segunda-feira, setembro 5

CRIME E PAUDURESCÊNCIA

 CAPÍTULOV

Nice to meet you, i'm your dick

DOUTOR – Para evitar qualquer mal estar, você fica em observação por, pelo menos, 24 horas... Até lá, veremos se há o surgimento de uma necrose... Esperamos que não... Mas, para o seu conforto, existem vários casos de câncer de pênis e muitos homens que vivem normalmente sem o órgão genital... Isso não é um problema. Quer dizer: claro que é. Mas imagine que sua sorte poderia ser bem pior: veja o que aconteceu com o velho Thompson...

Silêncio

Alguns médicos possuem uma frieza típica e procedimental. Tratam qualquer caso com a mesma entonação técnica, como se avaliassem o corpo do ser humano como uma espécie de motor avariado... Com a mesma retórica de um mecânico que recomenda a troca de óleo do veículo, o profissional embrutecido pelo exercício da medicina pode receitar um transplante de rim. É claro que cada profissão requer seus termos técnicos, mas, no final, tudo parece a mesma coisa: o paciente com retenção de líquido e o automóvel com o filtro de óleo entupido...

Apesar da notícia dada sem eufemismos, Wilson tinha um senso prático para qualquer situação. Lamentar seria uma perca de tempo. O drama, face à dura realidade, é algo descartável. Não ajuda em absolutamente nada. Não resolve crime algum. Apesar de saber que eventualmente poderia não mais ter o pênis – o que levaria maioria dos homens a pensar em suicídio -, o detetive tratou de dar prosseguimento ao que fazia quando, enfim, fora interrompido...

DOUTOR – Bem... O senhor está muito agitado... Vou pedir para que a enfermeira lhe dê um calmante. Talvez ele atenue o efeito dos estimulantes sexuais... Por enquanto fique aqui e lembre-se: deite-se de lado...

Retira-se.
           
A recomendação do médico não era arbitrária. Digamos que o membro de Will não era um dos mais discretos. Além do mais, túrgido como estava, parecia que a qualquer momento iria saltar do corpo. O Detetive o sentia latejar. Algo parecia que pulsava. A impressão é que havia um coração ali dentro...
 Sem mais detalhes.
Tudo que se pode falar a respeito é extremamente constrangedor e uma descrição um pouco mais detalhada pode comprometer a narração, desvirtuar a prosa e corromper os leitores mais curiosos...
Não percamos o foco...
 O fato é que, daquele jeito, ele não poderia ir para lugar algum. Ali, era como se tivesse um pedaço de ferro 50 soldado em sua virilha.  Estava preso, não por grades, mas por uma condição ultrajante. Sentia-se praticamente como Quasimodo, mas com a corcunda deslocada para outro lugar...
A tensão do detetive já estava prestes a chegar bem perto do desespero...

UMA VOZ EM OFF - Pelo visto, detetive, você não sabe o que fazer...
WILSON (Sobressalto) - Quem é você, filho da Puta!
VOZ - Ora quem? Você me conhece muito bem! Somos amigos de infância...
WILSON (irritado) – Quem está falando, merda!
VOZ - Se acalme, detetive. Não sou nenhum desconhecido. Na verdade sempre estive com você. Sempre te ajudei. O problema é que você trabalha demais... Ai, ai...
WILSON - Apresente-se, desgraçado!
VOZ - Pois não! Me chamo Mefisto! Queria poder apertar sua mão, mas neste momento estou incapacitado para tal.
WILSON - Mefisto?! Puta que pariu! Isso é uma piada? Apareça, miserável!
MEFISTO - Pare de me xingar ou, pelo menos, se o fizer, utilize o palavrão adequado...
WILSON (tentando ignorar a voz) Só posso estar ficando louco... (Procurando pelo quarto) Tenho que sair daqui... Onde colocaram minha calça, caralho!
MEFISTO - Assim está melhor, apesar de não me sentir muito a vontade... Prefiro Mefisto... Esse nome me lembra alguma coisa... Algo grandioso... Enfático... Mas não sei de onde vem...
WILSON – Fausto...
MEFISTO – Não, não! Me chamo Mefisto...
WILSON – (olhando debaixo da cama) Mefistófeles, da peça Fausto, de Goethe, idiota! É um livro, ou uma peça, os dois... Foda-se!
MEFISTO - E o que ele é? É o protagonista, por acaso?
WILSON – (abrindo as gavetas do armário) É uma espécie de demônio para quem Fausto vende a alma...
MEFISTO – Muito sugestivo... Tem um impacto maior... Muito mais incisivo. Mil vezes melhor que Joãozinho, Afonsinho, esses nomes ridículos que a gente vê por aí...
WILSON – Ora bolas! Para que diabos estou falando com você?! Isso deve ser alguma alucinação...
MEFISTO (como quem freia um cavalo) - Ô, Ô, Ô! Calma, detetive! Um pouco de diplomacia! Eu estou aqui. Sou uma parte de você. Sou seu amigo...
WILSON – Então se apresente de uma vez, ou se cale e pare de me aborrecer...
MEFISTO - Bem, vou me apresentar novamente... Desta vez, preste atenção: Meu nome é Mefisto... Eu sou o seu pau...

