sexta-feira, abril 12

O Conformista e o Cinema Versátil de Bernardo Bertolucci

Por Paulo Dias

“Vou construir uma vida normal.
Vou me casar com uma pequeno-burguesa... Medíocre”

‘’Todos gostariam de ser diferentes mas você,
ao contrário, quer ser igual a todo mundo’’


            Bernardo Bertolucci firmou seu cinema inquietante na década de 1960, com filmes profundamente belos e engenhosos tanto narrativa quanto tecnicamente. Com o filme “Antes da Revolução”, Bertolucci já mostrou para que veio ao mundo do cinema, ao fazer um filme impressionante quando tinha apenas 22 anos de idade. Como adepto da renovação da linguagem cinematográfica, Bertolucci buscava romper com os ditames do cinema standard da época. Procurava tomar como base a influência do revolucionário Jean-Luc Godard, que Bertolucci considerava como mestre.
            Bertolucci mostrou-se um diretor e roteirista inventivo desde da sua estreia em 1962 em longas-metragens. Seus roteiros primam em excelência narrativa e muitas vezes  são baseados em romances e contos de autores do quilate de Stendhal a Jorge Luis Borges. O cineasta italiano transpôs várias obras literárias para as telas com um toque pessoal, focando as histórias para a realidade sociopolítico de seu país natal. De forma incisiva, Bertolucci construiu sua reputação de cineasta versátil partindo de filmes com caráter político para filmes mais intimistas na atualidade.
            Na carreira estupenda de Bernardo Bertolucci, há os principais filmes: “Antes da Revolução” (1964), “A Estratégia da Aranha” (1970) (baseado em um conto do livro “Ficções” de Jorge Luis Borges), “O Último Tango em Paris” (1972), “1900” (1976), “O Último Imperador” (1987) (ganhador de nove prêmios Oscar incluindo melhor filme e melhor diretor) e “Os Sonhadores” (2003). Seus filmes despontam como obras desconcertantes e instigantes, abrangendo filmes com abordagens políticas e com clima erótico/escatológico. Por certo, Bertolucci – em sua época de maior criatividade – realizou obras maduras e impactantes, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, com alto teor técnico.
                A obra-prima “O Conformista” de Bertolucci tem como eixo principal um jovem simpatizante do governo fascista de Benito Mussolini chamado  Marcello Clerici, que entra para o serviço secreto italiano na década de 1930. Ao casar-se com uma pequena burguesa, parte para a lua de mel com o objetivo expresso de assassinar seu ex-professor universitário de filosofia, que é membro do movimento antifascista. Ao aproximar-se do ex-professor, Marcello apaixona-se pela linda e sedutora esposa do seu alvo. O espetacular Jean-Louis Trintignant (trabalhou recentemente em “Amor” de Haneke) faz o papel do protagonista Marcello, que é atormentado por memórias nebulosas da infância. De maneira lúcida, Bertolucci utiliza intermitentemente flashbacks e torna a narrativa não linear um labirinto, onde o protagonista busca incessantemente adaptar-se a um mundo desordenado. A fotografia aliciante de Vitorio Storaro é um convite para adentrar no passado vertiginoso de Marcello. Cada quadro expressa o complexo perfil do personagem  principal, que deixa-se iludir pela política fascista do ditador Mussolini e que procura escrupulosamente obter uma vida burguesa e normal. Ademais, o filme (baseado de maneira superficial na obra homônima do escritor italiano Alberto Moravia) instiga-nos a refletir sobre nossas convicções políticas e sociais, que podem infalivelmente nos conduzir para rumos tortuosos na sociedade. Querer se conformar com a realidade vigente é uma forma de morrer em silêncio.
Cena

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