quarta-feira, julho 16

Buffalo '66 e o Cinema Indie de Vincent Gallo

Por Paulo Dias
Vincent Gallo é um polivalente no cinema indie estadunidense. Atuando como ator, músico, diretor, editor e roteirista, Gallo - natural da cidade de Buffalo - formou em 1978 na cidade de Nova York uma banda experimental com o artista Jean-Michel Basquiat. Trabalhou também como modelo e artista plástico, passando depois a atuar em filmes do underground. Dando seguimento à carreira no cinema, o ator de "Tetro" de Francis Ford Coppola atuou em filmes de diretores consagrados, tais como: Claire Denis, Abel Ferrara, Bille Auguste e Martin Scorcese.

Como diretor e roteirista, Gallo tem filmado constantemente desde longas-metragens a curtas nos últimos anos. Com alguns filmes polêmicos em seu catálogo, que provocam a ira de críticos cinematográficos e vaias do público, Gallo não está preocupado em ser benevolente e nem em agradar, como na cena de felação ao lado da atriz Chloë Sevigny em "The Bunny Brown". Exemplo de wild child no cinema, o ator de "Matança Necessária" (Essential Killing) do diretor polonês Jerzy Skolimowski tem realizado seus longas de forma independente, inclusive encarregando-se de funções múltiplas como operador de câmera, editor e diretor de fotografia.

No currículo de diretor, Vincent Gallo tem "Buffalo '66" (1998), "The Bunny Brown" (2003) e "Promises Written in Water" (2010). Até o momento, o esplêndido "Buffalo '66" é o filme com maior destaque em sua carreira, recebendo muitas críticas favoráveis e inclusive tendo um número apreciável de fãs. De fato, esse filme trouxe muito prestígio para Gallo no mundo do cinema independente devido a sua grande engenhosidade técnica e história cativante.

"Buffalo '66" conta a história de Billy Brown (interpretado por Vincent Gallo), um recém-libertado da prisão, que foi preso para pagar a dívida de uma aposta de um jogo de futebol americano. Ao sair da prisão, o jovem pretende matar o ex-jogador Scott Norwood do Buffalo Bills, responsável pela perda do título do campeonato contra o New York Giants e também responsável por todo o infortúnio de Billy. Com o desejo de vingança na cabeça, Billy rapta a dançarina de balé chamada Layla (a atriz Christina Ricci), objetivando que ela se faça passar por sua esposa. Querendo visitar seus pais, que não tinham conhecimento de sua prisão, Billy encena com Layla um típico casal feliz em meio à família disfuncional do jovem sequestrador. A mãe de Billy (a hilária Anjelica Huston) é uma fanática torcedora do Buffalo Bills que se arrepende do dia do nascimento do filho ser justamente o dia que seu time querido ganhou o único título, enquanto seu pai (o excelente ator Ben Gazarra) é um frustrado cantor que não liga minimamente para seu filho. Diante disso, somos lançados no mundo familiar tortuoso de Billy, em que a negligência e o desprezo fizeram parte de sua triste infância. No decorrer do filme, a passiva Layla vai se afeiçoando ao atormentado Billy, e percebe-se que nosso anti-herói não é muito afeito às relações amorosas. Rumo ao desfecho do filme, Billy procura Scott Norwood, agora dono de um cabaré, para finalizar seu plano de vingança. Gallo elaborou dois finais possíveis para a película: um mais dramático e outro mais happy end. Devido às dificuldades financeiras, Vincent Gallo utilizou técnicas cinematográficas que caíram como uma luva no filme, por exemplo, o recurso mirabolante de frames para evocar as memórias. Há também: a cena engenhosa na mesa da casa dos pais de Billy é fantástica por enfatizar o ponto de vista de cada personagem. Vale ainda destacar a cena quando Layla dança na pista de boliche ao som de "Moonchild" do King Crimson. Em última instância, o filme de Gallo é um conto de fadas às avessas, com grande teor autobiográfico e cravejado de humor negro. Com efeito, "Buffalo '66" é um clássico inegável do cinema independente dos Estados Unidos.
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