sexta-feira, abril 19

Trilogia da Incomunicabilidade e o Cinema Existencialista de Michelangelo Antonioni



Por Paulo Dias
“Para mim, o cinema nem sempre é espetáculo.
Nem se pode afirmar que o cinema é só e
Exclusivamente espetáculo. O cinema pode ser narrativa.
Por que não? Quem o pode impedir?”
(Michelangelo Antonioni)

                Michelangelo Antonioni (1912-2007) é um dos grandes cineastas da década de 1960 (e indubitavelmente de todos os tempos) e um dos realizadores de cinema mais cultuados entre os cinéfilos que não se apegam às manobras do comércio da arte cinematográfica. Apesar de ser considerado um cineasta intelectual (para alguns), Antonioni obteve um certo sucesso financeiro na realização de seus filmes não comerciais junto ao grande público – não afeito aos temas recorrentes de teor existencial do diretor italiano. De fato, o início de sua carreira cinematográfica está atrelado ao neorrealismo, com participações em roteiros dos filmes de Roberto Rosselini e Enrico Fulchignoni. Seu documentário “Gente do Pó” (1943) é considerado um dos precursores do Neorrealismo Italiano, entretanto Antonioni destacou-se no cinema de abordagem existencialista, junto com o cineasta também italiano Valerio Zurlini.
            Antonioni estreou em longas-metragens com “Crimes d’Alma” (1950), onde neste filme em diante irá preocupar-se mais com o lado existencial/psicológico ao abordar temas como solidão, rompimento amoroso e o lugar do homem moderno em uma sociedade vazia e complexa, distanciando-se do cinema com preocupação social. É marcante o fato que Antonioni dirigiu-se para um cinema mais intimista, marcado por uma leve cadência de filmagem e com seres humanos soturnos – e frívolos - à maneira de “O Coração é um Caçador Solitário” de Carson McCullers, onde os personagens não conseguem se comunicar uns com os outros. Talvez influenciado pelo escritor Albert Camus (vide os romances “A Queda” e “O Estrangeiro”) e pelo diretor sueco Ingmar Bergman, Antonioni construiu filmes fortemente tocantes e lacunares, no sentido que certas ações no enredo não são mostradas explicitamente para o espectador.
            Na filmografia avassaladora de Antonioni, há as obras-primas incontestáveis: “A Aventura” (1960), “A Noite” (1961), “O Eclipse” (1962), “O Deserto Vermelho” (1963), “Blow Up: Depois Daquele Beijo” (1970) (baseado em um conto do escritor argentino Julio Cortazar) e “Zabriskie Point” (1976). Estes filmes mostram o melhor e o essencial da técnica arguta de Antonioni e que por sua vez nos encantam, nos emocionam apesar de alguns detratores afirmarem que seus filmes na ótica do mainstream são entediantes. Antes de tudo, Antonioni é sinônimo de qualidade no cinema; é arte fina para os olhos e para a mente; é nada mais do que literatura visual. 
             O primeiro filme da chamada trilogia da incomunicabilidade “A Aventura” (L’Avventura) é pautado sutilmente no desaparecimento de Anna (Lea Massari), uma jovem burguesa em crise de relacionamento com o pai e com o namorado Sandro (Gabriele Ferzetti). Quando um grupo de amigos burgueses parte a passeio para uma ilha na Sicília, Anna subitamente desaparece sem deixar rastros. Em consequência disto, a amiga de Anna chamada Claudia (a bela e sensual Monica Vitti) sai à procura dela, junto com Sandro, depois que os policiais desistem da busca. Aos poucos, Claudia e Sandro se aproximam e se apaixonam à sombra do sumiço de Anna. Claudia sente-se culpada por envolver-se com o namorado da amiga, então mergulha em melancolia e tédio, tornado-se fria com o passar do tempo. A narrativa do filme é bastante lacunar, pois Antonioni não explica muitos fatos em torno do desaparecimento de Anna e nem é sua preocupação principal. De fato, o  cerne do filme é a relação vazia e alienada dos protagonistas Sandro e Claudia perante o desaparecimento de Anna. Ademais, Antonioni revolucionou o cinema ao enfatizar nesse filme monumental a importância da narrativa como força motriz na realização fílmica.
       O segundo filme da trilogia é “A Noite” (La Notte), que apresenta um casal em meio a uma crise no matrimônio. Nessa perspectiva, Giovanni (Marcello Mastroianni) é um escritor de sucesso que se encontra mergulhado, junto com a esposa frustrada Lidia (interpretada pela cativante Jeanne Moreau), em um excesso de desgosto e melancolia. O clima de complexidade emocional é exalado em cada cena: principalmente quando o casal elitista vai a uma festa na mansão de um industrial. Lá, Giovanni encanta-se pela filha do industrial chamada Valentina (a belíssima Monica Vitti), que parece mais perdida na alta sociedade milanesa que o próprio casal. No bojo da narrativa, o filme narra a degradação de um casamento, onde a instabilidade emocional canaliza as ações do casal à procura de um eixo orientador. Ainda: Antonioni entrelaça os meios industriais com os intelectuais no âmbito da comercialização da arte. De forma sensata, Antonioni expõe a vida moderna que corrompe e arrefece as relações humanas e amorosas devido à busca incessante por um lugar cativo no mundo capitalista, onde os bens de consumo prevalecem frente aos sentimentos. A fotografia em preto e branco salienta as relações “sem cor” dos personagens e a trilha sonora pautada no jazz ressalta o tom dilacerado dos sentimentos do casal. 
            O terceiro filme da trilogia é “O Eclipse” (L’Eclisse), que tem como eixo central a tradutora Vittoria (Monica Vitti) em recuperação após um rompimento amoroso. Quando Vittoria vai visitar sua mãe, em uma bolsa de valores de Roma, conhece um corretor da bolsa chamado Piero (Alain Delon). O romance efêmero entre eles se desenrola sem qualquer ânimo e entusiasmo durante grande parte do filme e parece antepor o desfecho espetacular da película. A atuação de Delon e Vitti é um primor de interpretação e coloca os atores entre os grandes da história do cinema. É assaz encantador todos os momentos do longa, que em suma trazem enfaticamente o leitmotiv de Antonioni: o enfoque em uma narrativa que aprofunda as raízes psicológicas dos personagens.  Com efeito, Antonioni infere sobre as relações amorosas à luz das relações capitalistas, como exalta-as em cenas dentro dos apartamentos burgueses e na bolsa de valores. Em última instância, Antonioni focaliza sobre a impossibilidade da consumação do amor perante as preocupações socioeconômicas que tangem a vida da maioria dos seres humanos. O último filme em preto e branco de Antonioni é um painel preciso sobre o poder da incomunicabilidade e encerra majestosamente a trilogia (na qual a participação de Tonino Guerra nos roteiros é essencial) que se iniciou, de maneira revolucionária, com “A Aventura”.
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