terça-feira, fevereiro 11

Os Contos Fantásticos de “Pássaros na Boca”


 Por Paulo Dias
         O livro de contos "Pássaros na Boca" (Pájaros en la Boca - 2009) de Samanta Schweblin é uma obra instigante que agrega dezoito contos peculiares, tecidos no cotidiano que esconde mistérios envolventes e perturbadoras situações. Com efeito, a escritora argentina desponta como a nova voz da literatura latina, sendo influenciada por nada menos do que Bioy Casares, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges. A contista, de fato, é em lato grau uma herdeira do realismo fantástico. Vencedora do prêmio Casa de las Americas em 2008 por seu livro supramencionado. Com o prestígio da escritora em alta, a revista literária britânica Granta a apontou como uma revelação entre os escritores de língua espanhola. Sua mais nova conquista é o Prêmio Internacional de Contos Juan Rulfo 2012 em Paris. Conforme o escritor peruano Mario Vargas Llosa: "Samanta é um dos talentos mais promissores da atual literatura de língua espanhola. Não tenho a menor dúvida de que essa jovem escritora tem uma carreira brilhante pela frente".
          Indubitavelmente, a formação em cinema pela Universidad de Buenos Aires ajudou muito a jovem portenha a tecer laboriosamente seus contos fantásticos. No tocante à escrita cristalina - e objetivamente sedutora - da escritora argentina, cada linha desvela as estórias do normal para o anormal de um instante para outro e cada parágrafo prepara o terreno para o final muitas vezes desconcertante. A contista revela um mundo inquietante, no qual por trás de situações corriqueiras há o inverossímil e o inesperado como em um filme de David Lynch.
     Nessa esfera de ação, os contos cinematográficos - que retratam, em primeiro momento, o cotidiano em seu estado usual - mergulham de forma abrupta em atmosferas surrealistas, em que o fantástico toma as rédeas e parece distorcer o espaço-tempo da estória. Os melhores contos do livro - na minha opinião - são "Irman", "Pássaros na Boca", "Cabeças contra o Asfalto" e "A Mala Pesada de Benavides". Vale a pena conferir o talento encantador de Samanta Schweblin. Dixi.



"Se você bater muito a cabeça de alguém contra o asfalto - ainda que seja para trazê-lo à razão -, é provável que termine machucando-o. Isso é algo que minha mãe me explicou desde o princípio, no dia em que golpeei a cabeça de Fredo contra o piso do pátio do colégio. Eu não era violento, quero deixar isso bem claro. Só falava se era estritamente necessário, não tinha amigos nem inimigos, e a única coisa que fazia nos recreios era esperar sozinho na sala de aula, distante do ruído do pátio, até que a aula começasse de novo. Esperava desenhando. Isso acelerava o tempo e me afastava do mundo..." (trecho do conto "Cabeças contra o Asfalto" - tradução de Joca Reiners Terron - Editora: Benvirá)

Nenhum comentário: