sexta-feira, abril 5

O Bandido da Luz Vermelha e o Cinema Fora-da-Lei de Rogério Sganzerla

Por Paulo Dias

“Fiz o Bandido da Luz Vermelha porque todos os cineastas 
que admiro fizeram filmes policiais, mas no meio do projeto 
percebi que não poderia parar, que tinha de incorporar outros estilos 
sem sair da poesia noturna do policial classe B, para procurar 
a verdade nos espaços externos do western, nos interiores pobres
 da chanchada, na estilização musical”
(Rogério Sganzerla)
            O cineasta catarinense Rogério Sganzerla é um dos expoentes do Cinema Marginal Brasileiro nas décadas de 1960 e 1970. Como porta-voz do Cinema Marginal junto com Júlio Bressane e Andrea Tonacci, Sganzerla propôs filmes onde a realidade era permeada de indivíduos às margens da sociedade como bandidos e prostitutas, retratando-os de maneira soberba. Tido como um precoce revolucionário, o diretor e roteirista da Boca do Lixo tinha como maior influência o cineasta estadunidense Orson Welles - autor de um dos maiores filmes de todos os tempos: “Cidadão Kane”.
            Sganzerla utilizava muitos elementos inovadores à época no Brasil em seu cinema (para ser mais preciso: anticinema) como cortes rápidos, montagem não ortodoxa e ritmo alucinado. Seus roteiros tinham um grande teor de histórias em quadrinho e capturavam o clima agitado do final dos anos 1960. Em face de sua estética revolucionária, o diretor brasileiro realizava a fusão de variados gêneros, desde faroeste até documentário; essa fusão funcionava como um rito de colagem experimental à maneira dos dadaístas. Como exposto em seu manifesto, trazia para seus filmes as influências do cinema de Jean-Luc Godard, Glauber Rocha, Samuel Fuller e Orson Welles (em maior profundidade, como já citado).
            Os principais filmes de Sganzerla são: “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), “A Mulher de Todos” (1969), “Copacabana Mon Amour” (1970) e “Sem Essa Aranha” (1970). Os filmes de Sganzerla são retratos alucinados onde personagens convulsos trafegam em um mundo sem sonhos e promessas. São quadros pessoais de um diretor multifacetado que objetivava abarcar em um mesmo filme todos os filmes.  Noutras palavras, o diretor “dadaísta” brasileiro  - à maneira do escritor John dos Passos, que usava colagens de notícias de jornais e biografias em seus romances (vide “Paralelo 42”) – colava vários gêneros cinematográficos em um único longa-metragem, com o intuito de obter um resultado misto com a face do Brasil.
            A obra-prima de Sganzerla é o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, que foi feito quando o mesmo tinha apenas 22 anos de idade. O filme gira em torno do bandido apelidado pela mídia como Luz Vermelha, pois o assaltante de mansões utilizava uma lanterna de luz vermelha em seus crimes. Baseado em parte na vida do bandido Luiz Acácio, que aterrorizou  a cidade de São Paulo na década de 1960, Sganzerla tem o pano de fundo para destilar toda sua arte peculiar pautada no cinema de invenção. No elenco, o ator Paulo Villaça (em uma interpretação inesquecível) encarna o papel do bandido e a bela Helena Ignez (a musa do Cinema Marginal) faz o papel de uma prostituta. Sobretudo, o filme mostra a relação da mídia sensacionalista com o criminoso, de forma até pioneira antes do advento dos filmes “Assassinos por Natureza” de Oliver Stone e “Aconteceu Perto da sua Casa”. De forma primorosa, o “faroeste do terceiro mundo” explora os meios de comunicação de massas (painéis luminosos, rádio e TV) e torna-se assim uma simbiose  de vários recursos audiovisuais. Podemos afirmar: o filme de Sganzerla representa uma oposição aos filmes do Cinema Novo Brasileiro, contudo se serve de alguns elementos do movimento encabeçado pelo grande Glauber Rocha. Indubitavelmente, “O Bandido da Luz Vermelha” é um dos maiores monumentos cinematográficos do Cinema Brasileiro.
Cena do Filme

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