terça-feira, junho 25

Ode para Augusto dos Anjos


Por Paulo Dias

I
Sob o sol da amargura uma alma triste vagou
Em silêncio procurando uma brisa qualquer
Corroída pelos mesmos vermes que do seu corpo
Alimentaram-se imponentes ao chegar da noite insone
A tristeza pousou em sua alma como um urubu
E em horas brutais a fome lhe devorou os desejos
De conquistar os sonhos que se perderam no vendaval
Agora neste mundo não há nada para se lamentar
Apenas o luar cai sobre o túmulo risonho
Que guarda os restos de uma mente torturada
Em um corpo antes esquálido carregando um coração
Que era mais amplo que um deserto onde uma caravana
Cruza à procura de um oásis de flores mortas
Ó Mausoléu corpóreo abrigando a angústia e a dor
Veneradas sob a lua macilenta dos solitários
Nem uma sombra vagou tão esquecida pelas ruas
E nem uma prostituta ficou tanto tempo na esquina
Esperando por um convite funesto e malicioso
Somente um velório que atravessa a noite inteira
Pode ser lembrado, ó poeta, pelos tristes sonâmbulos
II
Tu caminhaste na direção do sol nascente
Como um visionário enxergando o futuro
Sentiste as agonias de um filosofo na madrugada
Somente um tamarindo te deu sombra e abrigo
E nem um morcego veio atrapalhar teu sono
Dentro de tua última camisa tecida pela morte
E nem quimeras te acompanharam no caminho
Quando teu caixão era transportado para a cova
Onde a terra iria cair como último alento
Já esperavas essa hora de um novo despertar
Em teus sonetos inigualáveis e grandiloqüentes
Sonhei várias noites lendo teus poemas majestosos
E queria tanto uma noite no Cairo desmaiando
Dentro de mim como desmaia um epiléptico
Ó Lázaro que os dias consumiram sem pudor
Tendo alucinações à beira-mar com medo da morte
Tu, ó poeta, te acostumaste à terra que te esperava
E o escarro que lançaste na face de um poeta tolo
Que menosprezou teus versos com tanto sarcasmo
Agora escorre nos vidrais das catedrais da ignorância
III
Foi nessas horas longas de tão sensata meditação
Que eu suspirei ouvindo teus versos a um coveiro
Tanta morbidez em termos científicos eu ouvia
No latejar agonizante dos trovões ao anoitecer
Tendo nas mãos a cítara mística sempre a gemer
Eu cantava tua glória magistral nesse martírio supremo
De ser poeta em tempos insanos e sangrentos
Ouvindo sempre um gemido do meu ser em rutilância
Avisando-me dos perigos em abraçar tantas dores
Sei que o calvário de todo poeta é seu coração abrasador
Que queima em vertigens nas horas soturnas
Esse oficio requer uma força tamanha do ser
Parece um apocalipse íntimo onde belos arcanjos
Anunciam com trompas d’ouro o momento extremo
Que é expor em palavras sentimentos demasiados
Essa agonia ardente, ó poeta, sentiste no peito
E ouviste sem findar as vozes de um túmulo
Que te chamava para um longo sono sempiterno
Acolhido pelos braços da costureira funerária
IV
A chuva caía reconfortante sobre tua alma
Mesmo com tantos relâmpagos e trovões ensurdecedores
Tu já esperavas em sonhos o caixão fantástico
Que iria te conduzir para tua última morada
Este era o solilóquio de um visionário que se repete
Quando se visualiza no horizonte os corvos
Que fazem o contato deste mundo com o outro
Quantas vezes eu li teus sonetos exuberantes
Anunciando a noite prometida que se aproximava
Só que não temeste a chegada da hora fatal
Cantaste em versos o momento de tua morte
Que já não tardaria logo em ti beijar o rosto
Os sicômoros se entristeciam pelo passamento
Pois tua alma buscava a tristeza metálica
Que a natureza forja na fria escuridão
Eu queria bradar ó poeta uma única palavra
Que em teus versos parece tímida: amor!
A dor foi para ti uma companheira primeva
E por ela padeceste rumorejando à noite
Ó poeta! Quando a noite dos Vencidos chegará?

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