Silêncio.
Wilson explode em uma gargalhada

WILSON – Era só o que me faltava... Meu pau! (gargalha) Que ridículo...
MEFISTO – Ingratidão é uma coisa lastimável...
WILSON – Cale a boca! Aliás, por que ainda estou falando com você?
MEFISTO – Ora, duas cabeças pensam melhor do que uma...
WILSON – (falando consigo) Isso deve ser efeito do get him up!...
MEFISTO – Não me ignore, Will!
WILSON – (falando consigo) Deve ser algum efeito colateral, com certeza...
MEFISTO – Se tem uma coisa que me deixa com raiva é ficar falando sozinho...
WILSON – É apenas se concentrar que ela desaparece...
MEFISTO - (num rompante) - Detetive, me escute! EU SEI ONDE ESTÁ A SUA CALÇA! EU SEI COMO SAIR DAQUI SEM SER VISTO! VOCÊ QUER ME OUVIR AGORA OU NÃO?

Um silêncio hostil é jogado no ar

domingo, setembro 4

Apeixonadamente, Letuce*



Para as novas formas de ouvir canção há também novas formas de cantá-las. De todos os nomes femininos que cantam a música brasileira nesta década, são poucas aquelas que retomam a tradição do canto para fora. Ser cool  hoje é cantar preguiçosamente.

Como faz a Letícia, a quem tenho dedicado meus ouvidos nos dois últimos dias. A moça comprida feito a girafa que ela tem tatuada no corpo forma o projeto musical romântico Letuce, junto com o namorado Lucas. No último programa Som Brasil, que homenageou a compositora Marina Lima, os dois protagonizaram a performance mais bonita que já vi na TV. (vídeo)



Ouço o disco Plano de Fuga Pra Cima dos Outros e de Mim (2009). Da capa com foto na piscina - que lembra o meu disco preferido de Gal, Água Viva (1978) – às letras despretensiosas e poéticas, tudo vai ganhando um colorido divertido a cada faixa. As canções tem o encantamento de um novo namoro, com intenções e promessas de afeto.


A Letícia é atriz. O Lucas, guitarrista e arranjador. O canto frouxo dela é abraçado pelos timbres do instrumento dele, que protege a voz da amada com camadas sonoras vigorosas, sustentando a alegria alegórica que a atriz-cantora experimenta no palco.

O som de Letuce tem a duração e a vibração do amor. Pode durar um carnaval ou a vida inteira. Desejo um eterno verão aos dois.



*O neologismo do título cabe aos piscianos românticos.

(os grifos em vermelho são links)


sábado, setembro 3

ABoRReCenTES


MICTÓRIO
Estava com uma amiga da escola discutindo a teoria do heliocentrismo e a força da gravidade.
Quando alguém chega batendo insistentemente minhas costas.
PEDRO (chilado e cínico) - Ei seu nerd, boca virgem e que nunca transou na vida.
O desgraçado me humilha com palavras chulas na frente de uma garota. Que vontade de matá-lo, ou melhor, chutá-lo.
JOÃO (muita raiva)- O que é Pedro?
Pedro puxa João pela farda da escola.
JOÃO- Tu já tá chilado, cara?
PEDRO (chilado) - Não?!É a tua mãe, Einstein. Fumei um quando vim pra essa merda.  Vamos fumar outro?
JOÃO (blefando) - Parei.
PEDRO (chilado e curioso) - Parou, por quê?
JOÃO - Meu pai descobriu.
PEDRO (chilado) - Seu pai não grila. Seu um pai é um corno bem original.
JOÃO (muita muita raiva) - Porra! Não fala assim dele!
Fui embora pra sala de aula injuriado com vontade de chutar alguma coisa (Interessante meu pai também faz isso quando está com raiva – deve ser hereditário). Queria chutar o saco de Pedro e deixá-lo impotente pro resto da vida. Retornei. Entrei no banheiro – não tinha ninguém - e chutei o mictório. Caralho! Quase racho dedão, mas o mictório de porcelana rachou em vários pedaços espirrando água e irrigando todo o banheiro.
Corri pra sala de aula.  
MEIA HORA DEPOIS - A diretora entra na sala.
DIRETORA (demoníaca) - O banheiro masculino está inundado. Alguém quebrou o mictório.  Está todos os rapazes suspensos caso o responsável não aparecer. (mais demoníaca) Seu bando de aborrencentes.
Pedro estava no fundo da sala de óculos escuros. E começou a rir e caiu no chão e levantou as mãos.
PEDRO (ainda chilado) - Essa fui eu.

