terça-feira, janeiro 19

Três É Demais: Leonard Cohen

Por Oluap Said

"Por favor, deixe-me na tempestade adentrar"
(Leonard Cohen)
Por que um poeta e escritor com livros de poemas e romances publicados decidiu seguir uma carreira na música? Leonard Norman Cohen, canadense nascido em Montreal, quis antes de mais nada atingir novos horizontes e buscar novos desafios. Com voz anasalada e poder poético impressionante, Leonard Cohen adentrou na carreira musical como um fenômeno raro em 1967. Por si só o ano de 1967 foi deveras fantástico, como atesta o número impressionante de álbuns que foram lançados, por exemplo, Velvet Underground e The Doors estrearam nesse ano. O mundo da música folk, antes de 1967, já tinha sofrido uma revolução quando Bob Dylan apareceu em cena. Uma outra revolução aconteceu quando o cantor e compositor Leonard Cohen apresentou seu álbum de estreia para o mundo. O catálogo de canções nesse álbum de estreia a explorar cirurgicamente as relações humanas, destilando toda uma gama de sentimentos, foi de um assombro sem precedentes na história da música. Em verdade, o bardo canadense trouxe sua experiência literária para compor canções estilisticamente sublimes acompanhadas por seu violão influenciado na música flamenca. Mas, o que impressionou na época foram suas letras poéticas! A abordagem lírica de Cohen fascinou - e ainda fascinam - inúmeros compositores e amantes da música. Tanto esmero na construção das letras, só podia ser tarefa de um artesão das palavras como Cohen. Com mais de 30 anos na época, Cohen largou o sucesso como escritor e mergulhou de cabeça na música folk. O compositor de "Suzanne" foi descoberto por John Hammond (o mesmo que descobriu Dylan) quando se apresentava no festival folk de Newport. Antes disso, Judy Collins havia gravado duas canções de sua autoria. Imediatamente, Cohen assinou contrato com a Columbia Records, uniu-se ao produtor John Simon para a gravação do seu primeiro álbum, seguido por mais dois discos fabulosos, que serão tema do presente texto.
O primeiro disco do poeta canadense, Songs of Leonard Cohen, foi lançando em dezembro de 1967. A abertura do disco fica por conta de "Suzanne" - clássico absoluto de Cohen -, que hipnotiza qualquer ouvinte. Cohen compôs a canção tendo como musa a amiga Suzanne Verdal, por quem ele sentia um amor platônico. O dedilhar límpido de Cohen e o backing vocal feminimo dão um sabor especial à melodia de "Suzanne".  Logo em seguida, vem a suprema "The Master Song" que trata sobre um triângulo amoroso na ótica religiosa. É uma das peças mais apreciadas do bardo canadense. A seguir, "Winter Lady" mostra o dedilhar singelo de Leonard quando canta sobre um amor andarilho. Na canção seguinte, "The Stranger Song" revela todo o poder poético de Cohen em construir uma letra sobre relacionamentos amorosos. Cohen é mestre supremo em tecer letras que esfacelam minuciosamente relacionamentos amorosos. A seguir, tem-se "Sister Of Mercy", que Leonard compôs inspirada em duas garotas que conheceu, num período de solidão, quando excursionava. Dois pontos a destacar nessa canção, além da letra poética, são o canto aveludado e o dedilhar sublime ao violão de Cohen. Na grandiosa "So Long, Marianne", Cohen descortina seu relacionamento com a ex-esposa Marianne Jensen com os versos maliciosos: "You held on to me like I was a crucifix \ As we went kneeling through the dark" (Você se segurava a mim como se eu fosse um crucifixo \ Enquanto ficávamos ajoelhados no escuro). Na verdade, a letra é um retrato sagaz do casamento que entrou em decadência.  Seguramente, "Hey, That's No Way To Say Goodbye" é uma das canções mais perfeitas de Cohen. A poesia lírica dessa canção é de uma força descomunal. No disco póstumo "O Último Solo" de Renato Russo, há a gravação interessante de "Hey, That's No Way To Say Goodbye". Sem demora, a melodia cativante de "Stories of The Street" soma-se à letra de temática místico-social, enquanto o violão de estilo flamenco soa firme em "Teachers". Para finalizar o álbum, a enigmática "One of Us Cannot Be Wrong", num dedilhar bastante singelo, assemelha-se com as canções sem refrão de Bob Dylan. Por fim, Songs Of Leonard Cohen é uma obra-prima do folk, assim como The Freewheelin' Bob Dylan.
