sexta-feira, julho 11

A Trilogia da Guerra e o Cinema Inovador de Roberto Rossellini

Por Paulo Dias
Um cineasta indispensável para apreciar significativamente o cinema italiano é Rossellini. De fato, Roberto Rossellini é o maior nome do Neorrealismo Italiano, cujo ápice foi entre os anos de 1945 e 1948. É imperativo destacar que  Rossellini (ao lado de Luchino Visconti, Vittorio de Sica, Federico Fellini, entre outros) influenciou o cinema mundial com novas formas e técnicas de filmagem, de modo que estas foram sendo inseridas ao passar dos anos na realização de filmes mundo afora. Inúmeros movimentos cinematográficos - desde a Nouvelle Vague francesa ao Cinema Novo Brasileiro e de forma mais contundente o Novo Cinema Iraniano  -  devem grande favor ao Neorrealismo Italiano. O papel de Rossellini, nessa nova estética na realização de filmes, é crucial para o sucesso do movimento neorrealista. Cineastas do calibre de Jean-Luc Godard e François Truffaut consideravam Rossellini como um "Deus do Cinema".

O Neorrealismo Italiano, com efeito, injetou um novo ar no cinema mundial. A utilização de atores não profissionais, locações reais e histórias humanistas, por exemplo, são algumas das peculiaridades do movimento neorrealista, que sacudiu os alicerces da Sétima Arte. E é de se destacar a importância fundamental de Rossellini em capitanear o movimento ao apresentar uma nova estética de como fazer cinema com pouquíssimos recursos financeiros e com enredos próximos de documentários. De fato, a arte do Cinema, sob uma nuvem de adversidades, ergueu-se majestosa e sublime, mostrando para a suntuosa Hollywood que filmes verdadeiros se fazem em situações precárias. Além de Rossellini, Cesare Zavattini (roteirista de Ladrões de Bicicleta do diretor Vittorio de Sica) teve um papel relevante na arquitetura de ideias do Neorrealismo ao injetar altas doses de humanismo no arcabouço fílmico das películas. No entanto, foi Rossellini quem melhor retratou a ótica dos resultados nefastos da guerra.
Rossellini tem inúmeras obras-primas inquestionáveis como: Roma, Cidade Aberta (1945), Paisá (1946), Alemanha, Ano Zero (1947), Stromboli (1949), Europa 51 (1951), Viagem à Itália (1953) e De Crápula a Herói (1959). Estes filmes são a nata da extensa filmografia do diretor e roteirista italiano, que inovou na mise-en-scène ao incorporar pessoas comuns como atores principais. Maquinalmente, o realizador neorrealista soube catalisar os anseios da Esquerda ao filmar a realidade do povo italiano após a Segunda Guerra Mundial. Em particular , os filmes que fazem parte da chamada "Trilogia da Guerra" são documentos históricos essenciais para a humanidade, de tal forma que catapultaram indiscutivelmente o nome de Rossellini para o Panteão do Cinema mundial.
O primeiro filme da "Trilogia da Guerra" é  Roma, Cidade Aberta. Com pouquíssimos recursos, o filme de Rossellini foi completamente rodado em locações reais - na Itália recém-libertada do domínio alemão e totalmente devastada - e em sua imensa maioria com atores não profissionais. Roma, Cidade Aberta narra a luta de resistência do povo italiano ante a ocupação do exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial, passando-se na cidade de Roma. No eixo do filme está um grupo de militantes que lutam contra os nazistas. Um militante comunista chamado "Engenheiro" esconde-se no apartamento do camarada Francesco, já que está sendo perseguido pela Gestapo (a polícia de Hitler). Neste apartamento, moram a viúva Pina (Anna Magnani em um papel antológico), que está grávida e em compromisso de casamento com o camarada Francesco, e seu pequeno filho. Com o intuito em entregar dinheiro para a ação de outros militantes, entra em cena o Padre Don Pietro (o excelente ator Aldo Fabrizi) - um padre simpatizante das ideias comunistas. Quando a Gestapo captura o noivo de Pina ocorre uma das cenas mais fabulosas da história do Cinema: a morte de Pina pelos soldados nazistas. Há também espaço dentro do filme para questões morais como, por exemplo, a adesão ao nazi-fascismo em troca apenas de drogas e casaco ou o saque a uma padaria por cidadãos romanos famintos, inclusive por um sacristão. Nesse pano de fundo, Rossellini borda um retrato ultrarrealista, entremeado com melodrama, sobre a situação da Itália devastada tanto econômica quanto politicamente. Deve-se destacar que o cineasta italiano viveu como clandestino e participou da Resistência, apesar de inicialmente simpatizar com o Fascismo. O roteiro da película ficou por conta de Roberto Rossellini, Federico Fellini, Sergio Amidei e Alberto Consiglio. Ovacionado na França, Roma, Cidade Aberta ganhou em 1946 o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado com Melhor Roteiro no Oscar.

