quarta-feira, maio 29

Ode para Alphonsus de Guimaraens

Por Paulo Dias
I
Haverão de chorar por nós os cinamomos indolentemente
Quando chegar a hora inusitada em nosso jardim do peito
Onde flores murcham sem orvalhos a cair como lágrimas
E tantas estrelas se vestirão em negro no céu pálido
E os pássaros em luto cantarão melodias triunfantes
Que farão os adormecidos despertarem de suas camas sujas
Até os arcanjos ficarão tristes em suas moradas superiores
E muitos lamentarão nossa viagem por vastos promontórios
Nos quais haveremos de encontrar poetas a recitar
Poemas que nos farão gemer em silêncio agonizante
Porque nossos ouvidos não estão prontos para tais sinfonias
E também haveremos de encontrar uma catedral ebúrnea
Erguida entre as nuvens onde surge a aurora branca
Ó pobre Alphonsus! Os sinos cantam somente para ti
Que viveu numa câmara ardente num chorar constante
Pois tua musa morreu no alvorecer dos sonhos
II
Ouço teus sonetos magistrais no silêncio da noite
E lembro das mãos da finada já como neve derretida
Um toque despertou sinfonias supremas no teu peito
Pois a musa morreu no esplendor da idade junto ao luar
E tu ficaste a lamentar os céus por tal passamento
Tuas lágrimas caíram feito taças de cristal no chão
Sentiste tanta dor que tua alma se despedaçou
Até os cisnes brancos cantaram por tua tristeza
Tu andaste, ó poeta, por um deserto cheio de covas
E apenas um nome gravado num túmulo te animou
Os sinos dobraram nessa hora de extrema agonia
Então chegou na aurora a carruagem medonha
Conduzindo tu’alma tristonha e um corpo tão pálido
Assim a primavera murchou logo ao primeiro despertar
E teus sonhos de amor se perderam nos olhos da finada
III
Agora tento, ó poeta, ressurgir das cinzas espalhadas
Que foram lançadas ao mar quando o vento rude soprava
Já andei por tantos desertos à procura de uma miragem
Que me conduzisse ao palácio da ventura onde poetas
Saciam–se com o mais puro vinho e com lindas musas
Estou cansado de procurar e qualquer desejo prematuro
Que brota em meu peito faz nascer grandes esperanças
Tenho demasiadamente lido teus poemas, ó grande poeta
E lembro de versos sempiternos que me fizeram chorar
Tanta beleza esboçada em palavras quase tecidas
Pela mão que te conduziu a paraísos onde uma morta
Te espera para a comunhão divina junto aos anjos
Ela está vestida em cetim sempre com as mãos postas
E muito foi embalsamada por tuas lágrimas vertiginosas
Tantas vezes, pobre Alphonsus, tu cantaste a morte
E guiar-se com uma bússola sem norte é uma árdua tarefa
Tu apenas esperavas o último punhado de areia
Para encontrar-se com tua musa que se foi muito cedo
IV
Os cinamomos brotam diante de nossos olhos estarrecidos
São regados com nossas lágrimas misturadas com sangue
Suas folhas são levadas pelo vento numa dança oscilatória
E levam nossos sonhos lúcidos que acabaram de nascer
E fica a dor de quem recorda os tempos saudosos já idos
Quando não nos preocupávamos com a passagem das horas
Agora cada minuto perdido para nós é um motivo de desespero
Estamos tão arraigados com tolos compromissos cotidianos
Que esquecemos de louvar a beleza diante de nossos olhos
As flores e as estrelas estão aí para provar os milagres
Que é contemplar tanta beatitude nesses dias anormais
Assim mesmo o cinamomo ainda floresce em frente ao postigo
Nas noites tristes onde os lívidos amantes se separam
Quero é sentir no peito as carícias divinas de umas mãos
Que farão despertar as mais estranhas sensações
Quero é acordar do sonho áureo e esquecer as tristezas
Deixar em minh’alma florir um novo tempo sem martírios
Ó poeta! Haverão mesmo de chorar por nós os cinamomos?

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E num desvario seu
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao
Seu corpo desceu ao mar.
Ismália..