sexta-feira, maio 24

Ode para Arthur Rimbaud



Por Paulo Dias

I
Enquanto as estrelas chorarem rosa em nossos ouvidos
A poesia reinará soberana em nossos corações
Fazendo-nos navegar por mares desconhecidos
Onde barcos embriagados singram sem direção
Em busca de algum porto que os abracem fortemente
E iremos pelas veredas como destemidos desbravadores
Abrindo o caminho rude com machados afiados
Ceifando melodias nas almas inebriadas pela dor
Que sepulta os sonhos nascidos em águas límpidas
Tomaremos o vinho da inspiração em goles soberanos
Ou quem sabe o absinto que arde ferozmente na garganta
Sonharemos com horizontes plácidos em nossas viagens
À procura de objetos mais valiosos do que diamantes
Ainda temos muito a fazer e é preciso sonhar
Para garimparmos melancolias ao pôr do sol
E desejar arrebóis esplêndidos que mancham o céu
Há abismos à frente e tantas caravanas já seguem
Pelo deserto que brota como um jacinto solitário
Esperando pelo orvalho da noite cair radiante
Ó mestre do silêncio! Ajude-nos nesta tarefa cotidiana
II
Teu sangue galês correu insano em veias poéticas
E sonhastes tantas Áfricas em tuas andanças febris
Até o contrabando de armas foi tua atividade banal
Cruzando muitos desertos que teu olhar inundou
Era preciso vagar pelo mundo para alimentar o espírito
Tão aventureiro e tão explorador mesmo com tempestades
Avançando em tua direção em noites insones
Uma noite no inferno já não era para ti tão sofrida
Pois com teu amigo íntimo enfrentastes longas jornadas
Para ver pela primeira vez um mar tão plácido
Que as águas vieram beijar teus pés de cigano
Teu barco embriagado singrou esse mar perpétuo
E tantos portos sonharam em avistar tua majestosa proa
Depois que o dilúvio sossegou-se em teu colo primaveril
Ó poeta! Tuas iluminuras iluminaram minhas noites
Passei noites lendo esses poemas em prosa com ardor
Que escrevestes com sangue, com lágrimas e com suor
E sonhei com a criança abandonada no cais de partida
Vendo um barco seguindo à procura de novos mundos
III
Foi em um verão que sonhei buscando o mar
Que te envolveu quando a aurora despertava
Como um insano procurei vestígios das ondas
Em vigílias eu ficava a observar o horizonte
Eu queria tanto abraçar a aurora de verão
Somente tive a solidão ruminando em meus ouvidos
Que estão sempre preparados para a música adequada
Agora devo revelar meus sonhos ao anoitecer
Quem sabe semear novas lembranças na alvorada
E sei que a primavera é evidente no meu peito
Apenas vago embriagado com as mãos no bolso
Adormecendo no vale onde os perfumes habitam
Assim ó poeta vou correndo pelas noites azuis
Com a lua como testemunha de meu rude oficio
Talhando palavras nos papéis escorrendo sangue
E sonhando mesmo para o inverno uma chuva amena
Que lave minhas tristezas efêmeras da juventude
Ó vidente! Eu quero enxergar a alquimia do verbo
IV
Sigo selvagem no vendaval que sopra tão vacilante
Carregando minha fúria contra os chacais na esquina
Que aguardam ferozes esperando minha queda
Assim mesmo o absinto corre pelas minhas veias
A feiticeira verde vem me acudir nas ruas desertas
Onde vago procurando uma brisa à meia-noite
Nestes dias anormais, ó poeta, é preciso cuidado
Pois vampiros sanguinolentos querem mais que sangue
E há perigo trafegando em toda parte da cidade
Onde as pontes ocultam a miséria que tanto enojavas
Somente tuas aventuras são dignas de serem contadas
Ao vento que vem embalar nossas tragédias diárias
Com teu companheiro inseparável cruzastes oceanos
Para conhecer novas terras e decifrar teus sonhos
Que corriam como piolhos em teus cabelos lisos
Era preciso enfrentar pseudopoetas na tua jornada
Para abarcar o infinito e a imensidão voraz dos abismos
Era preciso mesmo mergulhar nos rios impassíveis
E tantos delírios a ti foram como um trovão na tempestade
Ó poeta! Até quando lamentaremos o sol eterno?

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