quarta-feira, fevereiro 4

Crônicas de Amores Noturnos

I. Uma Noite na Forquilha

    Em uma noite lânguida, eu saí com um amigo poeta chamado Pedro. Nossa pretensão inicial era ir para um cabaré na Forquilha. Mudamos de ideia e fomos simplesmente para a Choperia Marcelo beber algumas cervejas. Ligamos para um amigo em comum chamado Carlos, que também era poeta e que trabalhava em um fast-food. Chamávamos aquela região repleta de bares e inferninhos decadentes de "Baixo Forquilha", onde circulava à noite todo tipo de espécies do submundo. Nessa região, principalmente nas redondezas de um posto de gasolina, sempre havia traficantes, prostitutas, usuários de crack e toda uma gama de outsiders.
    Sentamos numa mesa bem ao fundo na Marcelo. Aliás, a Marcelo tem uma área ampla com inúmeras mesas para amantes de uma boa cerva. Na frente do palco, há uma área para os casais dançarem e se divertirem à beça. Também, há um estacionamento interno para os carangos dos frequentadores. Os shows de brega na Marcelo são um sucesso total: Silvano Salles, Júlio Nascimento, Sandro Lúcio e outro bregueiros do bão. A mulherada na Marcelo é um espetáculo. Tem para todo gosto e idade, de coroas a jovens sedentas por amor. Caramba! Já passei belas noites na Marcelo.
    Ao gole da cerveja gelada, que um garçom trouxera em passos trôpegos, eu senti lembranças transbordando dentro de mim. Lembrei da primeira vez que bebi cerveja, quando eu era bem jovem. Vários adolescentes se reuniam nos bares na frente da Igreja Católica, no bairro em que passei parte da infância e adolescência, para beber e ouvir música. Eu era apaixonado por uma garota que gostava de beber num desses bares, então bebi acompanhado por amigos para ver se ela me notava. Que babaquice! Meu objetivo era impressioná-la. Antes disso, ela nunca tinha me notado, pois eu era um viciado em revistas em quadrinhos. Eu vivia no mundo da Marvel e da DC, enquanto ela nas baladas em boates. Achei bem amargo o gosto de cerveja, mas com o tempo fui me acostumando. O máximo que eu consegui com a garota foi alguns olhares e isso para mim já era grande coisa. Ó tempos idos e vividos!
    Carlos chegou após meia hora do nosso contato telefônico. Ele apertou minha mão com força, como sempre fazia, chamando-me de goliardo. Também, cumprimentou Pedro da mesma forma. Carlos pediu um copo para nos acompanhar na cerveja. Imediatamente, comecei uma conversa:
    - E a poesia nossa de todo dia?
    - A poesia tá em todo lado. Ontem, hoje e sempre! - Falou entusiasticamente Pedro.
    - A inspiração anda faltando comigo. Não tenho escrito nada há tempos. - Eu explanei meio melancólico.
    - José, é preciso estar lendo livro de poesia regularmente. Se a alma não for regada com poesia, não tem como brotar. - Falou Carlos após uma golada de cerveja.
    O Grupo Digital estava tocando uns bregas, mas nem estávamos prestando atenção. O garçom veio com mais uma cerveja geladíssima. Após a saída do garçom, Pedro falou:
    - Eu discordo de ti, Carlos. A poesia tem que ser vivenciada, respirada, inalada nas ruas junto com as putas. Nos puteiros, a poesia brota como água em chafariz. Não tem nada mais poético do que a alma de uma puta. - Disparou Pedro olhando fixamente para Carlos, que sorriu serenamente.

     - Para mim, a poesia é uma aventura íntima dentro da alma, é uma jornada marítima nos oceanos do ser, uma odisseia pelos recônditos do coração. A poesia pode nascer da dor, da melancolia, da solidão e das vivências nesse mundo vão. Os mais belos versos brotam quando a alma flutua no espaço das emoções. Digo mais uma coisa: a poesia nunca irá morrer! Pelo menos até que o Sol se exploda, companheiros. - discursei após uma golada generosa de cerveja.
    - Bardos, eu só quero beber até o dia raiar. - falou Pedro com ânimo.
    - Então, vamos beber, goliardos! "Nunca devemos lamentar que um poeta seja um bêbado, devemos lamentar que nem todos os bêbados sejam poetas". - Carlos levantou o punho como um líder sindicalista citando Oscar Wilde.

