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sábado, janeiro 12

Cimento curado




Todos os dias eu acordo, e deixo dormir os pensamentos que não se calam à noite. Eu levanto, eu tomo café, eu sinto a brisa fria da manhã. Molho o rosto e sinto a água hidratar meu ânimo.  Eu sinto os sabores, sinto cheiro... Tudo como no tempo em que eu era eu criança acordando pra ir para a escola.

Mais um dia foi vivido e morto no crepúsculo. Talvez amanhã eu possa respirar o mesmo ar da infância. Mas maldade também amadurece, e nós matamos a inocência. Já não existe mais a leveza do tempo do recreio feliz, em que era divertido ver calcinhas coloridas das saias descuidadas. No tempo em que até a maldade era pueril. Sinto saudades de me sentir inocente. Mas a toda hora tentar roubar a inocência que ainda existe em mim. Eu ouvi palavras fáceis, de línguas cruas que escamam espinhos.

Eu acordo todo dia e faço da vida uma prece silenciosa. Bastaria o meu perdão, bastaria viver minha crença.  Minha penitência é ser tratado como gente grande o tempo todo. É ver meu menino exigido ter sido ser adulto no tempo em que eu não sabia ser. No tempo em que eu não tinha obrigação de ser. Obrigação de ser!

Eu me dispo da minha matéria, confesso minhas culpas. Veja, eu me desnudei, e gostaria de poder me mostrar assim sempre. Mas certas verdades ferem o pudor, e os olhares só enxergam o sexo no corpo, como se caíra a folha da parreira, e eu devesse me cobrir e ser expulso.   Eu morro hoje, sem o veneno que bebi no tempo eu que não tinha obrigação de ser puro. Em que não haviam instituído o pecado para mim.

Todos os dias eu acordo, e nenhuma sobra me segue. Eu chego a ter certeza de saber quem eu sou. Eu gosto de quem eu me tornei. Eu caminho para a luz que eu escolhi e a sombra ficou pra trás. A luz cria sombras e deforma a imagem real. A luz nas palavras dos sábios que nasceram gente grande, é a treva. Os que esqueceram que foram crianças, são os infanticidas do passado.

Meu tempo é hoje, estou nu. Vejam o quiserem ver. Quero mostrar que tenho coração, que existe vida nova em mim, que o ar que invade hoje meu pulmão, já não encontra nenhuma molécula da década passada.

Veja, eu tenho olhos castanhos, que já viram muito mais do que possam imaginar, muito mais do que eu queria ter visto. Pernas e meus caminhos, braços e tantos abraços, e apertos de mão, face a face. Eu ouvi ladainhas, eu ouvi misérias, eu ouvi gemidos, muitos provocados por mim. Ouvi pedidos de socorro, eu estendi a mão, eu repeti erros históricos, como um mantra.

Eu estou nu, venta e faz frio, mas quero que me veja assim mesmo trêmulo. Não existe roupa, e nenhuma matéria onde coisa alguma esteja inacessível.

Eu quero mostrar minhas marcas, tudo o que ficou gravado em mim. Podes ver o quanto quiser, e podes preferir desacreditar. Pode parecer uma pintura feia, um quadro muito abstrato. Gente não se faz de forma métrica. Talvez alguns panos devam mesmo estar em preto em branco. Eu te ofereço meus rascunhos e podes usar a tinta que quiser. Só não posso mudar o que já foi pintado.

Não peço a ninguém que me entenda inocente. Mas eu ainda sei sonhar. Eu acredito em gente grande, e tenho coragem de ficar nu quando sentir que devo. Um dia pensei que minha história podia ser escrita com tinta permanente, e tenho feito. Um dia eu pensei que tudo que escrevi a lápis, eu poderia apagar. Mas eu seria metade páginas em branco, e tudo escrito depois, se derramaria e viraria um borrão confuso e insustentável. Eu ainda sei sonhar. Eu acredito no amor. Eu sempre amei, eu sempre quero.E sou a soma de tudo que vivi. Não creio que poderia ser diferente. Não vejo porque ter sido.

Sobre os pecados cometidos, talvez neste momento eles me reclamem ao inferno. “Mas eu não acredito em deuses que nunca dançaram”. Quem é o meu inquisidor? Quem é que pode fazer da minhas confissões uma sentença, quando eu me faço livre a ponto de ficar nu?

Eu sou mais que os pensamentos vivos, e os sepultados também. Nenhuma lembrança me que me acusa, me faz sentir indigno de mim. Línguas inflamadas me perturbam é verdade. Mas eu me ouço muito bem.

