quarta-feira, dezembro 4

Do tempo


O tempo me esquece e sinto minhas unhas irremediavelmente transformarem-se em garras. Estas adentram minha carne e me despedaçam em três.

A tríade Aristotélica, fruto da passagem do tempo pelas minhas mãos, envelhecendo-as, engradecendo o tato, criando habilidades cirúrgicas para o conserto de minhas juntas, e para o zelo com meus calos.

E o tempo cruel arrasta-se em triângulos desenhando minhas expressões faciais e pintando as cores do meu esmalte, e bordando as rugas dos meus risos.

Aplica-se em minha alma a teoria da relatividade, mitigando meus dogmas e meus preconceitos, acalmando minhas preces e extirpando minhas dúvidas. A fé devora meus encantos e meus defeitos, e a mesma fé rasga a sola dos meus pés, colocando-me em eterna provação.

O tempo é colaborador da sapiência, e cicatrizante das feridas. Aerossol de tempus verbum.

E ressuscito a deusa que me habita o corpo, reanimando a própria com sua forca, fé e esperança. E minha deusa esquece o tempo e faz deste teu servo e teu escudeiro. E minha deusa escreve com meu sangue e deságua minha mente no papel.

Minha mente iludida e derretida entrega a cera quente - que são minhas opiniões - aos leitores, arrancando seus cabelos sem sombra de compaixão. E minha mente, palhaça com palavras, prega pecas na deusa que habita meu corpo, e com a alma, refaz minha fé.

E o tripé que me sustenta segue manco, compassado pelo tempo que tatua a minha pele de forma invisível, e concretiza as pegadas  na calçada não famosa da minha vida.

quinta-feira, novembro 28

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 02




Raul Seixas morava próximo ao consulado dos E.U.A em Salvador na Bahia, era amigo de filhos de funcionários do consulado e foi através deles que manteve contato com os discos de 75 rotações de rockabilly. Esse primeiro contato com toda cultura rocker dos primeiros anos, fizeram marcas indeléveis na formação do jovem Raul Seixas, a mesma época por influencia dessa descoberta Raul monta com Waldir Serrão outro jovem fã de Rockabilly, um fã-clube de Elvis Presley. Essa aproximação com a musica jovem americana trazida pelos amigos do consulado fez inclusive que Raul Seixas viesse a estudar o idioma americano, o qual anos depois Raul dominava fluentemente. Numa época que a Bahia vivia também o nascimento da Bossa Nova de João Gilberto e Vinicius de Moraes, dois locais de apresentação na capital bahiana nessa mesma época duelavam com propostas diferentes, eram eles o teatro Vila Velha casa dos bossanovistas e o Cinema Roma reduto dos roqueiros recém-formados na cidade liderados por Waldir Serrão e Raul Seixas.


No inicio dos anos sessenta Raul Seixas monta com alguns outros amigos a banda Raulzito e os Panteras, a banda ficou famosa em Salvador e nas cidades do interior tocando covers dos primeiros grandes artistas do rockabilly como Elvis Presley, Ed Chrocane, Jerry Lee Lewys, Gene Vincent e outros. Certa vez o cantor Jerry Adriane em turnê pela Bahia teve contato com a banda e ficou impressionado com apuro técnico dos músicos, chegando a tocar com eles em algumas apresentações por conta de problemas com a chegada da sua banda a cidade. Nessa mesma época Jerry Adriane indica o grupo a gravadora EMI-Odeon e no final de 1967 eles vão ao Rio de Janeiro gravar o primeiro álbum da banda, que é lançado no inicio de 1968. As vendas desse disco ficaram abaixo das expectativas da gravadora, obrigando o grupo a retornar a Bahia e logo depois decretando o fim precoce da banda.




