terça-feira, outubro 22

A Trilogia do Silêncio e o Cinema Psicológico de Ingmar Bergman


Por Paulo Dias

"Filme é um sonho, como a música. Nenhuma arte passa
à nossa consciência da maneira que o filme faz. 
Ele vai diretamente para os nossos sentimentos 
e toca o fundo de nossas almas"
(Ingmar Bergman)



O cineasta sueco Ingmar Bergman é considerado um mestre de primeira grandeza no mundo do cinema. Indiscutivelmente, Bergman inovou a linguagem cinematográfica com “O Sétimo Selo” - uma de suas inúmeras obras-primas. No filme “Manhatan”, o personagem Isaac Davis, interpretado por Woody Allen, afirma: Bergman é o único gênio do cinema. Dito isso, a influência do diretor sueco no cinema autoral de Allen é latente e nos cineastas da década de 1960 até a atualidade. Podemos com ênfase afirmar que Bergman é um cineasta original com roteiros persuasivos e contundentes em variados gêneros cinematográficos, tendo usualmente como fio condutor problemas existenciais que servem para canalizar toda abrangência criativa e peculiar do diretor advindo do teatro.



De um modo geral, Bergman apresenta em seus filmes uma gama de personagens complexos, que parecem derivados dos romances de Dostoiévski como, por exemplo, “O Idiota”. São personagens imersos em dúvidas religiosas e existenciais, lançando na tela toda diversidade de sentimentos e desejos. A sondagem psicológica é digna de Machado de Assis e é fundamental para que Bergman construa seus enredos excepcionais e magnéticos. Nos seus filmes principais, o enredo objetivo resulta em um todo pleno de possibilidades para os protagonistas, na medida em que somos transportados para vários canais interpretativos. Bergman dilata nossas percepções, costurando metodicamente em suas tramas os tormentos patológicos e psicológicos dos seres humanos inseridos em um mundo sagaz e corrupto.

Na estupenda carreira cinematográfica – e aliás bem extensa - de Bergman, há várias peças monumentais como, por exemplo, “Noites de Circo”, “Morangos Silvestres”, “Personna”, “A Fonte da Donzela”, “Vergonha”, “Cenas de um Casamento” e “Fanny e Alexander”. Todos estes filmes têm um encanto especial e nos cativam e emocionam profundamente até mesmo os corações mais empedernidos, visto que Bergman desperta em nós os mais valorosos questionamentos e sentimentos; são filmes magistrais que trazem toda a magia e beleza do cinema. Vale assim enfatizar que Bergman é sinônimo de cinema, de um cinema inesquecível, de um cinema onde transborda beleza lírica e onde há um manancial de poesia.

O primeiro filme da chamada trilogia do silêncio de Bergman é “Através de um Espelho” - ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1962 e da Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme é um drama pungente e de uma força exorbitante, centrado em uma família que está de férias em uma ilha isolada. Os quatros membros da família sofrem as consequências da esquizofrenia de Karin (interpretada pela excelente atriz Harriet Anderson). De fato, Karin tem graves problemas psicológicos e todos ao seu redor são afetados profundamente. O marido de Karin (o espetacular ator Max Von Sydow) tenta com devoção ajudá-la a superar a doença e o irmão adolescente de Karin apresenta um apego forte à irmã. Esta, com o passar do filme, vai piorando gradativamente sua crise histérica. Em particular, o pai de Karin é extremamente egoísta e culpa-se por se afastar dela quando da descoberta da doença, estando preocupado principalmente com sua carreira literária. Percebe-se muito claramente os diálogos deslumbrantes e as imagens poéticas da película em preto e branco (veja as cenas no barco abandonado). Bergman realiza um estudo analítico sobre a família sob o efeito de uma doença psicológica, que atinge um de seus membros (na verdade, Karin parece sofrer de transtorno bipolar devido às inúmeras variações de humor). Em outras palavras, Bergman aborda a desestruturação de uma família diante da ausência de Deus em responder aos seus questionamentos mais íntimos.

Em sequência, o segundo filme da trilogia é o impactante “Luz de Inverno” de 1962, cujo enfoque é sobre um pastor em dúvida de sua fé e em silêncio com Deus. Quando um habitante da frívola vila debalde vai à procura de conselhos e de paz, o pastor não consegue persuadir o pescador, temeroso com uma possível guerra nuclear, de cometer suicídio. Com efeito, o ator Gunnar Björnstrand no papel do pastor descrente é de excelência e altivez, bastante focado na interpretação e em sintonia com a atriz Ingrid Thulin, que é uma professora apaixonada pelo pastor incrédulo. Cumpre-nos mencionar o diálogo arrebatador do pastor com um portador de necessidades especiais antes de um culto e as cenas cruciais que mostram o vazio não apenas das igrejas, mas também dos personagens despidos de fé e em crises existenciais. Bergman (filho de um pastor luterano) prega a instabilidade do homem perante o silêncio de Deus, de sorte que os momentos de incerteza no divino são preponderantemente mostrados em close-ups que captam os personagens apóstatas. Somos catalisados, assim como no primeiro filme da trilogia, pela fotografia em preto e branco de Sven Nkyvist – um dos melhores fotógrafos cinematográficos de todos os tempos.

No que diz respeito ao terceiro filme da trilogia “O Silêncio”, podemos salientar a relação nada convencional das duas irmãs, que viajam de trem pela Europa e param em um país, cuja língua para elas é um empecilho. Anna (interpretada pela caliente Gunnel Lindblom) e Esther (a versátil atriz Ingrid Thulin) vivem uma conturbada e caótica convivência ao lado do filho de Anna. À primeira vista, a sedutora Anna repudia sua irmã doente, que é uma tradutora de sucesso, e salta aos olhos a falta de comunicação das irmãs com o mundo externo e consigo mesmas. A ausência de Deus é enfatizada no quarto de hotel e nos olhos dos personagens que seguem em um mundo à beira de um colapso. De resto, Bergman destina-se em mostrar ao público que as relações fraternas são marcadas pelas vivências da infância à vida adulta, enfatizando que a busca pela adequação ao mundo perpassa pelo conhecimento e fé em si mesmo. Digno de nota é a cena dos anões circenses espanhóis em um momento lúdico com o filho de Anna. No tocante aos diálogos sempre profundos de Bergman, que servem como veículo para acentuar as personalidades diametralmente opostas das irmãs, as protagonistas acertam em cheio na interpretação bastante rica e coesa. É Bergman como conhecemos.
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