Abrindo o segundo álbum, Songs From A Room,  de Leonard Cohen, a fabulosa "Bird On The Wire" - uma das melhores canções da carreira de Cohen - apresenta um arranjo primoroso, tendo inclusive uma harpa de boca ou harpa judaica (jew's harp), que aliás foi utilizada em várias canções do disco. Em seguida, o lado bíblico-religioso de Cohen vem à tona em "Story of Isaac" para contextualizar a história de Isaque com a Guerra do Vietnã, que vitimou inúmeros jovens soldados num sacrifício banal. A seguir, no arranjo da irregular "A Bunch Of Lonesome Heroes" há uma guitarra sussurrante, algo pouco comum nas músicas do canadense de família judaica. Logo depois, a balada, "The Partisan" - em homenagem à Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial - é dividida em duas partes: uma cantada em inglês e a outra em francês. A belíssima "Seems So Long Ago, Nancy" é um dos altos do álbum. A melodia lenta e melancólica cadencia o amor livre de Nancy. Logo depois, a harpa judaica surge novamente, desta vez, em "The Old Revolution", cuja letra traz belas imagens poéticas como: "The hand of your beggar is burdened down with money". Em "The Butcher", Cohen cita de maneira singela o uso de heroína nos versos, "Well, I found a silver needle \ I put it into my arm \ It did some good \ Did some harm" (Bem, encontrei uma agulha prateada \ Eu a apliquei em meu braço \ Ela fez algum benefício \ Fez algum prejuízo), ao passo que os versos diretos de "You Know Who I Am", (por exemplo, "Às vezes, necessito de você nua \ Às vezes, necessito de você selvagem"), mostram um Cohen mergulhado numa paixão mais carnal. Um dos destaques do disco, "Lady Midnight", apresenta um baixo bem marcante e um órgão suave. Fechando Songs From A Room em grande estilo, "Tonight Will Be Fine" reverbera um amor passado que ainda se faz presente dentro das noites do poeta. Por fim, os arranjos musicais de Songs From A Room foram mais simples do que os de Songs Of Leonard Cohen. Nota-se que os backing vocals femininos não predominaram como no disco anterior, talvez porque a produção tenha ficado por conta de Bob Johnston, que optou em cortar o coro feminino. O teor de crítica à sociedade, que privilegia a guerra e o caos, está presente em várias letras de Cohen neste disco. A dissecação das relações amorosas ainda foi pano de fundo em algumas letras, mas não tão atuante como nas letras do primeiro disco de Cohen.
O terceiro trabalho fonográfico, Songs of Love And Hate, de Leonard Cohen foi lançado em 1971. O título do álbum já dá um direcionamento temático para as letras, que abordam sobre relacionamentos amorosos à beira do abismo e no fio de uma navalha. A abertura do disco é realizada por "Avalanche", cuja letra é de uma beleza sem tamanho, beirando o desespero e o ódio. O vocal de Cohen e o arranjo simples dão um toque de beleza especial à canção.  Em seguida, o tom bíblico ecoa em "Last Year's Man", aguçando a melancolia latente da letra. A próxima faixa, "Dress Rehearsal Rag", narra a história lacerante de um homem derrotado, sem forças para seguir em frente. Logo em seguida, "Diamonds In The Mine" chega com seu pulso alegre e com um vocal bastante diferente de Cohen. Continuando as pérolas, um dos destaques do álbum, "Love Calls You By Your Name" é uma canção esperançosa sobre o amor e sobre amores passados. Certamente, uma das mais belas canções de Cohen, "Famous Blue Raincoat", tem a forma de uma carta supostamente enviada para um ex-amante de sua companheira. O dedilhar soberano e o backing vocal ao fundo são os pontos fortes nessa canção. Logo depois, "Sing Another Song, Boys" dá a impressão de ser uma faixa gravada ao vivo. Fechando o excelente álbum, "Joan Of Arc" é uma das mais impecáveis letras de Cohen, um verdadeiro poema, cuja introdução é recitada esplendidamente por Cohen. Neste terceiro trabalho, os arranjos musicais estão mais minimalistas do que nos dois discos anteriores. Além disso, o vocal emotivo de Cohen está mais elaborado e rebuscado, enquanto as letras atingiram um nível surpreendente dentro da música folk, apresentando crônicas de amores conflitantes e relações de almas atormentadas em busca de um abrigo na tempestade. Sem dúvida, Songs of Love And Hate no quesito letras é o melhor álbum de Leonard Cohen.
Indiscutivelmente, Leonard Cohen é um dos grandes poetas/letristas da música contemporânea. O zelo na elaboração das letras é um dos focos principais do bardo canadense e em segundo plano o encaixe das letras em suas belas melodias.  Vale ressaltar que a influência de Cohen no mundo do rock é inestimável. Compositores do quilate de Kurt Cobain, Bono, Jeff Buckley, Ian McCulloch e entre outros afirma(ra)m categoricamente que tiveram influência direta de Leonard Cohen.  Com apenas o primeiro álbum, Cohen já seria alçado ao patamar dos grandes compositores da música folk, mas com o lançamento dos dois discos seguintes confirmou-se a grandeza excepcional de Cohen como cantor e compositor. Sobretudo, os três álbuns iniciais de Cohen formam - ao meu ver - uma trilogia sobre relações amorosas. Ao ouvir Leonard Cohen, você se sente nos porões mais profundos da alma; ouvi-lo é um mergulho incessante nos mares da paixão, do amor e da solidão; ouvi-lo é uma jornada pelos desertos dos corações apaixonados e dilacerados. Ouvir Leonard Cohen é um exercício de nobreza.

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