sexta-feira, setembro 2

A FACA TRAMONTINA DE MAMÃE

Veias entupidas
Vidro no túnel
Lápis quebrado,
Gritos de criança

Coração num pedaço de papel
Lixo no fundo do quintal
Roupa com cheiro de "Omo"
Verbos nas paredes.

Rádios, canções.
Bares, copos cheios outros meio vazio.
Pilha "Panasonic" para o controle remoto da Tv "Phillips"
Linha, pano, agullha...
Ai! Ai! Meu dedo mamãe!

Cigarros para os jovens
Saia curta para pernas grossas
Aranha-carangueijeira esmagada no asfalto do “IPTU”
Coitadinha!!!

Batida de mãos na porta...
Ah!...
“Não é mamãe”
Foi o correio”
Papel de “icekiss” no chão
O vento quebrou na Beira-Mar
O caminhão da “Skol” passou,
Do lixeiro, ainda não.
-“Mamãe! Mamãe! Faz beiju?”
-“Teu pai chegou?”

Livros na estante,
Pó no pé
Pé-de-moleque cheio de bicho
Coitadinho!

Saudade do perfume de mato do teu sorriso!
Mato queimado.
Barulho de patins na rua
O gato miou,
Miau! Miau!

Guaraná Jesus na porta da geladeira
Ai! Ai! Que fome!
-“Mamãe, cadê o beiju?”
-“Teu pai já chegou?”

Barbeador no banheiro
Peixinhos no azulejo
A vizinha na cadeira de plástico
-“A novela já começou?”
-“Menino! Menino! Já pra dentro!!!

Vestido azul no varal
Vassoura atrás da porta,
O gás da “Butano” do lado do fogão da “Continental”
A formiga tá no açúcar,
O amaciante exalou na blusa velha do Che Guevarra
Cheiro de erva-doce com bolo de tapioca
Ai! Ai! Que fome!
-“Mamãe! Fez o beiju?
-“Teu pai já chegou?”
-“Não, mamãe!”
-“Mamãe! Mamãe!
-“Cortei meus pulsos com tua faca “Tramontina”...
Ai! Ai! Coitadinha!!!
Faca Tramontina de Dona Fátima. Foto de Cris Lima.

