segunda-feira, outubro 5

Nas Entranhas da MPB: Di Melo (1975)

Há inúmeras histórias sobre artistas injustiçados, que não vingaram na música (ou na arte em geral) quando do lançamento de um trabalho mal compreendido à época ou pouco difundido nos meios midiáticos. Só o tempo para corrigir as injustiças perpetradas aos artistas de talento que não tiveram o devido valor reconhecido. O cantor e compositor pernambucano Di Melo foi um desses artistas injustiçados e preteridos por donos de gravadoras, que vislumbravam apenas o vil metal à frente de seus rotundos narizes. Poucos deram ouvidos à sua música nos meados da década de 70. Felizmente, foi redescoberto e hoje em dia realiza vários shows pelo Brasil. Procurando um lugar ao Sol, Di Melo saiu de Pernambuco para São Paulo para gravar anos depois, exatamente em 1975, um dos grandes álbuns da música brasileira. Antes disso, morou no Japão durante um ano e meio. Compôs lá, na Terra do Sol Nascente, inúmeras canções, como "Kilariô". No seu retorno ao Brasil começou a tocar nos bares de São Paulo. Ganhou nas noites de Sampa malandragem e swing, refletindo-se no primeiro álbum de Di Melo, que é de uma preciosidade rara e gravado à base de muito whiskey.
O álbum homônimo de Di Melo abre com "Kilariô", com pitadas generosas de funk à la Sly Stone, apresentando linha de baixo estupenda e pulsante. Di melo já diz para o que veio com a primeira canção: tudo em harmonia e sintonia fina. Em seguida,  vem a canção com ingredientes de samba-rock e soul, "A vida nos seus Métodos Diz Calma", que despertou o interesse dos DJs ingleses na década de 90. Isso ajudou a reviver a música de Di Melo no Brasil. Logo depois, o funk psicodélico, "Aceito Tudo", apresenta no início uma declamação com bastante desenvoltura: "Ai eu pensei que indo caminhando mas não fui / para um sonho diferente que se realiza e reproduz / E pensando fui seguindo num caminho estreito cheio de toco / Esqueci de lembrar de pensar todo penso é torto". Em "Conformópolis (composição de Waldir Wanderlei da Fonseca), Di Melo mergulha num tango, tendendo mais para uma milonga. A letra trata do cotidiano massacrante em muitas cidades e a chance de mudar de vida, evidente nos versos: "A cidade acorda e sai pra trabalhar / Na mesma rotina, no mesmo lugar / Ela então concorda que tem que parar / Ela não discorda que tem que mudar / Mas ela recorda que tem que lutar". Na faixa seguinte, "Má lida" trata sobre a vida de um ser condenado que procura um pouco de amor. O belo arranjo com violão dedilhado, violino e trompete engrandecem essa canção.  Novamente, o tango dá o ar da graça em "Sementes", com letra poeticamente inspiradíssima. Continuando as preciosidades, em "Pernalonga" o balanço do samba-rock encanta, enquanto em "Minha Estrela", o soul romântico de Di Melo se cristaliza plenamente. Um dos destaques do álbum é "Se o Mundo Acabasse em Mel". Este samba-rock agita qualquer um. A letra aborda a vida de um homem afortunado em decadência. A seguir, a poética "Alma Gêmea" é de um primor genial, com direito a um dedilhado límpido ao violão e belos acordes de flauta. Talvez, o "fantasma errante" (citado nessa canção) seja o próprio Di Melo, que ficaria no ostracismo durante duas décadas. "João" (composição de Maria Cristina Barrionuevo) remete à bossa nova, com letra focando num homem que vive em conformismo perante a sociedade. Di Melo encerra o álbum no embalo de um xote, "Indecisão", que mostra seu sangue nordestino.
No final da audição do álbum, fica-se com a incompreensão sobre o fato de Di Melo não ter estourado nas paradas de sucesso na metade da década de 70. A originalidade e a inovação, lançadas por Di Melo no seu álbum homônimo, devem ser cultuadas, sem nenhum exagero, nos quatro cantos do Brasil. Os arranjos musicais são impressionantes e muito bem encaixados por músicos, como o genial Hermeto Pascoal (nas flautas e teclado), Heraldo do Monte (nas violas e violões), Dirceu (na bateria), Cláudio Beltrame (no contrabaixo), o maestro Geraldo Vespar (no arranjos e violão), o maestro José Briamonte (na direção musical), entre outros. Merecidamente, Di Melo é idolatrado por gente como Otto, Simoninha, Charles Gavin e por uma penca de pessoas que difundiu o primeiro disco do pernambucano Di Melo pela internet. O trabalho de Di Melo não podia ficar, de forma alguma, enterrado nos escombros da MPB.

Recomendação: Assista o documentário Di Melo, o Imorrível.
                        Assista ao clipe da canção Minha Estrela.

Vídeo
 

2 comentários:

Jô Abade disse...

RETIFICANDO O BATERISTA FOI O DIRCEU. O MILTON BANANA, ERA MEU AMIGO APARECEU NO ESTÚDIO ATÉ DEU MA CANJA. MAS, NÃO SAIU NA GRAVAÇÃO: TEVE TAMBÉM UM CHORINHO QUE EU GRAVEI DO WALDIR DA FONSECA, QUE NÃO SAIU NO DISCO.TALVEZ POR PESAR NO QUESITO. EXCESSO DE INFORMAÇÃO.

Ponto Continuando disse...

Valeu! Irei retificar o texto. Valiosa informação!