quarta-feira, abril 30

Mephisto e o Cinema Pungente de István Szabó


Por Paulo Dias
            O cineasta húngaro István Szabó recebeu grande reconhecimento internacional com a realização de "Mephisto" em 1981. Com a projeção internacional, Szabó filmou em seguida dois filmes sólidos que consolidaram seu cinema, a saber: "Coronel Redl" e "Hanussen". Seu primeiro longa-metragem foi "Idade das Ilusões" de 1964 e o segundo foi "Pai" de 1967, que o colocaram no front do cinema húngaro. Ganhou reconhecimento no resto da Europa com o filme "Confiança", no qual foi premiado com o Leão de Ouro de Melhor Direção no Festival de Veneza e com o Prêmio Especial do Júri de Melhor Filme no Festival de Berlim.
           Em primeiro momento, o cinema de Szabó era permeado de elevado teor dramático e autobiográfico. Entretanto, a partir de "Contos de Budapeste" de 1979, Szabó mira sua câmera para questões políticas, mudando seu foco cinematográfico em crescente ascensão. A partir disso, seu cinema atinge o ápice de criatividade e beleza que tanto tencionava. Em busca incessante da resposta de uma pergunta, pela qual pensou várias vezes, - o que é tão único no cinema? - chegando à conclusão que "as palavras ficam melhor na literatura. Formas, luz, sombras e cores ficam melhor na pintura; atuar é melhor em uma boa peça escrita por Shakespeare. As emoções ficam melhor na música. Mas, um filme tem algo especial que nenhuma outra arte pode mostrar".
          Na filmografia excelente de Szabó, há além dos filmes supramencionados: "Um Filme de Amor" (1970), "Encontro com Vênus" (1991), "Sunshine - o Despertar de em Século" (1999) e "Adorável Júlia" (2000). Seus filmes têm tanto o poder de encantar quanto de nos fazer questionar intimamente sobre nosso papel no mundo. Cinema para pensar e não apenas entreter! Cinema para nos perturbar e para nos retirar de nossa zona de conforto!
          A obra-prima inigualável "Mephisto" de 1981 é um dos grandes filmes a abordar a relação entre arte e política. O longa-metragem é baseado no livro homônimo de Karl Mann (filho do escritor Thomas Mann, autor de "Doutor Fausto" e "A Montanha Mágica"), que por sua vez é baseado na vida do ator de teatro Gustaf Grungrens, consagrado por servir como marionete nas mãos do Terceiro Reich, assim como o cantor Roberto Carlos que se tornou um aliado fiel da Ditadura Militar Brasileira entre os anos de 1964 e 1985, sendo alçado pela famigerada Rede Globo ao posto de "Rei". Em paralelo com "Fausto", o ator Hendrik Höfgen vende-se ao partido nazista, objetivando atingir sucesso imensurável dentro dos palcos e acreditando por ser "apenas um ator" estará isento das questões políticas. Apesar de seu passado em favor do Bolchevismo em Hamburgo, o partido nazista lhe perdoa devido aos seus serviços prestados à grandeza do povo ariano. O ambicioso Höfgen segue para Berlim com o intuito nefasto de chegar ao estrelato, que anseia com todas as suas forças. No papel de Höfgen está o ator germânico Klaus Maria Brandauer numa atuação visceral - diria até uma das maiores da história do Cinema. Uma cena marcante é a "transa teatral" entre Höfgen e uma belíssima negra alemã chamada Juliette (sua professora de dança e amante), que por motivos raciais Höfgen a renuncia para ascender socialmente. O grande papel na carreira de Höfgen é Mefistófeles da peça "Fausto" de Goethe, que trata de um homem que vende a alma ao demônio em troca de conhecimento. A primeira cartada de Höfgen é o casamento com a burguesa Bárbara. A segunda cartada é ter se tornando amigo do primeiro-ministro para obter certas vantagens. Ao galgar ao posto de diretor do Teatro Nacional de Berlim, Höfgen vê um a um de seus amigos desaparecendo "misteriosamente" por divergirem do regime nazista, enquanto vive passivamente numa inação total. Com efeito, "Mephisto" é uma reflexão sociopolítica sobre artistas inseridos em regimes autoritários, cuja missão verdadeira é combater a arte manipulada pelas mãos sujas e inescrupulosas de ditadores, uma vez que artistas de verdade não compactuam com o terrorismo de Estado. O filme foi premiado como melhor roteiro no Festival de Cannes, ao passo que no Oscar ganhou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro.
Cena de Mephisto:

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