quinta-feira, setembro 1

ABoRReCenTES

DORALICE
A consulta estava marcada para 4 horas da tarde cheguei com meia hora de antecedência. Falei com a secretária, cabelos meios brancos e tinha uma verruga abaixo do queixo. Uma bruxa. Percebi que ela me olhou de relance meu aspecto: como se procurando algum distúrbio. Alguma loucura.
Admito que tenho olheiras, mas isso não deve ser loucura, só noites mau dormidas lendo Alan Poe.
Só tem uma pessoa na sala de espera sentada no sofá lendo uma revista. Deve ser um pouco mais velho que eu.
Espinhas no rosto como estalactites vermelhas. Suas pernas estão agitadas. Tá de chinelas e uma camisa meio desbotada. Ridícula. Usa óculos. Magro, cabelos curtos, lisos, pretos e despenteados. Feio. Concentrado em alguma matéria da revista. Cheio de arranhões no cotovelo e nos joelhos. Nerd.
Sentei do lado dele com e pus meu headphone no ouvido.
JOÃO
Conversa com a secretária. Toda de preta. Meio gordinha. Branca demais. Acho que não gosta de sol. Tirou os óculos escuros. Seus olhos são verdes. Bonitos. Um fone no ouvido. Uma garota meio Dark. Teve ter minha idade. Lá vem ela. Vou voltar pra revista. Senta ao meu lado.
To a fim de falar com ela.
SEGUNDA CONSULTA
JOÃO - Vou falar com ele, não ainda não.
TERCEIRA CONSULTA
DORALICE (niilista) - Ele cutucou no meu braço. Será que ele é doido? (Tirei o headphone e levantei as pestanas numa expressão de que é?)
JOÃO - Você gosta de Biologia?
DORALICE- Não, gosto de Literatura. Por acaso, você é epilético?
JOÃO (nervoso) - Por quê?
DORALICE - Tenho um primo que cai no chão se tremendo e fica babando que nem um cachorro com raiva. Se arranha todo. Ele é epilético.
JOÃO ( nervoso)- Tenho esses arranhões é por que eu sou goleiro de futsal e o chão é de cimento. E não gosto de usar joelheiras e cutoveleiras.
DORALICE (niilista)- Foi mal. E eu não gosto de futebol - Você ta lendo o quê?
JOÃO (nervoso)- É uma matéria sobre a decodificação do genoma humano. No futuro podemos descobrir quem já vai ter câncer, infarto e outras doenças através de um simples exame de sangue.
DORALICE (niilista)- Legal. (Ele é um nerd)
JOÃO (nervoso)- Você ta escutando o quê?
DORALICE (niilista) - Smashing Punpkins, 1979.
JOÃO (nervoso) - Legal. (nunca ouvi falar)
DORALICE (menos niilista)- Você conhece?
JOÃO (menos nervoso) - No.
DORALICE (curiosa e niilista) – Humm... Por que você esta aqui?
JOÃO (calmo)- Meu pai me pegou fumando maconha. Disse que isso era uma porta aberta pra eu usar drogas mais pesadas como a cocaína.
DORALICE (blasé)- Quer dizer que você é um Nerd maconheiro.
JOÃO (nervoso) – Mais ou menos isso... E você?
DORALICE (niilista) - Eu?!
 JOÃO (curioso) - Sim, você. Por que você ta no psicólogo?
DORALICE (blasé) - Por que mamãe acha que estou depressiva e posso me suicidar.
JOÃO (mais nervoso) - Que dizer que você pode cortar os pulsos a qualquer momento?
DORALICE (blasé)- posso cortar meu pulso no primeiro impulso.
JOÃO – (Voltei a ler o Galileu e ela voltou a escutar sua música freak)
SECRETÁRIA (frígida)– João de Ribamar Silva, por favor, é a sua vez.
JOÃO (olhando de soslaio para Doralice ) – Ei?!
DORALICE ( fingindo surpresa) - O quê?
JOÃO - Tira o headphone (Foi o que eu falei através de gestos com as mãos) - Vou entrar. (Apontei com a ponta da boca pra porta)
DORALICE (niilista) - Bom azar. Todo mundo diz boa sorte.
JOÃO (apaixonado) - Foi sorte te conhecer e azar eu esta aqui.
DORALICE - (niilista). Também.
JOÃO (mais apaixonado) - Qual seu nome?
DORALICE ( sorriu depois de 5 meses) - Doralice.
JOÃO (mais e mais apaixonado)- O meu é João. Thau.

terça-feira, agosto 30

O ÚLTIMO POST



Ele vinha a mais de cem por hora. O sinal fechou. Os pneus gritaram. O eixo quebrou. O carro ainda capotou cinco vezes antes de parar, completamente amassado como se fosse feito de papel... 

O motorista ainda estava vivo. Gravemente machucado. O pulmão perfurado. As pernas esmagadas, praticamente decepadas pelo impacto contra o poste.

Com dificuldade, procurou o celular. O encontrou perto do retrovisor. Atordoado, não sabia para quem ligar. Sem opção, conectou-se na internet. Abriu a página principal do seu navegador e digitou.


- Sofri um acidente...


Ele cuspiu dois dentes e depois tossiu sangue. Por sinal, achou que a publicação fora muito brusca. Demasiado súbita. A situação já era grave o suficiente. Espalhar preocupação não ajudaria em nada, portanto ele acrescentou:


- Rs


O riso digitado retiraria um pouco da carga dramática. Denotaria também seu bom humor em face de situações difíceis...

Mesmo com a clavícula quebrada, ele conseguiu levantar o braço. Tentou esboçar um sorriso. Tirou uma foto do rosto completamente desfigurado pelos estilhaços de vidro, em seguida publicou em seu perfil...

Enquanto ele sofria três paradas cardíacas, os amigos comentavam as publicações e os médicos tentavam reanimá-lo.

No dia do enterro, todos estavam extremamente abalados. O choque foi duro. Mas restava ainda um consolo:

 - Ele morreu, mas estará sempre on-line entre nós.


31/08/2011