sexta-feira, março 8

Veludo Azul e o Cinema Surrealista de David Lynch

Por Paulo Dias

“É um mundo estranho, não é?”

"Adoro o mistério e o desconhecido. Gosto de entrar em um mundo 
e não saber o que vem pela frente. Gosto do apagar das luzes, 
quando sobe o pano e entramos em um mundo novo"
(David Lynch)
                David Lynch é um dos grandes realizadores de cinema da história desde sua estreia em 1977, em longas metragens, com “Eraserhead”. Com filmes enigmaticamente instigantes e carregados de surrealismo profundo, Lynch desponta como um dos diretores-roteirista mais inventivos no cenário cinematográfico estadunidense. Pode-se afirmar que provavelmente foi influenciado por filmes surrealistas como: “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919), “Um Cão Andaluz” (1928), “A Idade do Ouro” (1930) – os dois últimos de Luís Buñuel . Não é de se espantar que a pintura surrealista (vide os quadros de René Magritte e Salvador Dalí) também tenha influência na carreira de Lynch, pois o próprio Lynch é um artista plástico.
            Em uma carreira recheada de grandes clássicos, Lynch firmou-se como um cineasta por excelência excêntrico para alguns e gênio para outros. De qualquer maneira, Lynch – ao fim e ao cabo mesmo às expensas de delatores – conseguiu consolidar-se durante o decorrer dos anos como um autor inovador e provocativo. Às avessas do mainstream, o diretor de “Twin Peaks” arduamente fincou uma arte peculiar no mundo do cinema, onde muitas vezes o lucro é objetivado sem qualquer pudor.
            Os filmes monumentais de Lynch (“Eraserhead” (1976), “O Homem Elefante” (1980), “Veludo Azul” (1986), “Coração Selvagem” (1990), “Estrada Perdida” (1997), “Mulholland Drive” (2001), “Império dos Sonhos” (2006)) são retratos conscientes de um cineasta que tenta capturar na câmera a imensidão surreal e onírica da vida. Lynch parece lançar o espectador dentro de um “buraco de minhoca”, transportando-o para um universo bizarro. O diretor estadunidense tem como meta: agregar o estranho e o belo, para compor um cenário tonalizado por sonhos e angústias de um mundo – deveras – estranho. Os versos do poeta mexicano Octavio Paz simbolizam o clima onírico dos filmes de Lynch:
“Estava eu emparedado dentro de um sonho,
seus muros não tinham consistência
nem peso: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas e as horas
fixo e acumulado pesar.
O tempo dessas horas não era tempo”*.
            O extraordinário “Veludo Azul” (Blue Velvet) passa-se em uma pacata cidade que esconde grandes mistérios. Todo o horror começa a ser revelado quando um jovem personagem (Kyle MacLachlan) sai em investigação após a descoberta de uma orelha em um terreno baldio. A partir disso, somos lançados em um mundo horripilante e enigmático, onde a perversão e a violência dão as cartas. Na trama diegética de Lynch, a realidade oculta mais do que supomos e cada quadro nos remete a um humor negro perturbador. Um filme atemporal com uma atmosfera noir surrealista, apresentando atuações estupendas, principalmente Dennis Hopper no papel de um maníaco idiossincrático e Isabella Rosselini no papel de uma cantora de cabaré. A estupenda trilha sonora de Angelo Badalamenti harmoniza-se com o mundo estranho exposto em pinceladas por Lynch.
*Tradução de Antônio Moura do poema “Despertar"
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