sexta-feira, março 15

Febre do Rato e o Cinema Anárquico de Cláudio Assis

Por Paulo Dias

“Até a anarquia precisa de tradição”
                O cinema pernambucano tem despontado no cenário brasileiro com filmes sublimes e em sintonia com os problemas sociopolíticos do País. O foco atual sobre os cineastas pernambucanos (principalmente Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Kleber  Mendonça Filho) é  sinônimo de que a produção cinematográfica de “Hellcife” cresce em quantidade e qualidade. As produções com pouco orçamento e resultado excepcional oferecem uma opção para o público brasileiro carente em filmes artísticos originais.
            Cláudio Assis, desde sua estreia em 2002 em longas-metragens, tem nadado contra a corrente. Seus filmes revelam a realidade crua e marginal da sociedade brasileira, focando esteticamente o Nordeste despido da maquiagem social, que oculta a verdadeira face do Brasil. Sem qualquer pudor, Assis dispara aleatoriamente sua metralhadora envenenada, mirando nas instituições sociais como a Igreja e a Família. As cenas de seus anacrônicos filmes são carregadas de nus frontais e palavrões, com o intuito de espantar moralistas de plantão. Sem dúvida, Cláudio Assis é o anarquista do cinema brasileiro.
            Na curta carreira do diretor e roteirista pernambucano, há os filmes: “Amarelo Manga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), “Febre do Rato” (2012). Matheus Nachtergaele é o ator preferido de Assis e está presente nos seus três filmes. Dira Paes marca presença em dois filmes. O núcleo criativo, no que tange ao elenco, é bem concretizado nos filmes de Assis e desenvolve-se naturalmente em suas tramas marginais. Uma ressalva a fazer é que o cineasta anárquico de Pernambuco busca referências no cinema marginal brasileiro das décadas de 1960 e 1970 (vide filmes como “O Bandido da Luz Vermelha” e “O Anjo Nasceu”). É evidente: Assis explora a vida marginalizada dos personagens para tecer uma moldura crítica da sociedade contemporânea brasileira, onde trafegam bandidos, prostitutas e toda uma gama de seres do submundo.
            Um exemplo típico do cinema anárquico de Assis: “Febre do Rato” é o terceiro longa-metragem de Cláudio Assis. A espinha dorsal do filme é o poeta anárquico Zizo (interpretado visceral e magistralmente por Irandhir Santos), que edita um jornal subversivo. Zizo distribui o jornal pela periferia de Recife e sai pelas ruas da cidade em um carro velho com alto-falantes a declamar seus poemas. O poeta tem como amigo um coveiro chamado Pazinha (interpretado por Matheus Nachtergaele), que tem um relacionamento tumultuado com um travesti. Com suas atitudes idiossincráticas, o rebelde poeta relaciona-se sexualmente com mulheres maduras; entretanto, tudo muda quando ele conhece a jovem estudante Eneida (a bela Nanda Costa). Seu mundo desregrado sofre uma transformação devido ao amor não correspondido. A cena quando Eneida urina na mão do poeta é de uma beleza plástica descomunal na história do cinema brasileiro. As câmeras no teto capturam as cenas de sexo grupal com outro olhar e parece que Assis interessa-se pelas periferias e palafitas (mocambos nos mangues de Recife), mostrando a miséria humana em territórios além das pompas do capitalismo. A fotografia em preto e branco de Walter Carvalho remete aos filmes marginais e a trilha sonora de Jorge Du Peixe entra em sintonia com as cenas arrebatadoras de afronta e provocação. Em suma: um belíssimo filme em homenagem à poesia marginal. 
Trailer

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