sexta-feira, março 1

Mistérios & Paixões e o Cinema Biotecnológico de David Cronenberg



“Chamam-me Dedetizador. Num período de desvio,
tive realmente essa função, e presenciei a dança do ventre
 das baratas que se afogavam no pó de píreto amarelo”
(Trecho de “Naked Lunch” de William S. Burroughs)

                O cineasta canadense David Cronenberg solidificou sua carreira nas décadas de 1980 e 1990. Suas obras de arte cinematográfica revelam sua formação em literatura, e seus interesses em biologia, psicologia e cultura de massa. Cronenberg entrelaça biotecnologia a elementos literários em seus filmes que causam um forte impacto tanto no âmbito audiovisual quanto nas narrativas anacrônicas. Aliás, Cronenberg não objetiva chocar os telespectadores com imagens dúbias e bizarras, ao  contrário, tenciona trazer à tona a simbiose entre as novas tecnologias e o ser humano. De fato, o diretor e roteirista pontua em seus intrépidos filmes a relação às vezes não harmoniosa da sociedade com os avanços da tecnologia.
                No cinema cronenberguiano, é imprescindível o matrimônio entre os elementos tecnológicos, por exemplo a televisão, e a sociedade moderna. Em “Videodrome”, esse matrimônio mostra-se explicitamente por meio da relação sado-masoquista do homem com o aparelho de TV, onde “a tela da TV é a retina da mente”. Cronenberg trabalha com uma emoção primária do ser humano: o medo do desconhecido. Como o escritor H. P. Lovecraft, o cineasta canadense aflora sensações múltiplas nos telespectadores, levando-os a questionar o mundo que os rodeia e transportando-os para regiões dissolutas. Vale ressaltar que Cronenberg procura demonstrar o quanto a ciência pode transformar a vida das pessoas para o bem ou para o mal.  
                Cronenberg tem monumentos cinematográficos como: “A mosca”, “Scanner: sua mente pode destruir”, “ Videodrome: a síndrome do vídeo”, “Gêmeos – mórbida semelhança”, “Crash – estranhos prazeres”, “eXistenZ”, “Spider: desafie sua mente”. Esses são os filmes mais cultuados de Cronenberg, que despertam as portas da percepção de qualquer indivíduo. Seus filmes abrem uma fenda no espaço-tempo para um mundo bizarro e enigmático, onde o fetiche sexual por automóveis e a hibridização do homem-máquina fundem-se para compor um panorama ultrarrealista. Assistir a um filme de Cronenberg é um ato de despertar sensorial, é um ato para a efusão vulcânica dos sentidos.
                O sensacional “Mistérios e Paixões” (Naked Lunch, 1991) baseia-se em aspectos da vida e nos livros, entre eles o seminal “Almoço Nu” (um livro altamente lisérgico e experimental, para mim, quase impossível de transpor para a tela), de William S. Burroughs. O filme traz Peter Weller no papel de um exterminador de insetos e  escritor aspirante. Sua esposa (interpretada por Judy Davis) é viciada no pó de dedetização e isso pode levá-lo a perder o modesto emprego. Ela o faz experimentar a substância inseticida e logo começa as viagens alucinógenas. Ao matar a esposa acidentalmente à maneira de Guilherme Tell, o exterminador foge para um país (ou cidade) fictício chamado Interzone, onde ele é cooptado como espião em uma conspiração paranoica. Máquinas de escrever transformam-se em insetos e conversam com o exterminador/escritor. O filme transita em regiões imaginárias e mistura ficção com passagens da vida do escritor beatnik. Cronenberg realiza uma obra totalmente perturbadora e inquietante, onde o real entra em conflito com alienações e metamorfoses kafkianas. Em termos gerais: o filme tem uma certa essência noir e a trilha sonora de Howard Shore sintetiza a atmosfera alucinante das viagens de Burroughs. Quanto ao título “Mistérios e Paixões” do filme no Brasil, eu concordo literalmente, pois evita-se a tradução do título original ao pé da letra que remete ao livro “Naked Lunch” de Burroughs,  totalmente diferente do filme de Cronenberg, visto que o mesmo não é uma adaptação direta do livro.
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