quarta-feira, setembro 2

Três é Demais: Zé Ramalho

Por Oluap Said
O paraibano Zé Ramalho deixou o curso de Medicina para se dedicar à Música, para o bem da Música Popular Brasileira. De Brejo do Cruz para o Brasil, o cantor e compositor é fascinado por violeiros, repentistas e, de maneira geral, pela música regional nordestina. Amante da Jovem Guarda, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Raul Seixas. Misturou tudo isso com suas raízes musicais do Nordeste. Como apreciador das obras de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, o poeta do apocalipse traz à tona no seu trabalho os ritmos do Nordeste, tais como embolada, coco, frevo e baião. Fã declarado de Bob Dylan, Zé Ramalho foi, no começo de carreira, músico de Alceu Valença, mas antes gravou em 1975 um álbum em parceria com Lula Côrtes, chamado Paêbirú - um clássico do rock progressivo brasileiro, que hoje é peça valiosa para colecionadores.Com sua poesia simbolista/metafísica, entremeada por metáforas profundas, o compositor de "Chão de Giz" é um dos grandes letristas da música brasileira. Suas letras magníficas são recheadas por referências mitológicas, bíblicas e históricas, apresentando belas imagens poéticas. Sua voz grave também é uma característica especial, que acentua de forma excepcional as letras e as melodias. A carreira solo de Zé Ramalho começa em 1978, com o lançamento do álbum que leva seu nome. A partir daí, começa uma carreira com álbuns (principalmente, os três iniciais) que marcaram fortemente a música brasileira.
O álbum de estreia de Zé Ramalho inicia com um clássico indiscutível, "Avôhai", composição esta em homenagem ao avô paterno que o criou. Com a junção das palavras avô e pai para formar Avôhai, Zé afirma que a canção nasceu de uma viagem com cogumelos alucinógenos. Nessa canção, há a participação especial de Patrick Moraz, ex-músico do Yes, nos sintetizadores. O arranjo é um primor psicodélico. Em seguida, "Vila do Sossego" é um verdadeiro monumento com versos apoteóticos: "Nos aviões que vomitavam para-quedas. Nas casamatas, casas vivas, caso morras". Relatando um caso amoroso quando jovem com uma mulher mais velha e da alta sociedade de João Pessoa, Zé apresenta "Chão de Giz" com metáforas profundas. Não precisa dizer que esta canção é de beleza ímpar e uma das grandes da MPB. Em "A Noite Preta", o toque regional vem a baile com toda a força. Logo depois, a psicodélica "A Dança das Borboletas" (composição de Zé Ramalho e Alceu Valença) apresenta o solo de guitarra frenético do ex-Mutantes Sérgio Dias. A instrumental "Bicho de 7 Cabeças", com a participação de Geraldo Azevedo, soa triunfal nos ouvidos. Com "Adeus Segunda-feira Cinzenta", Zé tempera o álbum com uma suave seresta. Continuando o mostruário lisérgico, "Meninas de Albarã" esbanja poesia e referência sutil à maconha no verso: "De noite acendo a tocha do meu olho". Para encerrar, "Voa, Voa" transpira regionalidade nordestina à flor da pele.
O segundo álbum de Zé Ramalho é “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”. A capa emblemática tem a atriz Xuxa Lopes e José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O álbum abre com a canção de teor político, que dá título ao álbum, apresentando os versos: "Com tanto dinheiro girando no mundo/ Quem tem pede muito, quem não tem pede mais/ Cobiçam a terra e toda a riqueza/ Do reino dos homens e dos animais". A segunda canção é um hino indiscutível da MPB: "Admirável Gado Novo". A letra sensacional, que expõe a alienação das massas, é de uma beleza exemplar na música brasileira. Logo depois, "Falas do Povo" continua com as disparadas sociopolíticas. Esta canção foi dedicada a Geraldo Vandré, o cantor e compositor de "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores", que foi perseguido pela Ditadura Militar. Mais um sucesso, "Beira Mar" atesta a capacidade poética de Zé Ramalho. Sem sombra de dúvida, essa canção é uma das mais belas de sua carreira. Mudando um pouco o tom do álbum, a autobiográfica "Garoto de Programa (Taxi Boy)" descreve a situação vivida por Zé ao chegar no Rio de Janeiro, tendo que se prostituir para ganhar o pão de cada dia. "Pelo Vinho e Pelo Pão" é um chorinho (com a participação da cantora Amelinha), enquanto "Mote das Amplidões" é um xote elegante e poético. Logo após, "Jardim das Acácias" tem a presença do grande guitarrista Pepeu Gomes, ex-Novos Baianos. Esplendidamente, a instrumental "Agônico" apresenta Geraldo Azevedo tocando um violão de 12 cordas. Para finalizar o álbum, a clássica "Frevo Mulher" estimula qualquer um a dançar a qualquer hora do dia.
O terceiro álbum de Zé Ramalho foi lançado em 1981, sendo produzido por ele e Mauro Motta. Abre com "Canção Agalopada", que tem uma estrutura de versos utilizada pelos repentistas nordestinos chamada martelo agalopado (dez versos construídos em dez sílabas). Ainda há, nessa canção, a participação da cantora lírica Maria Lúcia Godoy.  Em seguida, "Filhos de Ícaro" mostra mais uma vez os dotes poéticos do compositor de Brejo do Cruz. Desta vez, o cantor paraibano nessa canção clama por liberdade e resistência. Logo depois, a faixa-título é uma das mais belas canções de Zé Ramalho. "A Terceira Lâmina" é carregada, por um lado, de crítica social, por outro lado de misticismo e profecia, tão comuns em algumas letras do poeta do apocalipse. "Um Pequeno Xote" apresenta um ritmo de suas raízes do Nordeste e característico de uma de suas influências principais: Luiz Gonzaga. Em "Atrás do Balcão", a lisergia retorna suavemente. Como destaque, "Galope Rasante" é uma das melhores canções do petardo, com letra exalando sensualidade. A belíssima "Kamikaze" chega com sua exuberância melódica. Sem dúvida, é um ponto alto do álbum. Continuando as finezas, Zé Ramalho toca uma viola de 10 cordas e violão de 12 cordas na instrumental "Violar". O cangaço e Lampião estão presentes em "Cavalos do Cão", na qual há a participação especial de Elba Ramalho - prima de Zé Ramalho. A canção "Ave de Prata" foi feita para Elba, enquanto "Dia dos Adultos" encerra calorosamente em ritmo de forró o álbum.
A carreira de Zé Ramalho foi pontuada por inúmeros desafios. Com coragem, ele viajou, assim como muitos nordestinos, ao Rio de Janeiro para tentar a vida na música. Venceu o preconceito latente contra nordestinos. Os três primeiros álbuns de sua carreira atestam o talento para compor canções sublimes. Vale ressaltar que o cantor e compositor paraibano tem como principal virtude dar ênfase nas letras poéticas, ora com teor sociopolítico, ora com teor mítico-bíblico. Zé Ramalho tem um catálogo de canções seminais, que tocam com profundidade no coração de tantos fãs espalhados pelo Brasil. Apesar de alguns detratores afirmarem que suas letras são complexas, a popularidade das canções de Zé Ramalho, que trazem elementos da literatura de cordel e da rica cultura do sertão, está bem assentada nas rádios e nos ouvidos de inúmeros amantes da música deste nordestino mui talentoso. Viva Zé Ramalho da Paraíba!

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