo. Pelo jeito a sala que estou é vedada para áudio, mesmo com a saída na parede, por onde vêm minhas refeições, não consigo escutar nada. Não tenho nenhum contato visual, e acho que sou monitorada 24 horas por dia, porque, certa madrugada que acordei, o banheiro estava trancado e ouvi barulho de esfregões e água corrente. Gritei por socorro, mas de nada adiantou, ou melhor, só percebi outra dose de gás sonífero sair pela saída de ar.

Só o que me consolava eram meus sonhos. Certa noite, sonhei que estava num jardim colhendo flores, de repente eu era criança de novo e havia um parque de diversões enorme na minha frente.. Fui correndo brincar no gira-gira, mas ele começou a se tornar um furacão e, num instante, eu estava no centro dele. Então uma face apareceu sob o furacão e me disse: CORRA. Eu corri, mas passei a andar em círculos e percebi que um exército de coelhos assassinos me perseguiam com adagas e espadas. Consegui chegar ao meu quarto e lá me tranquei. Corri deitar debaixo do meu cobertor e quando dei por mim estava coberta de aranhas, meu cobertor não passava de uma grande teia. Acordei aterrorizada.

Eu perdi a conta dos dias que eu passava lá. Eles eram tão iguais que não fazia diferença se eram um ou dois, mas pareciam semanas e meses. Simplesmente o tempo parou para mim, não havia mais calor ou frio, não havia mais chuva ou sol. Eu me tornei pálida e meus olhos escuros ficaram ainda mais destacados no meu rosto. Usava sempre uma camisola branca. Mas eu não perdi a vaidade. Um dos meus passatempos é de refazer a camisola até ela parecer uma outra roupa. E meu “guarda-roupa” ia ficando a cada dia mais diversificado.

Reparei que estava ficando gorda, reclamei que queria fazer exercícios. No dia seguinte apareceu uma bicicleta ergonométrica. Estranhei o fato. Queria testar melhor. Então passei a reclamar e pedir de tudo. No dia seguinte lá estava a coisa reclamada anteriormente. Era inacreditável. Certa vez resolvi pedir amigos, então uma pessoa, quando eu acordei, dormia numa cama ao lado. Comecei a chorar. Era inacreditável.

Comecei a perguntar a essa pessoa. Quem era, o que havia acontecido, desde quando estava ali. Andréa era como ela se chamava. Tinha dois filhos, estava lá fazia algum tempo e coincidentemente desejou a mesma coisa que eu no dia anterior. Coincidência? Ela tinha por última memória estar no hospital, num quarto e estar sendo anestesiada para fazer uma cirurgia. Quando ela estava só também apareciam dois comprimidos com a mesma indicação. Depois que nos encontramos passou-se a não aparecer mais qualquer comprimido.

Andréa e eu tivemos a mesma idéia. Queríamos conhecer mais gente. Pedimos. Quando o relógio bateu a meia noite ainda estávamos jogando truco, em vez do gás sonífero, a porta do banheiro deu um estalo. Foi então que eu e Andréa não sabíamos o que fazer. Comecei a sentir desespero, uma espécie de agonia. Alguém iria entrar por aquela porta. Não aguentei. Andréa disse que não, que eu devia ficar longe da porta, mas não consegui. Dentro do banheiro havia dois vestidos de festa, um com meu nome e o outro com o de Andréa. Vestimos e eu fui adiante. A outra porta também estava destrancada e eu a abri.
Havia um salão enorme com um bifê. E muitas portas, incontáveis. Imaginei que todas davam para um banheiro que daria para outros quartos em que estariam outras pessoas jogando truco ou vendo TV a cabo. Comecei a gritar. Pouco a pouco as outras portas foram se abrindo desconfiadas, o salão foi enchendo de pessoas como nós. Algumas choravam, outras gritavam.
Eu comecei a entender o que acontecia. Era um mecanismo de reintegração social, mas todas as pessoas tinham que passar por um ritual antes. Mas porquê? E será que eu estava certa? Já havia me enganado antes, mas algo me dizia que desta vez eu estava certa. Talvez fosse o desespero por uma resposta a tudo aquilo, talvez fosse apenas um sonho, talvez eu ainda estivesse na batida, estava sendo socorrida e minha mente divagada pelo que estaria para acontecer e não pelas minhas lembranças. Essa última hipótese me incomodou, e se eu estivesse morrendo enquanto tudo isso acontecia?
Tudo fazia sentido! Não havia frio ou calor, tudo que eu desejava aparecia. A planta do lugar teria que ser redesenhada milhares de vezes para que toda aquela construção fosse verdadeira. De onde teriam surgidas aquelas pessoas? Era tudo fruto de uma mente cansada e debilitada. Eu mesma era fruto. Será que minhas memórias eram minhas? Quando cheguei nesse ponto parei de questionar. Eu tinha que manter uma certeza, eu sou eu e minhas memórias são minhas.
Me lembrei da festa. Eu estava agora no centro sendo olhada por todos. Estava nua... meu vestido havia se dissolvido. As pessoas pareciam não me enxergar nem me escutar. Eu tentava contar a elas o que estava acontecendo, mas não conseguia. Comecei a chorar, me dava por vencida. Eu não queria continuar ali. Queria voltar ao meu quarto. Quando cheguei lá outra surpresa.

