sexta-feira, fevereiro 1

O Império dos Sentidos e o Adeus ao Grande Mestre

Por Paulo Dias
O sexo e a morte - a porta da frente e a porta de trás do mundo

(William Faulkner)
                O cineasta japonês Nagisa Oshima faleceu, recentemente no dia 15 de Janeiro, aos oitenta anos na cidade de Fujisawa no Japão, deixando uma lacuna no coração de muitos cinéfilos e amantes da sétima arte. O polêmico e rebelde diretor de “Cerimônia Solene” deixou uma filmografia exemplar no mundo do cinema. Apesar das inúmeras controvérsias a seu respeito, Oshima tem em seu mostruário cinematográfico peças raras, que exibem engajamento político, críticas à sociedade burguesa e ataques à moralidade cristã. Participou, efetivamente, do movimento de renovação do cinema nipônico na década de 1960 – influenciado pelos filmes da “Nouvelle Vague”. Com espírito anárquico, Oshima desencadeou severas críticas ao cinema tradicional e conservador  japonês, e promulgou a liberdade criativa em seus textos ácidos sobre cinema.
            É notável, a cosmovisão de Oshima no que tange aos temas abordados em seus filmes marcantes da fase política. Decerto, sua formação em Direito e o interesse perscrutador em política de esquerda e literatura expandiu seu horizonte cinematográfico. Em essência, sua rebeldia já derivava da participação no movimento estudantil quando jovem ingresso na universidade, dando azo para seus questionamentos futuros na grande tela. De forte teor sociopolítico, os filmes “O Enforcamento” e “Noite e Neblina no Japão” abordaram, na época, questões sociais nada simpatizantes para as autoridades japonesas. Concomitantemente, desentendeu-se com o estúdio e com outros diretores japoneses. Era um verdadeiro enfant terrible do cinema do país do sol nascente. Não seria por outro motivo que até o final da vida, uma vez ou outra, era imerso em controvérsias: certa vez alegou que Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa serviram apenas como degraus para o desenvolvimento de seu cinema.
            A partir de certo momento, Oshima voltou-se para o cinema de teor sexual. Essa guinada inusitada representou reconhecimento internacional em seu carreira. No seu currículo testamentário, há pérolas nessa fase como: “O Império da Paixão” (1978), “Furyo - em Nome da Honra” (1983), “Max, meu Amor” (1986) e “Tabu” (1999) – seu último e premiado filme no qual realizou já bastante debilitado. Na verdade, Oshima realizou seus legados, entre a linha tênue dos filmes de arte com os eróticos. De fato, o filme principal de sua carreira, que causou um abalo sísmico ao redor do mundo, foi “O Império dos Sentidos” de 1976.
            O erótico “O Império dos Sentidos” escandalizou meio mundo com suas cenas fortes e picantes de sexo explícito. O filme foi banido do Festival de Nova York, mas ganhou culto e reverência no Festival de Cannes. Entranhado em cenas pujantes, o filme é baseado em uma história verídica, que ocorreu em 1936 no Japão, de uma ex-prostituta que mata o amante e decepa seu membro sexual após um estrangulamento consentido. Ela é tomada por uma paixão obsessiva pelo senhorio, um homem casado, dono de uma propriedade, na qual é contratada como empregada doméstica. Gradativamente, a relação entre os dois descamba para sexo frequente e interminável com direito à felação, sadomasoquismo selvagem, voyeurismo, orgias e até um ovo cozido é introduzido na vagina da protagonista. De forma célere, o filme tour de force de Oshima (com seus enquadramentos excruciantes e uso constante da cor vermelha) destaca, em espaços claustrofóbicos, a relação megalomaníaca e extremamente ciumenta da protagonista pelo patrão. No epicentro do abalo, as cenas expressam o caráter trágico da paixão tórrida e doentia dos protagonistas tal como os personagens de “A Vênus das Peles” de Leopold von Sacher-Masoch em busca por prazer e dor. Oshima mostra, de maneira idônea e com precisão focal, o resultado trágico dessa relação insana que gerou escândalo na década de 1930 e 40 anos depois, quando transposta para a tela, provocou um verdadeiro escarcéu no Japão e na sociedade judaico-cristão pelo mundo, resultando na proibição do filme em vários países. Junto com “O Último Tango em Paris” de Bernardo Bertulucci, o filme de Oshima é considerado um dos mais eróticos já realizados. Talvez, seja o maior. Adeus, Nagisa Oshima. 
Trailer

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