sábado, maio 17

Rashomon e o Cinema Universal de Akira Kurosawa

Por Paulo Dias
"Essas são histórias comuns nestes dias.
Ouvi dizer que o demônio vive aqui em Rashomon,
fugindo com medo da ferocidade do homem"
     É inconteste o gênio cinematográfico de Akira Kurosawa para críticos e entusiastas da sétima arte. Dono de uma técnica soberba que beira o perfeccionismo, o cineasta japonês foi flagrantemente influenciado pelo cinema ocidental: desde D. W. Griffith a John Ford. Inicialmente, com o desejo expresso em se tornar artista plástico, Kurosawa enveredou no mundo do cinema incentivado pelo irmão mais velho. Como uma herança definitiva do seu passado nas artes plásticas, sua marca latente era a preparação de inúmeros "storyboards" que desenhava a punho antes das filmagens.
    Em sintonia fina com a literatura (uma verdadeira paixão para Kurosawa), principalmente com as obras de Shakespeare e Dostoiévski, seus roteiros magníficos transbordam lirismo e teor universal. O diretor de "Os Sete Samurais" sabia, como ninguém, criar obras arrebatadoras e cativantes, fazendo um escrutínio minucioso de cada quadro do écran e de cada movimento dos atores no cenário com grande detalhismo. Era recorrente o trabalho com os atores Takashi Shimura e Toshiro Mifune, como colaboradores nos filmes mais extraordinários e importantes de Kurosawa, que encantam cinéfilos de carteirinha.
     O legado e influência cinematográfica de Kurosawa é indiscutível no cinema ocidental, onde filmes como "Rashomon" (1950), "Viver" (1952), "Os Sete Samurais" (1954), "Trono Manchado de Sangue" (1957), "A Fortaleza Escondida" (1958), "Yojimbo" (1961), "O Barba Ruivo" (1965), "Derzu Uzala" (1975), "Kagemusha - A Sombra de um Samurai" (1980), "Ran" (1985) e "Sonhos" (1990) o colocam entre os mestres supremos do cinema mundial ao lado de Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick. No documentário "It's Wondeful to Create", é descrito o episódio em que Kurosawa rasgou cinquenta páginas do roteiro inicial de "Viver", que estava escrevendo com Shinobu Hashimoto, após o roteirista Hideo Oguni (contratado para realizar a análise crítica do roteiro) afirmar "Kurosawa, isto não está bom!", sendo que em seguida Kurosawa retruca irritado "tudo porque você não veio mais cedo!". De fato, isso mostra o grau de virtuosismo por parte do cineasta nipônico, que eleva sua obra atemporal e sem fronteiras ao posto de patrimônio cultural da humanidade.
      O excepcional "Rashomon" de 1950 - uma obra-prima ímpar - tem um dos roteiros mais inventivos da história do cinema. O filme tem como pano de fundo o assassinato de um samurai e o suposto estupro de sua jovem esposa, num bosque isolado, por um bandido chamado Tajomaru. Na pele de Tajomaru está o fantástico ator Toshiro Mifune em uma atuação esquizofrênica e demente. Num portal em ruínas quando ocorre uma forte tempestade, a história do assassinato e do estupro é narrada por um lenhador (Takashi Shimura) para um plebeu (Kichijiro Ueda) e para um sacerdote em crise de fé (Mineru Chiaki). É assaz notável como Kurosawa entrelaçou o interrogatório dos envolvidos no crime, onde nem as vozes dos interrogadores são escutadas e nem seus rostos são vistos (o papel dos interrogadores fica a cargo dos espectadores), de tal maneira que as várias versões do crime são contadas pelo bandido, pela esposa e pelo lenhador que testemunhou os acontecimentos escondido no bosque. A alternância dos pontos de vista - baseada em flashbacks e flashbacks dentro de flashbacks - é engenhosamente elaborada: do portal Rashomon para o interrogatório, e do interrogatório para a cena do crime. Cada personagem narra uma história contraditória, que entra em conflito com a dos demais personagens; até um médium empossado com o espírito do samurai assassinado se faz presente no interrogatório para narrar sua versão do crime. Em última instância, para Kurosawa importa esculpir um estudo dilacerante sobre o ser humano, compondo assim um painel preciso sobre os valores humanos em cheque diante de tanta barbárie. Convém destacar a trilha sonora de Fumio Hayasaka (majoritariamente pautada em tambores) e a fotografia de Kazuo Miyagawa com uma câmera bastante fluída, que ressalta a beleza do bosque ante os raios solares penetrantes. O roteiro magistral de "Rashomon" é baseado, em parte, nos contos de Ryunosuke Akutagawa. Vale também salientar que o longa-metragem japonês ganhou merecidamente o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1950 e o diretor nipônico recebeu, nesse mesmo ano, o Leão de Ouro do Festival de Veneza.
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