Meu quarto só tinha novamente a cama, o relógio, a saída de ar e o espelho. Tentei voltar para a festa, talvez eu tivesse errado de quarto, mas todos os quartos eram iguais, todos eram o meu, não importa que porta eu tentasse. Me joguei exaurida na cama, não havia nada que eu pudesse fazer, então, lembrei de Andréa, ela talvez poderia me ouvir. Corri de volta para a festa, mas quando saí já não era mais o salão.
Era um local diferente. Tive medo de sair, senti que ia conseguir as respostas que tanto precisava, acabei voltando para o meu quarto. Fui dormir. Quando acordei estava naquele mesmo local. Era também todo branco e claro, mas não havia mais nenhuma porta. Era como se fosse um jardim inextensível, mas sem flores, apenas um tapete branco. Da névoa surgiu um homem.

O homem veio até mim e me disse: Carol, sei que você tem muitas dúvidas, mas antes eu preciso te mostrar um coisa que tudo se resolverá. Então tudo começou a girar em volta de nós dois. E num instante estávamos num enterro. Eu parei para olhar as pessoas, estava enjoada, queria vomitar, mas não sabia o porquê. Passei a olhar nos rostos das pessoas. Vi meus familiares, meu noivo, todos de luto e chorando muito. Não senti a falta de ninguém, me perguntava quem teria morrido.

Eu fui abduzida? Perguntei a ele. “Não, Carol, olhe mais atentamente que você terá as respostas que busca. Você sabe o que aconteceu, apenas está negando”. A hipótese era muito louca para ser verdade, eu percebi que eu teria que achar a resposta dentro de mim e sozinha. Cheguei perto do meu noivo e ele pareceu me encarar. Dei um abraço forte nele, mas comecei a escorrer. Percebi que eu não posso tocar ninguém. Por quê? “Você sabe o porquê, Carol. Pare de negar e encare os fatos, veja por quem pranteiam e rezam”.

Cheguei perto do túmulo e quase desmaiei. Comecei a gritar e chorar, enlouquecida, enraivecida. Tudo começou a fazer sentido. Era eu que estava ali, mas não era eu, porque eu estava aqui. Eu morri? “Sim, Carol, você morreu”. Então, enquanto as respostas vinham na minha cabeça, todas aquelas pessoas, mortas, eu senti que tudo novamente rodava, pobre Andréa, ela tinha dois filhos, cheguei numa sala de jogos onde havia várias pessoas, a maioria idosos, uma festa para mortos.

terça-feira, julho 2

Reflexos


A minha vida é como uma sala de espelhos, dessas que têm em parques de diversões, com muitos espelhos que te engrandecem, encolhem, emagrecem, engordam. Espelhos líquidos, em que se deve ter a cautela de não encostar, caso em que poderá (sem querer) cair do outro lado. Não se saberá o que é real, e o que é fruto da imaginação.

E a cada espelho me enxergo diferente, ora mais econômica, ora maior. Assim como minha imaginação, ora águia, ora pardal. Mas sempre criando por aí, sonhando, desenhando belos olhos num pedaço de papel. E por esses olhos que desenho que enxergo o mundo, do outro lado do espelho, e vejo o mundo em cores inexistentes no mundo real, cuja frequência é imperceptível ao cérebro humano. Mas apenas visualmente imperceptíveis, dado que no lado real do espelho se percebe o tato e o olfato, apenas com outros sentidos.

Desta forma somos reflexos de nossas percepções, dos nossos sentidos e dos nossos sentimentos. E somos espelhados, frutos de tais reflexos, nas ações e nas palavras que cotidianamente exprimimos um pouco mais a cada dia. E somos reféns, das consequências das ações e das promessas ditas em razão dos tais reflexos. Escolhas feitas de forma intensa e sob circunstâncias únicas, visando tornarmos reféns de uma situação pretendida há muito.