quarta-feira, novembro 27

Raul Seixas, Filosofia, Politicas e Lutas - Parte 01



Por Natan Castro

A segunda guerra mundial, de alguma forma causou transformações em âmbito mundial no planeta terra, modificações essas que talvez os astrólogos e os místicos possam explicar melhor. É impressionante o que anos de medo, opressão e privação de liberdade causou nas cabeças de jovens do mundo inteiro. O que ficou bem visível após o término da segunda guerra mundial, foi toda uma liberação em geral que essa juventude se pôs a fazer logo depois, seja a galera que pegou a estrada, ou aqueles que iniciaram uma nova análise sobre os direitos sociais e por último os demais que sonharam mudar o mundo através da arte. Existia de fato uma sintonia entre esses milhares de jovens no mundo inteiro, mas é claro que a nação americana foi onde essas modificações acharam um território mais propicio para acontecer. Desta forma o Rock “n” Rool foi o meio, a linguagem dentre algumas outras, o melhor veiculo para que a mensagem se propagasse de forma mais rápida e objetiva.

Elvis Presley o primeiro messias, o precursor de uma atitude, o primeiro branco a cantar como uma voz de um negro, a adoração por parte das garotas americanas, o espelho para muitos garotos dos E.U.A que após ele, perceberam que era possível empunhar uma guitarra e cantar suas dores e seus sonhos. Do outro lado do oceano quatro rapazes de uma cidade portuária da Inglaterra formaram a primeira grande banda de rock e, por conseguinte a maior de todos os tempos e esses mesmos rapazes de certa forma levaram adiante aquilo que Elvis deu inicio, agora de uma vez por toda a invasão foi global, esse ritmo num compasso quatro por quatro com um misto de atitude e musicalidade, representava então a maior revolução depois da última grande que foi a revolução industrial. Representando os dois grandes pilares dessa nova era, Elvis Presley e os Beatles, trouxeram consigo uma leva bastante significativa de grandes artistas. O mito Bob Dylan, os geniais Jim Morrison e Janis Joplin, o mago Jimmy Hendrix só para citar alguns desses grandes artistas que foram gerados em meio a essa revolução.

Mas, as cabeças sintonizadas com essas ondas de novidades, não estavam somente nos E.U.A ou no Reino Unido. Diversos artistas não paravam de nascer em diversos lugares do planeta, até porque as rádios do mundo inteiro junto com o cinema faziam com que essas informações chegassem a toda a juventude em âmbito global. Foi nesse ambiente de profusão cultural que no Brasil, na região do Nordeste, no estado da Bahia, um garoto franzino filho de um engenheiro e de uma dona de casa, chamado Raul Santos Seixas surge como o principal integrante tupiniquim dessa onda chamada Rock “n” Rool.




quarta-feira, novembro 20

Nirvana (Unplugged) in New York - Documentário



Por Natan Castro

Somente uma banda de rock conseguiu chegar próximo dos Beatles, quando nos referimos ao impacto causado no público e na critica em escala mundial, essa banda sem dúvidas é o Nirvana de Kurt Cobain. Há dois dias uma apresentação seminal desses caras completou vinte anos, foi exatamente no dia 18 de Novembro de 1993. Nesse dia o Nirvana se apresentou em um teatro em Nova York na gravação do seu lendário show acústico para a MTV americana. A essa altura dos acontecimentos a banda já havia quebrado padrões no showbizz, quando conseguiu ser a primeira banda proveniente do cenário underground americano a fazer sucesso no mundo inteiro com o lançamento do álbum Nevermind um ano atrás. Um power trio como pouquíssimas vezes tinha se visto em cima do palco, a junção de uma atitude punk, juntamente com arranjos avassaladores e letras que diziam muito sobre a geração pós queda do muro de Berlim, eles estavam à época no centro das atenções de todo meio musical, quando aceitaram o convite para se apresentarem num formato acústico, quase impensável para quem já tinha escutado os álbuns, assistido os clips ou até mesmo visto eles ao vivo. Porém o que se viu nessa apresentação foi tão marcante que até hoje esse show em especial é tido pela maioria como o melhor acústico de uma banda de rock em todos os tempos. No documentário abaixo temos a oportunidade de saber como foram os preparativos para a apresentação, por quais motivos alguns covers ficaram no lugar de alguns sucessos no set-list, e também o momento mais especial da apresentação quando Kurt Cobain pede pra tocar Pennyoral Tea sozinho com voz e violão e deixa a plateia hipnotizada com uma das maiores interpretações solo já vistas num show de rock. 