     - "Mais uma dose? É claro que eu estou afim. A noite nunca tem fim. Por que a gente é assim?" - declamou Pedro sem cantarolar. 
     Conversávamos bobagens do cotidiano, quando o Grupo Digital começou a tocar uma canção do bardo junkie do brega Adelino Nascimento.  Em pleno silêncio entre nós, nos deliciamos ouvindo "Adeus Ingrata". Porra! Éramos fãs indiscutíveis de Adelino Nascimento, que havia morrido alguns anos atrás. Foi uma emoção tremenda ouvir os versos doces de um verdadeiro poeta de nossa terra querida.
     A Marcelo ainda não estava cheia. Podíamos olhar algumas pessoas dançando perto do palco. Carlos, ao passar a vista pelo terreno, fixou os olhos numa direção.
    - Olha ali, Pedro! A criatura da noite daquele dia que levamos para o sítio. - Carlos se referia ao sítio onde morava na estrada de Ribamar.
    Carlos apontou para uma morena que não estava muito longe. Ela estava numa mesa com uma companheira de jornada noturna. Eu não a conhecia.
    - Caramba! É ela mesma! José, ela é uma puta das boas. Ela trabalha na Clímax. Eu e Carlos a levamos para o sítio. Bebemos muito nesse dia e ela tirou a roupa e dançou muito pra gente.
    - Ela tem um corpo bem bonito. No dia ela tava com uma calcinha bem sensual. Foi uma visão do paraíso. - Comentou Carlos levianamente. Em seguida, chamou a morena.
    Ao se aproximar a morena da nossa mesa, pedimos ao garçom um tira-gosto usual: batatas fritas com calabresas. A noite avançava para meia-noite.  Com a chegada da morena eu levantei para me apresentar. Ela tinha os cabelos longos e estava maquiada de forma exagerada. Pedro pegou uma cadeira para ela. Perguntou-lhe se queria um copo de cerveja, que de pronto ela aceitou sem pestanejar.
    - Selma, esse é nosso amigo José que estava vivendo em Recife. - Pedro me apresentou. - Ele vai morar aqui novamente.
    - Muito prazer! Bem-vindo! O que você faz por essas terras? - Falou-me Selma olhando para mim com intensidade.
    - Eu sou daqui de São Luís, Selma. - Eu expliquei laconicamente. - Eu morei apenas quatro anos em Recife. Mas, quero agora morar aqui em definitivo.
    - Camaradas, o que vocês acham de irmos para aquele cabaré do São Cristovão? A Selma pode nos acompanhar. - Lançou Pedro ao colocar Selma sentada em suas pernas.
    - Podemos ir depois. Vamos ficar bebendo aqui mesmo. - Respondeu Carlos passando as mãos nas pernas de Selma.
    - Eu vou com certeza, Pedro. Eu quero é agito. Vamos eletrizar a noite que corre dentro de nós. - Falou Selma levando um copo de cerveja para os lábios.
    - Vamos eletrizar a noite que corre dentro de nós!!! Isso é poesia, porra! - repetiu Pedro quase gritando.
    Ficamos todos a sorrir. Pedro estava certo quanto à alma poética das putas. Continuamos a beber. Parecia que a garrafa de cerveja estava com um imenso furo. Pedimos mais uma cerveja ao garçom. Em seguida, Selma se levantou puxando-me para dançar. Eu levantei e abracei com força sua cintura fina. Após algum tempo de dança desengonçada, ela me beijou repentinamente na boca. Eu aceitei o beijo e senti o gosto da poesia em seus lábios. Carlos e Pedro apenas ficaram sorrindo a olhar a cena fortuita.

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