Eu amava as literaturas
pornográficas de pouco sucesso e com ortografia problemática, que ao mesmo
tempo possuíam um ar de dor e desespero honestos e sinceros, inocentes insanos
melancólicos contemporâneos - mas que devem ser atemporais e sempre devem ter existido.
De vez em quando atravessava crises existenciais e me recusava a escrever, não
havia um comportamento padrão para essas crises e nem um tempo certo para
durarem. Quando acontecia as vezes eu saía fazer algo que raramente fazia,
quebrar a rotina, caminhar por becos escuros (pode-se dizer que isso não passa
de uma vontade de morrer, impulso religioso, que um cão raivoso me encontre)
mas não era isso que queria. Mergulhava de bico na dor sem sentido que sentia e
esses mergulhos quase me matavam realmente de dor. Ainda lembro de deitar
olhando para o teto sem saída e sem poder fazer muito mais do que arranhar as
paredes, sentir a respiração ficando falha. Nosso espírito é mesmo poderoso.
Pensar no amanhã é terrível. A morte trazendo champagne numa bandeja
cintilante, por que não? É só uma jogada criativa, tornando os bares mais
coloridos para poder continuar frequentando-os. O mijo nas paredes das
esquinas, à meia luz porta adentro, corpos curvados sobre mesas e garrafas,
copos plásticos, música ruim, piadas ruins, garotinhas sem cérebro com uma
vontadezinha dionisíaca de dar o cu e contar pras amigas, sem mais. A invontade
de admitir que estamos perdidos, a literatura underground, os poetas do
ceticismo orgulhoso de mula empacada. Os que não escrevem e também não vivem.
Os que nunca mudaram de cidade. Os caipiras de Soledade. Os animais selvagens.
A vontade de me perder em estradas de chão. A Kombi estacionada na garagem do
meu avô antes assassinado por um motorista bêbado. Eu não vejo e nem quero ver nada.
Não ouso adentrar no bar. Não suportaria um olhar de qualquer um lá dentro. Sou
fraco. Covarde. Vou comprar a Kombi do meu avô e viajar por aí. Ainda não fui.
Continuo aqui, sem mais me esquivar da vontade de chorar. As pessoas tentam
conversar comigo e escuto a sua voz baixinha como se estivessem distantes
demais. Tento gritar mas parece que o som se distorce no caminho. Estamos todos
perdidos uns dos outros num deserto infinito, meus caros. Estamos sós nessa. A
solidão é algo com o que já nascemos e passamos o resto da vida tentando
maquiar como uma cicatriz horrível no rosto. Só que está por dentro. Estamos
por dentro, por trás, por baixo. Nunca sobre a pele. Mas que beleza, isso tudo.
Bukowski sorri para mim ao lado do teclado virando uma taça de vinho. Seus
olhos quase não existem, mas são de uma tranquilidade organizada, como se
soubesse a verdade do universo. E talvez seja assim mesmo. A vida é um tigre
que te devora. Mas que beleza possuem os tigres correndo pelos campos e
dormindo nas árvores! Nada mais bonito que um felino sob a sombra de um
coqueiro lambendo o sangue das patas.
domingo, março 31
sábado, março 30
O Canto dos Malditos - Sergio Sampaio
O Bloco do Sampaio
Por Natan Castro
Na dita Academia Brasileira
dos Malditos, Sergio Sampaio é sem dúvidas um caso especial. Nascido em
Cachoeira do Itapemirim (ES), dizem que foi amigo de Roberto Carlos na infância, esse artista diferente dos demais teve
somente um grande sucesso nacional, a canção “Eu vou botar meu bloco na rua” lançada em 1972, foi um sucesso estrondoso.
Teve seu primeiro disco produzido por Raul
Seixas que é considerado seu padrinho musical, haja vista o convite que fez
a Sergio Sampaio para participar do projeto do álbum “Sociedade da Ordem Kavernista, Apresenta Sessão das Dez” que de
fato foi o seu ponta pé na vida artística. Diz à lenda que Raul Seixas à época produtor
da CBS foi procurado por dois artistas, um deles o próprio Sergio e o outro
Paulo Diniz. Raul Seixas teria gostado muito e o aceitado para seu cast.