Por assim, torna-se refém da própria liberdade, antes uma imposição, mas agora uma escolha. A liberdade consiste nas escolhas. E hoje em dia podemos escolher tudo, o que dizer, o que comprar, para onde ir, e para qual espelho olhar. A língua italiana tem um verbo fabuloso, specchiare, que significa exatamente se olhar no espelho.  E eu me specchio todos os dias, apreciando as mudanças que causei, e me deleitando com a coautoria do meu próprio reflexo.

E o que é real? E o que é imaginário? Já não posso mais dizer, ambos planos se fundiram, formando um mundo só, o meu. Procuro com delicadeza aprender a distinguir o que existe daquilo que criei, e sigo como Ismália.

sexta-feira, junho 28

As Borboletas Amarelas

Meu estômago está borboleteando hoje, Leitor. Azuis, rosas e principalmente amarelas. Não me pergunte o porquê pela preferência por borboletas amarelas, Leitor, apenas as prefiro. São mais alegres, mais voadoras, mais aéreas. Amarelas como as túnicas egípcias dos faraós, antes dos tempos decadentes.

São as mais belas borboletas das quais tenho lembrança, tanto pela simplicidade, quanto pela quantidade. Por que somente as mais raras borboletas são consideradas bonitas? Não concordo,Leitor, para mim o belo está nos detalhes da simplicidade magnífica com que essas borboletas desenham a grama do meu jardim e de repente revoam por  aí, borboleteando por onde passam.

E seguem com o vento, para onde a corrente de ar quente leva, ora mais veloz, ora mais paciente, para que possamos aproveitar a paisagem. Assim como me levaram de volta ao paraíso das minhas memórias, e me acordaram características já adormecidas pela opressão.


Não consegue ouvir, Leitor? Atente ao ruflar delicado de asas que saem pela minha boca em tua direção, tome cuidado ao desviar. Não há remédio, nem tratamento, se for atingido em cheio, terá um enxame delas em seu estômago também. E depois, todos seus dias serão primaveris. 

segunda-feira, junho 24

Esfinge

por Maria Ligia Ueno

E os meus pensamentos voam longe, feito andorinhas, tentando adivinhar os meus futuros conforme esbarro nas encruzilhadas da vida. Mas assim como uma andorinha não faz verão, cada um que se passa na minha cabeça não me toma. E a minha mente continua seu passeio pelas possibilidades, pelas catástrofes e pelos jardins. E a minha mente continua seu passeio, sem a paciência de outrora, com medo da pressa imperfeita, com medo dos monstros que me espreitam, com medo dos cacos da flor de vidro que derrubei no chão. E a minha mente continua seu passeio, entre os arranha-céus que construí com orgulho na minha cidade imaginária, entre as casas modestas no campo em que eu reservava para meu refúgio, entre o lago de carpas brancas e laranjas que retinham minhas lágrimas.

E os meus pensamentos voam longe, como um balão de ar quente que testa as correntes do vento, deixando-me testar pelo pelos meus sonhos, meus desejos e meus objetivos. E como um castelo de cartas desmoronado, causam-me o riso. Não posso controlar o incontrolável, não posso pedir o impedível, não posso querer que tudo seja como era antes. Aliás, sequer quero como era antes, eu gostaria que fosse como eu desejava antes.

E os meus pensamentos cavam a terra, a fim de me enterrar consigo.  Mas por outro lado, constroem um morro com a terra cavada, no qual me habilito a subir e a enxergar o mundo com um otimismo nunca antes permitido. O céu está lindo hoje, cheio de nuvens para lembrar como é boa a incerteza.

E os meus pensamentos se cansaram de tanto andar, de tanto rodar em círculos sem chegar a lugar nenhum, como se fossem ponteiros de relógios que repetem a vida toda os mesmos números, e o mesmo compasso.

E neste compasso continuo tentando achar lugar nenhum, ou algum, seja para me esconder das conclusões que me passam pela cabeça, seja para me afugentar nas conclusões que chegam à tua cabeça.

E os meus pensamentos são como porcos-espinho, desses que com cuidado e paciência se consegue tocar o coração, mas que com brutalidade apenas te ferirão. É o caso famoso da flor que se transformou em porco-espinho, quando Dr. Jekyll deixou sua poção cair na jardineira. Esse porco-espinho que se tornou minha mente é uma verdadeira esfinge: decifra-me ou devoro-te.

sexta-feira, junho 21

O açougue

Por Maria Ligia Ueno

I
A minha alma foi fatiada
Finas lâminas de alma, servidas com limão,
Na tua bandeja de prata.
Você espeta o garfo em cada pedaço,
Saboreando meu doce gosto de derrota.
Cry, babe, cry.