quinta-feira, outubro 31

Caso Hugo Farias



Os últimos dias que estava ocorrendo o 7° Felis (Feira do Livro de São Luís) no bairro Praia Grande do centro histórico de São Luís, aconteceu uma cena lamentável aos olhos que estavam presente, uma agressão dos guardas municipais ao suposto hippie que estava vendendo os seus produtos de artesanatos entorno do evento que estava ocorrendo.
O pior estaria por vir, com a sensibilidade das pessoas presentes ao verem o “hippie” ser agredido de maneira covarde pelos homens da guarda municipal, entra em cena o jovem advogado que não se conteve e resolveu se manifestar contra a arbitrariedade e a detenção do “hippie”.
Está certo que alguns “hippies” incomodam muitos frequentadores do local e turistas, desde a pedir esmolas até cometer pequenos furtos, mas muitos destes são de fato moradores de rua e dependentes químicos, e isso deve ser encarado como caso social e saúde pública e não de polícia.
A reação do advogado Hugo Farias em manifestar contra a detenção do “hippie” contra os homens da guarda municipal voltou contra a si também, que os mesmos homens da guarda tratam com truculência resolveram dar voz de prisão por desacato, alguns vídeos postados nas redes sociais mostram o suposto descontrole do jovem advogado sobre os guardas.
Alguns que eu vi não consta o áudio, somente as imagens, e sem o áudio não dá pra definir de forma clara o acontecimento, uns falam que o advogado Hugo Farias humilhou os guardas ao afirmar que os seus salários não dá pra comprar a cueca que ele veste, e esse foi o motivo dos guardas darem a voz de prisão e conduzir até a delegacia da Refesa na Beira Mar.
O outro vídeo que está circulando que mostra a suposta humilhação do advogado aos guardas e o seu descontrole, é de apenas 10 segundos, muito pouco pra constatar e além do mais não mostra o Hugo Farias em discussão com os guardas, e sim ele sentado num balção da delegacia citada e falando as pessoas presentes sobre a suposta afirmação no que ele disse, a exibição do vídeo é bem curto e não dá pra constatar em nada no que disse o jovem advogado.
Não estou aqui defendendo o Hugo Farias, entretanto, não vou demonizá-lo como tem feito algumas pessoas, se ele disse ou não aos guardas que o salário que eles recebem não dá pra comprar a cueca que ele veste, não vem o caso pelo aqui neste artigo, se ele disse que provem de fato, caso ele tenha realmente afirmado, eu lamento profundamente.
A voz de prisão dada ao jovem advogado e levá-lo até a delegacia da Beira Mar, a Refesa, se deu por um único motivo, por ser negro, isso mesmo que você acabou de ler, por ser negro, não é mania de perseguição ou achar que tudo é associado ao racismo.
Isso ocorreu pelo fato dele ser negro, mas ele não é advogado William? Sim, mas não isenta devido a cor da pele, e infelizmente isso acompanhará por toda vida, eu falo isso porque sou negro e sei bem como as pessoas agem quando vê um negro numa condição social mais elevada.
Eu queria e muito que os homens da guarda municipal agissem com o advogado de pele branca, olhos azuis e cabelos loiros e/ou sendo filho de desembargador, promotor, procurador, corregedor, juiz, advogado influente ou político, principalmente este último ocupar um importante cargo do governo e ter uma forte influencia com as autoridades do poder judiciário.
Seria capaz de dar a minha cara a tapa se os homens da guarda seriam capazes de agir como agiram com o Hugo Farias, quem nunca ouviu esta frase? “Você sabe com quem está falando?” Eu mesmo sei muito bem o que isto significa e o peso que carrega esta palavra numa sociedade injusta, desigual, excludente, segregadora, machista, homofóbica e racista, e o pior, uma sociedade que persiste em manter os resquícios da escravidão que são muito presente em dias atuais.
Eu mesmo nos primeiros anos que eu trabalhei na prefeitura de São Luís, trabalhei em estacionamento na época era alugada a prefeitura que pertencia ao antigo casino maranhense, sofri muitas humilhações e desaforos de alguns donos de carros e até mesmo de alguns motoristas, e numa dessas eu sempre ouvia “Você sabe com quem está falando?”
