quarta-feira, julho 23

Drugstore Cowboy e o Cinema Singular de Gus Van Sant

Para Diego Pires - idealizador do Movimento Sebo no Chão

 
Conhecido por filmes que focam jovens marginalizados ou disfuncionais, o cineasta estadunidense Gus Van Sant é um dos realizadores mais cultuados do cinema independente e também do mainstream. De fato, Van Sant navega com precisão nos dois opostos: enquanto o cinema independente dá liberdade criativa para os diretores, o cinema hollywoodiano ensopa-os com volumosos recursos financeiros, mas poda a criatividade artística dos diretores. Via de regra, o diretor/roteirista de "Garotos de Programa" sabe se impor diante dos produtores de Hollywood, não aceitando a interferência destrutiva em sua obra cinematográfica. Tendo iniciado no cinema independente, Van Sant conseguiu destacar-se na década de 1980 estreando com o filme "Mala Noche", que foi financiado pelo próprio cineasta.
Fortemente influenciado pelo cinema underground nova-iorquino e pela literatura da geração beatnik, Van Sant foi inclusive amigo do poeta Allen Ginsberg e do escritor William S. Burroughs, além de admirador dos filmes experimentais de Andy Warhol. Por isso, Van Sant interessa-se por toda sorte de personagens que estão à margem da sociedade, tais como: drogados, prostitutas, bêbados, ladrões, etc. Com efeito, seus filmes são panoramas fiéis das ruas inundadas pelos losers (aqueles que não fazem parte do american way of life) e por jovens perturbados. Esse seria o leitmotiv para toda a carreira de sucesso - e alguns insucessos - desse magnífico diretor, que retrata poeticamente o submundo.
No vasto catálogo cinematográfico de Van Sant, temos os filmes mais expressivos: "Mala Noche" (1985), "Drugstore Cowboy" (1989), "Garotos de Programa" (1991), "Gênio Indomável" (1997), "Encontrando Forrester" (2000), "Gerry" (2002), "Elefante" (2003), "Paranoid Park" (2007) e "Inquietos" (2011). Esses filmes trazem todas as características do cinema singelar do diretor de "Milk - A Voz da Igualdade". Principalmente com "Garotos de Programa" (tendo no elenco os atores Keanu Reeves e River Phoenix) e com o grande número de indicações ao Oscar por "Gênio Indomável", Van Sant agradou os produtores hollywoodianos, podendo assim incursionar em filmes com grande orçamento, tal como o citado "Milk", no qual Sean Penn ganhou o Oscar de Melhor Ator. Entretanto, o filme que trouxe os holofotes para o cineasta foi a película do cinema indie "Drugstore Cowboy", que projetou sua excelente carreira cinematográfica e deu-lhe culto diante de inúmeros cinéfilos.
"Drugstore Cowboy" conta a história de Bob e seu grupo de assaltantes. No melhor papel de sua carreira, Matt Dillon encarna Bob, um carismático e supersticioso líder de um bando de assaltantes viciados por entorpecentes, que procura em farmácias e hospitais o meio tanto para alimentar seu vício em drogas como para tirar seu sustento diário. O bando de Bob é composto pela sua esposa Diane (a belíssima Kelly Lynch), seu amigo Rick (James LeGros) e Nadine (Heather Graham) - os dois últimos um casal de namorados. Após um roubo bem sucedido, Bob e companhia são procurados pela polícia, que revista minuciosamente a casa da quadrilha atrás de provas. A polícia nada encontra. Decidem assim partir para o interior com o objetivo em tirarem a polícia de seu encalço e, deste modo, planejarem novos assaltos. Todavia, ocorre uma tragédia intimamente ligada a uma superstição (“nunca deixe um chapéu em cima da cama, porque dá azar”), que faz o ex-presidiário Bob parar sua vida pregressa devido à sorte que o abandonou e não à consciência pesada. Ao tirar-se da vida bandida, Bob entra em um processo de reabilitação a partir do uso de metadona. Na clínica, Bob encontra um velho conhecido seu: um ex-padre viciado em drogas (papel do escritor beat William S. Burroughs - autor de "Almoço Nu"). O ex-assaltante consegue arrumar um modesto emprego, mas sua sorte muda novamente ao querer defender um jovem de dois traficantes. Isso trará consequências funestas para nosso anti-herói. Em meio a esse torvelinho, é a oportunidade que Bob tem para deixar de vez sua vida marginal para trás.  
Dignas de nota, as cenas surrealistas, que transmitem as alucinações de Bob, são um importante componente visual como, por exemplo, a cena na qual flutuam colher, porco, seringa, árvore, etc. Convém destacar, além disso, que o filme é baseado no livro autobiográfico de James Fogle, sendo adaptado por Gus Van Sant e Daniel Yost. Inclusive, a adaptação ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Independent Spirit Awards em 1990. Diferentemente de Darren Aronofsky em "Réquiem Para Um Sonho" e Danny Boyle em "Transpotting", Gus Van Sant em "Drugstore Cowboy" conseguiu filmar com desenvoltura um tema de difícil abordagem, sem projetar valores morais ou colocar à tona a glamorização do mundo das drogas. É um filme imperdível.
Vídeo

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse filme é bom pra carai.