terça-feira, março 12

Ode Para Charles Baudelaire



I
O albatroz voa com asas abertas sobre a enseada
E ao longe as ondas vêm desmaiar na areia
Depois de uma longa jornada percorrendo o mar
A ave marinha abraça o ar ao seu redor
Como uma mãe com saudades de suas crias
Corta os ares feito uma navalha pela pele adentro
Passa junto com as nuvens brancas passageiras
Assim é o poeta seguindo insano no vendaval
Procurando cordilheiras de versos para galgar
Ó príncipe da altura! Teus versos conheceram céus plácidos
E cantastes a musa em putrefação no seu leito
Já com os vermes satisfeitos no seu corpo moreno
O mórbido e o grotesco a ti eram companheiros
Quando vagavas pelas noites mortas sem lua
E o ópio e o haxixe levaram-te a paraísos artificiais
Onde navegavas a imensidão dos abismos profundos
Com destreza e idolatrando o anjo decaído do céu
Muitos versos foram escritos para o príncipe do Mal
Parecia que conhecias em intimidade tal criatura
Como se o inferno fosse para ti feito um santuário
Onde flores em agonia exalam um perfume exótico
II
À sombra de um cipreste repousa um cadáver malsão
Os punhais do sol não o atingem em sua face lúgubre
Agora os sinos rachados começam seus gemidos
E ouve-se um cântico suave vindo do infinito
Como um remorso póstumo de um vampiro vil
Que chora o sangue derramado e o espelho
Que não reflete sua imagem há tantos séculos
Espero a aurora espiritual que tarda a chegar
Pois minh’alma se elevará a domínios desconhecidos
Como uma serpente que dança ao ouvir uma flauta
Nada me fará esquecer a contemplação suprema
Que meus olhos viram ao ler as Flores do Mal
Tanta inspiração em versos esculpidos com ardor
Veementemente polidos como uma jóia rara
E banhados no Letes que escorre nos lábios
Da musa venal que desperta ao desatar dos ventos
Até as estrelas cegaram ao verem esses poemas!
III
Cortejos funerários desfilaram por tua alma
Quando a chuva caía em imensas cordas
E o céu cinzento te agradava demasiadamente
E em frêmitos teu coração pulsava insolente
Ouvindo os sinos despertos badalando fúnebres
Os cânticos dos entes que choram pelo que perderam
Tu vagavas, ó poeta supremo, como uma bela nau
Por oceanos lívidos buscando ondas e redemoinhos
Ó feiticeiro das palavras! Embriaga-me com teus versos
Pois a alma do vinho ainda canta nas garrafas
Que tantas vezes beijastes as bocas sentindo o doce líquido
Teus lábios ficaram vermelhos esperando outro gole
E tu te saciavas como assassino num crime atroz
E como um revolucionário transformastes as letras
Todavia a moral dos bons costumes queria te condenar
Alguns poemas foram proibidos, contudo o tempo
Revelou o magistral e supremo poeta que eras
E alguns logo compreenderam a majestade
De teus versos cheios de símbolos e de sons
E tua influência se fez presente como uma catedral
IV
Os morcegos tecem seus vôos no véu escuro da noite
Rasgam o ar fremente com suas asas tenebrosas
Vão serpenteantes desviando-se dos obstáculos
São como poetas escondidos em suas cavernas
Compondo o drama que se insinua à luz do sol
Seguem desdenhosos no silêncio triste e orvalhado
Também o poeta com seu coração inquieto e lasso
Como um rio torto a desaguar num oceano
Segue vacilante com asas de gigante para a cama
Que o aguarda feito um punhal em perpétua calma
Para lhe atingir o peito soberbo e austero
Dentro de si jaz uma floresta a penetrar
Com seus regaços e com suas árvores frondosas
E há debalde um deserto cândido a percorrer
Com suas miragens e seus lagos invisíveis
Tu me mostrastes, ó maldito poeta, a lei suprema
Que rege a vida que avança por dias infames
Quando a primavera já perdeu o cheiro de flor
Glória e louvor aos teus versos nas amplidões do céu
Ó poeta! Quando a avalanche levou-te em sua queda abrupta? 

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