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sábado, fevereiro 8

Arrivederci


A tristeza me pegou de jeito hoje. Sinto que aquele desenho de ossos encapuzados criou vida e bate na porta das pessoas, anunciando a brevidade de nossa consciência. E a perpetuidade das minhas memórias... Será que vou sempre me lembrar de ti? 

Eu não tenho lágrimas suficientes para salgar tua carne, e me juntarei aos teus outros amigos no teu processo de mumificação, e poetaremos teus feitos e não-feitos (como se feitos tivessem sido), e te manteremos vivo como a musa de Camões.

Ah, meu amigo. As perdas se acumulam como um punhado de pedras nos meus bolsos enquanto tento atravessar o rio. E a cada braçada me sinto mais pesada e preciso de mais força para seguir.
A dor me é infinita, e hoje me resigno a senti-la vibrante em minhas artérias, perfurando  meus órgãos e cegando meus olhos. Minha visão cega tromba nos mesmos móveis que sempre estiveram no mesmo lugar, e sinto novamente a (in)segurança de que está tudo igual.

As estrelas não me consolam, nem a lua, nem o céu. Nem mesmo o céu. Nos encontraremos um dia, meu caro. 

terça-feira, janeiro 21

O meu hoje


E o meu coração encontra-se amarrado e eriçado pelas roldanas, as mesmas que prendem meus pés no chão, quem prendem minha boca com agulhas. Meus movimentos e batimentos cardíacos delineados por um desenhista antiquado e doloroso fazem dos meus dias grandes batalhas, e das minhas noites enormes vitórias. Eu venci? O não perder já é vencer? Talvez nos caiba por hoje fazer uma exceção, e nos considerar vencedores pelo viver.

Sim, caro leitor, é um vencedor por viver, afinal a sobrevida já nos é empurrada com força, a cada desespero por mais um suspiro oxigenado, a cada ânsia por mais uma gota açucarada do café que nos mantém acordados, a cada parafuso devidamente apertado nas nossas fábricas de pensamentos. Sim, caro leitor, sobrevivemos dia após dia agonizando em noites mal dormidas pelas frustações a que somos constantemente submetidos.

Hoje minha pele reluz a acidez da minha língua, e a impiedade de minha mente, sufocando a compaixão da minha alma pela tua. Hoje não é dia para padecer, caro leitor, hoje é dia para comemorar. Comemore comigo, ou com teu vizinho. Hoje minhas mãos engasgam tua cerveja, hoje meus dedos estrangulam teus pesadelos, hoje esmigalho teu pão sem manteiga para nada oferecer em troca.

Hoje eu pinto de branco as paredes do meu quarto e aguardo a combinação de sombras e luzes do sol para preenchê-la com a cor da minha esperança que resta intocada ainda, creio eu que as paredes do meu quarto se movem a seu bel prazer, aumentando e diminuindo meu espaço conforme acham necessário, e não conforme meu conforto.  E assim, espremida por todos os cantos, a minha voz se liberta e permeia os ventos do mundo.

E hoje, minha voz flutuando pelos sete ventos dos mares, meus dedos apertando a garganta do meu superego, me sinto vencida pela vida... E hoje, apesar das agulhas que me costuram os lábios, saboreio o gosto da vitória e finalmente durmo abandonada pelas frustrações.

Bons sonhos, caro leitor.


terça-feira, outubro 8

O meu coração


Por Maria Ligia Ueno


As saudades reverberam meus sentidos, meu tato busca tua pele, minha audição, tua voz. E quanto tempo ainda minha imaginação, miscigenada com nossas memórias, hão de te fazer as vezes, hão de ter que segurar meu coração, hão de absorver as lágrimas que insistem em aprender a voar? 

As saudades causam terremotos em meus cílios, os quais buscam no horizonte algum caminho para o céu. Meus olhos abalroados pela vista infinita se fixam no chão, buscando as migalhas de pão deixadas na última caminhada.

As saudades fazem solução da minha garganta, dissolvendo minha respiração e retardando o bombeamento de sangue para minhas mãos... Estas se encontram letárgicas, aguardando a vivacidade de outrora para quando se encontrarem nas suas costas. 

As saudades delineiam o contorno do meu rosto, cometendo graves expressões e apontando formas e atos novos para meu semblante. Este sorri pelas lembranças e resta nostálgico pelo presente. 

As saudades me chamam e brincam com meus sentimentos, e transformam tudo em desejo; O desejo de te ver de novo.