Eu acredito que as pessoas possam ainda acreditar. Que não estamos todos engessados no hoje. Seria duro demais. Eu acredito, que eu possa querer ficar nu, sem sentir o medo da eminência do apedrejamento. Eu acredito que eu não precise esvair até a última gota, pra lavar a honra daqueles que vivem e procuram insultos em todos os tempos.

A história é um construtor, um substrato, e o tempo das escolhas é hoje. O cimento que sofreu cura não se adere a mais nada, mas o maciço dos escombros serve de alicerce. As grandes obras, sempre nascem dos escombros, do cimento curado.

Eu acredito nas palavras, nas palavras de quem amo. As palavras que tiram a roupa. O amor me despiu. Não é fácil ser gente, ser gente racional. É que os sentimentos, eu sei, são muitos fortes.




sexta-feira, julho 20

Seja como os cavalos...


Depois de caminhar por dias e noites sem parar, sem dar sinal de cansaço, o camelo subitamente se ajoelha e morre. E deixa o viajante desavisado também morrer no deserto. Caminhar lento, orgulhoso e suicida.
 “Camelo de tróia”, que carrega o mal dentro de suas concorvas, e faz do oásis prometido o seu al’manak. Como uma amante insatisfeita que finge ter prazer faz da cama um altar de sacrifício. Os gemidos “ensaiados” limitam as descobertas. O silêncio estraga as relações.
Sempre que cansado, o cavalo se acoa, relincha e dá coice. Carrega em uma cela leve o seu altivo cavaleiro, mas na sua garupa, se for uma princesa. Caminhar ágil, de cavalo refeito, só carrega o peso que pode confortavelmente suportar. Vai para onde guia o cavaleiro, mas no seu tempo e na sua marcha natural. Cavalo obediente, mas nem por isso submisso. Sobreviveu ao deserto, e levou seu general pra casa.
Existem pessoas que se comportam com os camelos, e pessoas que são cavalos. As “pessoas camelos” encerram tudo em segredo. Não falam de seus problemas com ninguém, mesmo tendo toda liberdade e acolhimento. São orgulhosas demais, vivem a ilusão de serem auto-suficientes. Nunca aliviam o peso. Carregam uma mochila de culpa, por que o orgulho não as deixam pedir perdão. Guardam mágoa e rancor, e “envenenam suas almas, esperando que os outros morram”. Escondem no porão da consciência suas aflições. Ruminam pensamentos absurdos, mas não regurgitam, pra não perder a elegância.
Camelos que choram pra dentro, entranhas que gritam de dor. Mas por fora existe um sorriso amarelo que tenta convencer de sua força, um sorriso leporino. E assim vão caminhando rumo a um deserto sem fim, para lugar nenhum. Não pedem abrigo, quando a tempestade chega se perdem no caminho. E quando toda a gordura foi queimada, se ajoelham e morrem no deserto, não alcançam o oásis. Al’manak no jardim. O amor morreu na cama!
As pessoas do tipo cavalo galopeiam livres, na sua marcha. Carregam apenas o que suportam. Falam o que pensam, não encenam. Entendem que se abrir e pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é uma forma de recompor a força. O orgulho não é um cabresto que amarra, nem a rédea que determina pra sempre o rumo dos seus passos. Não fazem chantagem emocional, mas também não tem vergonha de deixar as lágrimas rolar. Não negam suas fraquezas, assumem e trabalham para serem fortes.
Seja um cavalo quando estiver atravessando sues desertos, e continue marchando como um cavalo sempre. Certamente chegará ao manancial, de “água pura e fresca”. Talvez o seu cavalo encilhado só passe uma vez!



terça-feira, junho 12

Lembranças de um clone


Fomos feitos em formas sujas                                               
Untadas com sangue contaminado
Fomos feitos em camas de mentiras
Somos frutos do pecado
Somos a cópia quase perfeita de monstros sem respeito pela vida
Não nos deram sequer um coração de pedra
Colocaram chips em nossas cabeças
Não temos álbum de família
Não sei o que é sentir amor
Só sinto dor e não posso chorar
Eu não tenho lágrimas

Fomos programados para sermos magros crapulosos
Que sonham com virgens impossíveis
E se inclinam mudos e impassíveis ao mundo
Somos escravos imundos
Somos pastores sem igreja
Somos servos desalmados
Somos soldados
E estamos feridos e desarmados

