terça-feira, março 24

Crônicas de Amores Noturnos

II. Uma Noite no Reviver

            Era uma noite quente. Eu estava indo para o centro da cidade. Dentro do ônibus, parado no semáforo da Forquilha, eu observava o vai e vem das pessoas transportando noite adentro suas melancolias nas avenidas sujas. Num outro semáforo, um malabarista rastafari fazia peripécias com bolinhas para ganhar alguns trocados. A vida corria solta sob as luzes dos postes e da lua tímida.
          Eu pensava sobre minha infância, enquanto na cadeira desconfortável à minha frente uma senhora idosa reclamava da lentidão do ônibus; saudosamente, eu recordava quando saía com alguns amigos à procura de carteiras de cigarro vazias, que tratávamos como dinheiro em nossas brincadeiras infantis. Eu seguia para o Reviver, sonhando com os tempos idos e vividos. Aliás, sempre penso na minha infância quando estou dentro de um ônibus, assim a viagem transcorre mais rápida.

           No Anil, houve um engarrafamento, para a irritação da senhora idosa. Os estudantes do Cintra preenchiam as paradas nos dois lados da via. Alguns faziam palhaçadas, outros namoravam. As vans paravam no meio da avenida e o cobrador gritava chamando a atenção dos transeuntes. A vida corria solta.
            Ao passar pelo João Paulo, reparei na sujeira recorrente. Voltei a pensar na minha infância, no tempo em que eu jogava petecas. Eu gostava muito de jogar triângulo com meus amigos. Nós desenhávamos um triângulo no chão de terra e colocávamos as petecas dentro. Também, fazíamos uma linha à certa distância do triângulo. Deste modo, iniciávamos a brincadeira a partir da linha com o objetivo de retirar as petecas de dentro do triângulo, para isso tínhamos um capitão - ou seja, uma peteca que colidia com força nas outras petecas. Que infância doce! Ó infância querida!
          Para ser mais exato, eu estava indo para a Feira da Praia Grande, pois lá a cerveja é mais barata e posso escutar um pouco de reggae, além de olhar e paquerar morenas sensuais. Lá estava o jovem, sentado no ônibus lento, que sempre quis formar uma banda de rock, indo para o bar do Irmão - reduto natural de boêmios e desajustados sociais. Eu havia marcado com um amigo poeta, assim levei vários poemas para que ele fizesse suas críticas (positivas ou negativas). Depois do bar do Irmão iríamos para o Senzala. Lá no Senzala, sempre eu tive a sorte de conhecer garotas dispostas a curtir a noite.
            Nesta noite, em particular, meu amigo Pedro e eu fizemos contato com duas garotas que bebiam no Bar do Irmão. Cláudia era o nome da morena e Patrícia, o nome da loura. Faziam um par bastante singelo, mas não eram beldades. Patrícia disse que fazia Letras e Cláudia falou que estava em vias de se formar em Pedagogia, ao passo que Pedro e eu éramos somente desempregados com ensino médio que gastavam incessantemente o seguro desemprego. Comecei a falar com Patrícia sobre literatura. Muitos autores que eu gosto, dentre eles João Antônio e Louis-Ferdinand Céline, ela não conhecia. Ela era uma grande amante de Clarice Lispector, mas eu não havia lido nenhum livro de Clarice até aquele momento. Mostrei meus poemas para ela. De imediato, Patrícia guardou na mochila, que trazia consigo nas costas. Não me importei quando ela guardou para si os poemas que eram destinados a Pedro. Enquanto isso, Pedro conversava com Cláudia qualquer assunto que me era estranho, uma vez que eles ficaram um pouco afastados.
         A noite se arrastava. Convidamos elas para nos acompanharem ao Senzala. No caminho, policiais revistavam dois adolescentes. Os bares estavam cheios de mulheres à caça de estrangeiros. Na escadaria, havia uma miríade de jovens sonhando com prazer e luxúria. A vida corria solta.
         Chegando no Senzala, compramos uma cachaça barata para beber. Alguns roqueiros jogavam sinuca ao som de Raul Seixas. Outros bebiam cachaça temperada. Quando Patrícia saiu para o banheiro, eu perguntei para Cláudia:
           - Patrícia tem namorado? Achei ela muito interessante.
           - Poxa! Desculpe te informar, mas Patrícia gosta de mulheres.
           - Caramba! Eu não notei isso. - Falei meio decepcionado.
          - Eu também não notei, José. Cláudia, você é namorada dela? - Pedro abriu a garrafinha de cachaça, colocando nos nossos copos a bebida amarga.
           - Não, eu sou apenas amiga dela de Universidade! - exclamou Cláudia encarando Pedro com intensidade. Vi um sorriso no rosto de Pedro. Para ele o caminho estava aberto para conquistar Cláudia.
             Ao voltar do banheiro, Patrícia pegou um copo e pediu para que Pedro colocasse um pouco de cachaça. Ao primeiro gole, ela fez uma cara feia. Minha predisposição para conquistá-la havia arrefecido, todavia tentei ainda puxar conversa. Os olhos dela cor de mel me fascinaram. Fiquei olhando para ela, mas abaixou o rosto. No momento em que virei para o lado, vi Pedro beijando Cláudia. Naquele momento eu pensei no poema "O amante de Porfíria". Depois de um silêncio prolongado, perguntei para Patrícia:
            - Você quer dar uma volta?
           - Sim, vamos. - Ela pegou na minha mão e saímos a trafegar a rua da Poeme-se. Havia um mendigo pedindo dinheiro. Passamos por ele sem dar importância. Paramos na frente do sebo. Patrícia acelerou e parou à minha frente.
            - Achei você super interessante. Você gosta muito de literatura. Estou louca para ler teus poemas. - Patrícia me olhava docemente enquanto falava. - Mas tenho que te dizer que gosto de mulheres.
             - Sim, eu sei. Cláudia me falou isso. Eu gostei de você. - De repente, ficamos em silêncio, me aproximei dela e dei-lhe um beijo. Em seguida, ela me deu um tapa e se afastou de mim, abriu a mochila e jogou os poemas sobre mim. Enquanto ela seguia sozinha e apressada pela rua, eu tentava pegar sofregamente os poemas que o vento rude havia espalhado.

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