Se supostamente o jovem advogado Hugo Farias afirmou isso aos guardas, isso é devido ao fato dele fazer um curso extremamente conservador e elitista, o direito, que apesar da existência das cotas raciais e o aumento de jovens pobres e de escolas públicas ao curso de direito na UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e outras instituições públicas de ensino superior pelo Brasil afora, o curso mantém as tradições de pertencer a elite e com o pensamento reacionário.
É deste curso que se forma os filhos de juízes, desembargadores, políticos, advogados, procuradores, corregedores, promotores e das pessoas da alta sociedade pra se tornar futuros juízes, políticos, desembargadores, promotores e até mesmo ministro do supremo ou tribunais superiores em Brasília – DF, é deste ambiente que viveu academicamente e se formou o Hugo Farias, e nesse ambiente a famosa frase “Você sabe com quem está falando?” é regra e corriqueira ou até mesmo encarado com naturalidade nos corredores e nas salas de aula do curso de direito.
Mas eu ressalto, se o Hugo Farias afirmou ou não, isso não vem o caso deste artigo, e sim a repercussão na cidade envolvendo o jovem advogado, que reitero o ocorrido devido o fato dele ser negro. Você é contra a atitude dos guardas por terem sido ofendidos?  Não sou contra, mas eu queria ver se eles teriam coragem de fazer com outro advogado sendo este influente na sociedade ou filho de alguma autoridade.
Ele é advogado, mas infelizmente a cor da pele será o empecilho de ser visto, tratado e respeitado como ser humano, antes de saberem a sua função e condição social, ele está passível a situação vexatórias e degradantes, e sempre haverá alguém que vai querer manchar a sua imagem.
Eu falo com o conhecimento de causa, já passei por isso mesmo sendo professor (aprovado duas vezes no processo de seleção que haviam mestres e doutores concorrendo, sendo que muitos destes não foram aprovados) da UEMA (Universidade Estadual do Maranhão), muita gente duvida e questiona a minha capacidade intelectual por eu estar lecionando na instituição de ensino superior, fui vítima de abordagem policial em Loreto – MA ano passado (2012) quando estive na cidade pela 1° vez pra lecionar, mas comigo os policias apenas fizeram perguntas, quem eu era, porque eu estava na cidade, e tive que apresentar a minha carteira de identidade, mas sem armas ou cassetetes em punho e muito menos eles mandaram eu ficar de mãos pra cima, pernas abertas e encostado na parede, mas contudo, não deixou de ser o constrangimento logo de cara pra quem chega na cidade.
A nossa sociedade infelizmente ainda não está habituado a ver jovens negros, como Hugo Farias, Eu e muitos outros a estarem numa condição social mais elevada e com a função social que exige respeito, e antes de saberem quem é cada um nós, continuaremos a passar por humilhações e constrangimentos.
E cabe a nós a bater de frente contra o sistema e todo o seu preconceito e discriminação, seja contra os negros, mulheres e homossexuais, principalmente aqueles que não são satisfeitos de nos verem nos patamares elevados que pra eles deveríamos estar na senzala ou abaixo deles, como eu, por exemplo, de guardador de carros em estacionamento e office boy da prefeitura de São Luís a professor universitário da UEMA, isto é um insulto e ofensa, mas continuaremos a insultar e ofendê-los.
Eu não conheço o Hugo Farias, tenho colegas de faculdade que o conhece, e todos afirmam que ele tem uma conduta ilibada, e espero que o jovem advogado não abaixe a cabeça e encare a tudo isso que está passando, porque alguns homens da guarda municipal devem ter falado algo que o levou a revidar.

Porque apenas os negros e pobres como nós sabemos perfeitamente o que é passar por situações quem nem essa que nos coloca muita das vezes como bandido ou mau caráter perante a sociedade ou a opinião pública, especialmente aos leigos e desinformado