II
Quantos gramas de alma quer levar hoje, senhor?
Quer levar pão integral para acompanhar?
Essa veio de um ótimo frigorífero,
Abatemos essa alma humana semana passada, extremamente macia.

III
De primeira havia um quarto vermelho gritante, talvez e tão somente para aumentar o desespero daquele momento. Ataduras nos braços como se fosse manicômio, mas talvez era um manicômio, não? E, para completar, água amarga para beber. Matar a sede com aquela água amarga não teve preço, e já que fazia dias que estava sem tomar qualquer gole de vida, bebeu aquela jarra como se fosse mel.

Fotografias dos dias felizes grudadas com imãs nos batentes das janelas, trancadas com grades impenetráveis até pela luz solar, apenas para lembrá-lo de que conhecia o céu, mas iria ao Inferno. Estava só, não estava? Estava são ainda? Aqueles robôs brancos não tinham olhar, e nem falavam.

Dois meses, esse foi o tempo do que eles chamaram de purificação. É o tempo em que demorou também para se deixar de querer viver, em que o amargo da água se tornou insuportável, em que a alma estava louca de vontade para partir. E saiu, por um tubo azul, que a depositou em um pote de plástico, feito gelatina.

E o que restou desse corpo, cuja alma foi sacrificada servindo de alimento a outrem? Pergunto-me dia após dia, enquanto cicatrizo as marcas dos catéteres.

IV
Alma é aquele pedaço de si, invisível a olho nu, que em outros tempos achávamos que imbuía o corpo com graça e leveza. Mas o mundo deu voltas para o lado errado, e hoje há pessoas que perderam sua alma em meio à guerra, ao álcool e ao pântano. E desses, quem pode compra almas enlatadas, vendidas num comércio ilegal (que é protegido até pelos governos).

- Eles não sentem nada. Eles não são nada.

Mas para quem não tem alma, alívio da consciência se torna desnecessário.


terça-feira, junho 18

Do Coração e da Mente


 Por Maria Ligia Ueno

O meu coração é como um desses relógios velhos, cheio de engrenagens interligadas que só funcionam em conjunto. Por isso digo que não adianta roubar umas poucas delas, só poucas não fazem meu coração bater. Mas o fazem parar. E quando ele para minha vida perde a cor, sem sangue bombeado para alimentar os olhos, nem as pernas para andar e olhar em outras direções.

Mas como um velho relojoeiro, conserto o coração, invento novas engrenagens, gambiarro as interligações, e ponho tudo a perder de novo. Coração batendo, vida seguindo, lágrimas rolando. E assim meus passos seguem, robotizados, afinados e sintetizados por um coração cheio de engrenagens.

O coração cantarola sua música enferrujada, rangendo sua amargura e entoando seu triste canto por todos os cômodos que entra. A presença de tal ruído assusta num primeiro momento, depois desanima todos os seus expectadores e os transporta a um estado de plena compaixão e melancolia.

Pobre coração, esse meu. Todo reinventado para continuar batendo, todo cheio de peças não-originais, fora de seu modelo e que não encaixam tão bem. Todo remendado, costurado, superbondado para ficar inteiro, parece uma dessas obras de arte feitas com cascas de ovo, que se encaixam, mas não estão mais contínuas. Ah sim, porque hoje eu estou cheio analogias, e de neologismos, mas tudo tem sua razão. Por hoje minha voz foi cortada sorrateiramente, e tudo que é importante para mim se tornou seu gole amargo de café frio.

E nisso minha mente constrói grandes pontes e arranha-céus, tentando olhar de longe e de cima, de uma nova perspectiva para entender o que se passa com esse coração. E minha mente é um helicóptero, um mosquito grande e audaz, que é capaz de parar no ar, voar para onde quiser e pousar em quase qualquer lugar.


Minha mente é um helicóptero de guerra, armada, com metas e objetivos, bombas e soldados. Minha mente é feita para a guerra.

Mas não qualquer guerra, mas a guerra de pensamentos, de argumentos, de encanamentos e de chamamentos. E eu perco, perco mais e mais. Batalhas e mais batalhas perdidas, mesmo as ganhas. Porque não sinto que as ganhei. Talvez nem queira sentir o sabor da vitória da guerra , ou talvez já senti e não gostei. Não sei.

É essa a guerra entre a mente e o coração, os dois sentem que perdem, e os dois caem ao final. belo espetáculo.