Paisá, um conjunto de episódios independentes, é o segundo filme da "Trilogia da Guerra". No primeiro episódio, temos um soldado estadunidense incumbido de proteger uma jovem italiana num castelo de ruínas, após o desembarque de uma tropa de soldados da pátria do Tio Sam à Praia da Sicília. O roubo de um sapato (o dono é um soldado negro embriagado) por um garoto de rua em Nápoles é o pano de fundo do segundo episódio, enquanto no terceiro episódio um soldado estadunidense fica atraído por uma bela jovem italiana. O casal tem uma noite de amor, mas ao passar seis meses a jovem agora é uma prostituta tentando sobreviver em meio ao caos. No quarto episódio, uma enfermeira inglesa da Cruz Vermelha tenta encontrar um resistente italiano que tanto ama, ao passo que o quinto episódio traz três missionários (um católico, um protestante e outro judeu) que pedem asilo em um mosteiro. O último episódio mostra a sanguinolência estúpida da guerra às margens do rio Pó, entre resistentes italianos e soldados alemães. Nesses moldes, Rossellini costurou uma variedade de histórias sobre amor, moral, humildade, lealdade entre nativos italianos e soldados estrangeiros. Dentro desse bojo, o cineasta de "Viagem à Itália" continua a estética do neorrealismo ao utilizar atores amadores e locações externas para extravasar o sentimento do povo italiano durante os conflitos às portas da libertação definitiva. A presença do exército estrangeiro (tanto dos Estados Unidos como da Alemanha) na vida dos italianos é enfatizada, focalizando relacionamentos no meio da luta pela libertação do domínio nazista. São narrativas pessoais à sombra dos horrores da guerra e documentos da luta apaixonada dos rebeldes italianos ante o domínio nazi-fascista e sob a ocupação do exército dos EUA. A segunda película da "Trilogia"  (tendo o roteiro de Sergio Amidei, Federico Fellini, Alfred Hayes e Roberto Rossellini) ganhou o prêmio principal dos Críticos de Cinema de Nova York como Melhor Filme Estrangeiro e indicado como Melhor Roteiro no Oscar.
O último filme da trilogia rosselliana é Alemanha, Ano Zero, cujo fio condutor é o garoto Edmund, que vive na Berlim destroçada pela Segunda Guerra Mundial à procura de pequenos trabalhos para sustentar sua pobre família. Edmund vagueia pelas ruas tentando desesperadamente conseguir dinheiro e comida para o pai doente, o irmão (ex-soldado nazista que se esconde das autoridades) e a irmã voluntariosa. Cercado pela devastação e pelas ruínas, o pequeno Edmund envolve-se com um jovem delinquente e com uma órfã sexualmente precoce, e encontra ainda seu ex-professor que agora pratica venda de objetos nazistas para soldados aliados no mercado negro. Uma parte central do filme é o discurso nos moldes nazistas que o ex-professor realiza ante Edmund. Isso trará consequências funestas para o futuro do garoto. A cena de Edmund caminhando entre os edifícios em ruínas é uma das mais fantásticas do Cinema. Objetivando mostrar uma realidade nua e crua tanto física como moral, o filme de Rossellini é um retrato preciso da Alemanha após a derrota na Segunda Guerra Mundial, com cidadãos corrompidos pela miséria. Nesta película, a luz natural e a captação de ruídos são utilizadas ao máximo. Vale destacar a fotografia em preto e branco que expõe os destroços da Berlim pós-guerra. Em minha opinião, Alemanha, Ano Zero é um dos melhores expoentes do movimento neorrealista ao lado de Vítimas da Tempestade de Vittorio de Sica. De fato, Rossellini está no auge de sua criatividade e filma com pungência os horrores ocasionados pela guerra, na qual todos saem perdedores. Viva o grande Rossellini!

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