sexta-feira, março 22

Contos da Lua Vaga e o Cinema Genial de Kenji Mizoguchi



Por Paulo Dias
"Após cada plano é preciso 'lavar' o olhar"
(Kenji Mizoguchi)

            Kenji Mizoguchi (1898-1956) é, ao lado de Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu, um  dos maiores cineastas do Japão (quiçá do Mundo) e representante do cinema clássico nipônico. Dono de uma técnica cinematográfica e poder dramático extraordinários, Mizoguchi é um perfeccionista nato na arte de elaborar filmes cadentes e de alta profundidade lírica. Os filmes de Mizoguchi dilatam os sentimentos mais extasiantes nos espectadores, que se veem obrigados a mergulhar na beleza poética que exala do écran em quadros minuciosamente adornados.
            A arte cinematográfica de Mizoguchi foi forjada na captura de um realismo sobrepujante de dramaticidade e que evoca temas universais como ambição e vaidade – assim como Dostoiévski em seus principais romances (vide “O Idiota” e “Crime e Castigo”). Impressiona o fato que Mizoguchi retira as melhores performances dos atores como nenhum outro diretor, forçando-os a transmitir emoções puras e verdadeiras, pois para o cineasta japonês o papel do ator era dar o melhor de si a todo instante sem deixar qualquer espaço para falhas de interpretação. É preciso ainda salientar: mulheres fazem um papel proeminente em seus filmes antológicos e são retratadas com personalidades centradas. Mizoguchi tinha interesse expresso em focar a condição da mulher na sociedade japonesa.
            Na carreira do genial diretor nipônico, há as obras-primas do cinema mundial: “O Intendente Sansho”, “Crisântemos Tardios”, “Os Amantes Crucificados”, “Contos da Lua Vaga”. Estes filmes de Mizoguchi são de uma beleza extrema e de um vigor impressionante. São obras de um gênio que não aceitava o medíocre nem o banal. Mizoguchi é um caso raro de cineasta preocupado com os sentimentos e desejos dos espectadores e, de maneira peculiar, sabia esteticamente tocar no fundo da alma. Sobretudo, o cinema de Mizoguchi é o tipo de cinema que não se vê há tempos, onde falta compromisso e lealdade entre os criadores atuais; onde a preocupação máxima não é com a atuação dos atores (salvo algumas exceções), mas com a futura bilheteria em primeiro lugar.
            Como uma pequena fatia da arte de Mizoguchi, o filme “Contos da Lua Vaga” (Ugetsu Monogatari, 1953) representa uma obra monumental (para não dizer genial como o diretor), que despertou o ocidente para os filmes realizados por Mizoguchi. Baseado nos contos de Ueda Akinari, o filme pauta-se na vida de dois casais oleiros que vivem no Japão feudal do século XVI. Enquanto um dos maridos deseja ser um samurai, o outro (Genjurô) preocupa-se no sucesso a partir da venda de seus vasos de cerâmica. As esposas firmes e sensatas só almejam uma vida de tranquilidade, junto aos maridos imersos em delírios de grandeza. A ambição desmedida destes será uma triste constatação de que a busca insensata por fortuna e sucesso é a porta larga para o fracasso. O tom fantástico do filme começa quando Genjurô conhece e é seduzido/enfeitiçado por Lady Wakasa (um espírito solitário à procura de amor), indo morar com ela em um castelo majestoso. A cena belíssima quando os casais atravessam a barco um rio em meio à neblina parece o portal para um mundo dominado por fantasmas. Decerto, Mizoguchi entrelaça o real e o fantástico como o escritor argentino Jorge Luis Borges, objetivando compor uma atmosfera densa onde os dramas vívidos tornam-se artefatos concretos da vida. Vale destacar a fotografia em preto e branco de Kazuo Miyagawa, que realça o clima fantástico e fantasmagórico do filme; além da câmera em planos longos e em travelling lento nos cenários, abarcando as aflições e os sofrimentos dos personagens.
Trailer

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