segunda-feira, outubro 26

Nas Entranhas da MPB: Guilherme Lamounier (1973)

Há, na história da música brasileira, o caso de inúmeros artistas que não encontraram o sucesso como almejado e sonhado. Como resultado, muitos abandonaram a música ou caíram em depressão devido ao não reconhecimento massivo por seus trabalhos de grande valor artístico. Mal compreendidos e fora de seus tempos, foram - antes de tudo - artistas pioneiros que só encontraram o reconhecimento de suas obras, mais que merecido, após muitas décadas. Este é o caso do cantor e compositor carioca Guilherme Lamounier, que despontou no cenário musical em 1970, aos 20 anos de idade, com seu álbum homônimo de estreia. Tendo a produção de Carlos Imperial, que geriu de forma equivocada o início da carreira de Guilherme, o primeiro disco tinha/tem uma forte carga soul music. O segundo álbum (tema deste texto) foi lançado em 1973, com atraso de dois anos depois de Guilherme ter se libertado das garras dominadoras de Imperial, que quis transformá-lo num cantor-galã.
 
O segundo disco, também homônimo, de Guilherme Lamounier abre com "Mini Leila". Neste trabalho fonográfico, Guilherme apostou nas sonoridades rock e folk para confeccionar as canções ao lado do letrista Tibério Gaspar. Fica mais que evidente a influência dos Beatles na primeira faixa. Em seguida, "GB em alto relevo", uma homenagem à Guanabara, é um folk de primeira grandeza, tendo um sintetizador comandado por Wagner Tiso. A voz aveludada de Guilherme nessa canção é de um primor único. Logo depois, a também folk "Patrícia" destila uma letra com versos sensuais: "Pelas curvas de Patricia / eu quero me derrapar / E morrer de velocidade / sem ter tempo pra marcar". A seguir, "Pelos telhados do mundo" espalha psicodelia e imagens poéticas/lisérgicas. A soul music transparece em "Freedom", enquanto "Capitão de papel" faz referências às revistas de quadrinho. Vindo para encantar os ouvidos, "Amanhã não sei" é um dos destaques do álbum. O arranjo belíssimo e bem orquestrado - com direito a piano, violão, órgão Hammond e sessão de cordas - engrandece/fortalece os versos do refrão marcante. A faixa seguinte, um hit da época, "Será que eu pus um grilo na sua cabeça" é uma balada inspirada nos ideais hippie. Sem demora, a longa balada "Passam anos, passam Anas" chega com sua melodia lenta e belo arranjo para cativar os ouvintes. Para encerrar o álbum, o hard rock "Cabeça feita" solta as guitarras pesadas no terreiro. A banda "O Peso" gravaria essa canção no excelente álbum, Em Busca do Tempo Perdido, de 1975.
Vale pontuar a parceira entre Guilherme e o letrista Tibério Gaspar - conhecido pelas canções compostas ao lado de Antonio Adolfo, entre as quais o grande sucesso "Sá Marina". Emblematicamente, as letras poéticas de Tibério, aliadas às melodias cativantes de Guilherme, trazem à tona o esplendor hippie e utópico da década de 1970. Além disso, no segundo álbum de Lamounier, é de render louvores a participação dos excelentes músicos envolvidos na gravação do álbum, entre eles: o lendário Lanny Gordin na guitarra, Wagner Tiso no piano e sintetizador, Oberdan Guimarães na flauta. Os arranjos musicais ficaram por conta do maestro Luiz Claudio Ramos. Infelizmente, Guilherme Lamounier, que gravou outro álbum em 1978, afastou-se da música na década de 1980. Atualmente, vive recluso, sofrendo de esquizofrenia, conforme relatam amigos próximos ao artista.

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