terça-feira, fevereiro 26

Ode Para Nauro Machado

Por Paulo Dias

I
Na carnificina do verbo as palavras sangram
Lentamente no papel já manchado pelo tempo
E as rimas dançam lépidas no palco da Beleza
Ao som das tempestades que brotam na alvorada
Encontro jazidas nos versos tão bem lapidados
E vejo tanta exuberância irradiando das páginas
Das páginas d’ouro que olhos turvos cegam
Ó poeta! O fogo que me consome mora na tua alma
A exalar a Poesia dos meus dias enfadonhos
Então procuro em vão alguma lembrança a vagar
Pelo espaço preenchido com o aroma das rosas
Já me prostrei diante do altar luxuoso
E pergunto-me: o que hei de encontrar na relva
Das letras que desabrocham ao primeiro olhar?
Serão sonetos esculpidos no mármore da dor
Ou forjados a sangue e lágrimas como um alforje?
Ó poeta hercúleo das terras bravias do Maranhão
Revela-me o segredo do teu talhar laborioso!
II
Sigo ainda no mundo atroz e enervante
À procura dos anjos do esquecimento
Entro em catedrais construídas com ossos
E ouço o canto singelo do bardo ébrio
Petrifico-me diante de melodias tão sensuais
Minh’alma já perdeu-se nos confins espúrios
Como beijo frêmito em lábios leprosos
Agora sonho com o ouro noturno derramado
Na noite ambulatória que se despe ao luar
Ó nau romana nos mares da Galícia
Os ventos murmuram teu nome pelos ares
E teus símbolos incandescentes me embriagam
As tardes cinzas não serão mais as mesmas
Nem as manhãs orvalhadas de esperma e pus
Ó Canto maldito vestido em túnica de ecos
Ficam as cicatrizes fincadas na pele d’alma
E o perfume de um verso nas noites de São Luís
III
É no silêncio que me encontro que mergulho
No infinito profundo do horizonte do mar
É nas veleidades dos velórios que permaneço
Como uma criança assustada na escuridão
Contemplo a vida com os olhos cerrados
E procuro no véu da noite um pensamento
Que poderá iluminar meu caminho tortuoso
Por que a solidão se espalha como nevoeiro?
Tento ver mais adiante sequer uma luz fosca
Só tua Poesia sublime me faz velejar no sonho
Das auroras que resplandecem com os orvalhos
Ó notívago venha acender meu candeeiro
Para que eu vislumbre a eterna estrela
Quero teus sonetos repletos de pura metafísica
Onde o Belo se faz real no funil de meu ser
Quero mergulhar no teu verbo majestoso
E nas dragas da memória seguir pelo rio Anil
Enfim fazer-me bruto na latência das vaginas  
IV
Quando te vi pela primeira vez na Praia Grande
Deixando atrás dos teus passos um rastro de estrelas
Ao longe pensei: este é o solitário poeta maranhense
Que cavalga como Dom Quixote pelos sonhos
O ser em mim ficou esfacelado no espaço-tempo
No exílio de minha carne minh’alma chorou
Como velas próximas a crucifixos em velórios
Ó poeta teu ser telúrico repousa nos sobrados
Voa sobre os telhados carcomidos pelo tempo
Ainda quero ouvir tuas canções mínimas
Alastrando-se por todas as ruas e becos da cidade
O certo é que um espaço na Poesia Brasileira
Já ocupas e no vazio do meu ser submisso
Ocupas o espaço que é teu e de mais ninguém
És poeta solidificado na essência das coisas
Nas mutiladas manhãs nas manhãs decapitadas
Nos infernos nossos de cada dia amém
Ó poeta! O mundo é triste bronze de um sino rachado?

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