Não tivemos o direito de nascer de parto
Fomos feitos em formas sujas
Untadas com sangue contaminado
Nosso presente está no futuro
Do passado sem progresso
Gostaria de ter tido infância
Ter um pai que me ensinasse o que era certo
Mas meu futuro é incerto
É o fim cada vez mais perto


segunda-feira, maio 28

Chuva Ácida

Os gritos ecoam fúnebres
Em meio à chuva que desaba neutra
Trovões estrondam no céu cinzento
Antecipando o pranto de nuvens
Carregadas de sofrimento e dor

Cada um de nós é um céu
Que brilha nos dias de glória
Que morre ao entardecer
Na beleza do pôr-do-sol
Céu de noites estreladas e da lua dos amantes

A chuva se fora do suor de faces cansadas
E das lágrimas derramadas em vão
Fazendo o céu tristonho
Chorar melancolicamente

Cada um de nós é um céu
E há dias em que o sol não sai
A tempestade se forma imperceptível
Precisa cair pra lavar alma
Levando consigo a acidez da terra                                                
Trazendo com a chuva os insumos da paz

quinta-feira, maio 17

Como Partir sem Olhar para Trás?


E como partir sem olhar para trás? Se sem os pedaços de mim que ficaram, me sinto mutilado. Como partir inteiro aos pedaços?

Ela disse não ter mais certeza. Mas disse que me deixaria ficar por perto. Como não olhar para trás? Se ainda há carinho, quando sei que ainda há amor? 

Talvez só cansaço. Um terrível cansaço. Daqueles que faz nascerem demônios.  Mas ainda assim há ternura na despedida. 

Meu amor chorou. E eu sei as razões. E mesmo assim, fui preservado. Ela me disse que não consegue mais acreditar. E isso me matou. Me matou...

domingo, março 25

O que se Perde

O mundo em preto e branco
As cores já não suavizam as retas duras do concreto
Agora só resiste o que é realmente belo
O que não se perde na luz difusa

O mundo em escala de cinza
A rosa não é menos bela por não ser mais rubra
A disposição das sépalas ostenta sua coroa
O que não se perde a majestade

O mundo em flash-back
A vida passa lenta quando se corre sem propósito
Na tela da mente a projeção do futuro
O que não se perde com o tempo.

O mundo sem tempero
Fast food e jantar sozinho
Num restaurante popular a companhia de estranhos
O que não se perde com a solitude.

O mundo enfurecido
Palavras atiradas como facas, pensamentos disparados
Nos versos do poeta cada fonema é um afago, cada verso uma oração
O que não se perde na catarse

O mundo vide bula
Antidepressivos e calmantes
Em cada comprimido uma dose de equilíbrio
O que não se perde na crise.
                                                         
O mundo em litígio
Casamentos por conveniência, contrato pré-nupcial
No amor sincero a esperança, comunhão dos bens da alma
O que não se perde para a ambição.

O que não se perde, o que se perde?
Nada, nada se perde...
A perda é uma opção passiva!

Não se perde a fé,
Todo o dia o sol nasce e banha de luz a escuridão do pensamento
Não se perde a esperança
Quem sabe um dia ele volta a nos procurar
Não se perde a ternura
O sorriso da criança acalma os ânimos coléricos.

O que se perde, o que se perde?
Tudo, tudo se perde...
Quando se esquece como amar!


quarta-feira, março 14

O Sal Da Terra



Vou para caverna de sal, como fazia Van Gogh, calar meu pensamento e estabilizar o humor. Queria ir pra Minas, “Minas não há mais”!

Vou para as cavernas das minas de sal de lítio, ou qualquer lugar amarelo que me dê fome, que me dê sede, que me sacie. Gritar palavras sem sentido, me masturbar, fertilizar o solo, fertilizar o óvulo. Talvez encontre sossego nos braços da madura carente ou nos seios da perturbadora ninfeta.

domingo, março 11

Vide Bula

Bipolar até que é legal! Hoje basta ter um pouco de instabilidade e dizem logo “...parece que é bipolar”, e fica tudo justificado. Há também os que fazem seu
próprio diagnóstico...“eu sou assim mesmo meio bipolar”. Parece haver certo
charme, uma inclusão no mundo de loucos geniais, tem efeito de satisfação.
Virou modinha!


MANÍACO DEPRESSIVO! Dito assim parece muito agressivo não? Mas é isso aí, a nomenclatura não muda o quadro, apenas torna mais leve pra quem está de fora, mais aceitável.
Você já ouviu alguém falar que se acha um pouco maníaco depressivo?


Que os rótulos fiquem na coca-cola e nos frascos de maionese... baixa caloria, 0% de gordura trans, contém glúten, validade no fundo da lata.