Depois do sucesso com seu
primeiro álbum e seu hit nacional, a mídia musical tratou de selar na imagem de
Sergio Sampaio o estigma de o mais maldito de todos os malditos da MPB. Um
espetacular compositor com canções intimistas recheadas de imagens poéticas,
canções essas interpretadas em forma de blues, rock, samba. Dono de uma
refinada técnica de violão, Sergio Sampaio sempre foi um compositor prolífico,
porém dono de uma personalidade forte e teimosa, boêmio contumaz adepto do álcool
e da cocaína. Sergio Sampaio viu seu parceiro Raul Seixas estourar
nacionalmente com ótimas vendagens e discos geniais, enquanto ele amargava
apresentações para públicos mínimos de bares do baixo Leblon. Tendo lançado
mais dois discos com belíssimas canções mais com pífias divulgações por parte
das gravadoras, somente depois de sua morte um fã de longas datas o cantor Zeca Baleiro junto com outro parceiro Sergio Natureza produziram um álbum em
sua homenagem chamado “O Balaio do Sérgio”
com suas canções sendo interpretadas por grandes nomes da MPB. Para logo depois
ser lançado seu álbum póstumo chamado “Cruel”,
Sergio Sampaio é sem dúvidas um artista para gerações vindouras e de fato cada
vez mais suas canções são conhecidas em âmbito nacional, o que infelizmente não
aconteceu com ele em vida.
quarta-feira, março 27
LEVANTA A CABEÇA
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segunda-feira, março 25
domingo, março 24
Mirtes
a fumaça subia para a luz dos postes e ganhava o mesmo tom laranja das
lâmpadas. era só fumaça, reflexo, química. tentei escrever. escrever é inútil
para quem não possui certezas — as palavras apenas substituem as coisas — como
a verdade que destrói a esperança toma o seu lugar com a mesma energia, a mesma
vitalidade. queimei a ponta do papel com o cigarro e fiquei olhando ele pegar
fogo. é a vida. o fim da escrita. o fim da literatura. e não é de hoje que se
fala nisso; no quão miserável e inútil é todo pensamento, toda arte, toda a
verdade. bem, que se dane tudo isso. levantei da calçada e subi para o meu
quarto. lixo atômico espalhado no chão. coloco o pen-drive no som e começa a
tocar um estilo eletrônico que conheci conversando com um cara num bar. não lembro
bem de como ele definiu esse estilo, só que se chamava Vaporwave e era foda.
comecei a ouvir e ele tinha razão mesmo, parecia música feita dum quartinho por
um maluco que nunca saía de casa. abri a geladeira, peguei uma cerveja e não
acendi as luzes. liguei a televisão no mute e fiquei olhando as imagens,
ouvindo aquela música. parecia fora de mim. me via iluminado pela luz do
monitor com a latinha na mão. me surgiu na cabeça um pensamento único,
perfeito, sozinho, como um tiro no deserto: “Mirtes”. Bukowski dizia que
existem tantas mulheres legais no mundo que ele até tinha conhecido uma ou 2. a
Mirtes era a única que eu conhecia. de tantas outras. “Mirtes, Mirtes, Mirtes,
Mirtes”. a luz cintilante da televisão. a janela atrás de mim. mitch murder tocando.
eu nunca fui dos escritores malditos e nem dos benditos. Mirtes. a única que
sabia sobre o amor. a única com quem eu ainda tinha paciência de conversar.
peguei o telefone e pensei em ligar. mas não liguei. ela vai chegar às 11 da
noite. eu espero. a minha garota. que não é minha. porque não posso ter nada.
de repente a tevê e o som desligam. a luz acabou. eu fico sentado no escuro com
essas batidas na cabeça. eis o nada que sou. o nada que nem sempre fui. espero
que ninguém se importe com a minha mania de escrever sempre sobre mim. mas o
que eu teria que saber dos outros? a luz volta. o som fica piscando. a tevê
acende. e a Mirtes entra pela porta. “Oi” ela diz. o meu sorriso daria um final
feliz para um livro qualquer. eu ligo o som e a gente fica ouvindo mitch murder
juntos. sei que ela tem medo de relacionamentos e dias calmos demais, por isso
segurou a minha mão com força até pegar no sono.
Um filho
Saiba que iria pra puta que
pariu com você. Íamos fazer um filho, na rede, no coqueiro, cozinha, sala ou no
banho. Nunca saberíamos, ao certo, o dia do encontro do esperma com o óvulo
fértil. Dava o nome se fosse menino. Menina, você escolhia ou pode ser o
inverso, com certeza, rolaria uma discussão sobre isso. Mas mais certeza ainda ia
torcer pelo Sampaio Correa. O time do meu coração e do Maranhão. O do Rio ou de
São Paulo ele escolhia. Plantaríamos batatas, joão gomes, manjericão e
marijuana no quintal e trabalhar o mínimo possível e ter tempo pra irrigar as plantas e cuidar do
bebe até ele criar asas. Ou mesmo se ele não criasse asas
no sentido de um dia sair de casa. Ia ficar com a gente até o fim diferente das
plantas que tem outro tempo de vida. Se nos separamos, sem querer ser negativo,
ainda vou te ligar e falar qualquer bobagem ou se ainda gosta de ouvir aquela
banda de rock. Porque no fundo as bobagens não são só um alívio e algumas
bandas de rocks são legais.
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