terça-feira, fevereiro 19

Memórias Que Não Podem Ser Esquecidas

Por Paulo Dias

“Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?”

(Caetano Veloso)


Flávio Tavares, em “Memórias do Esquecimento” de 1999, relata fielmente seus anos de militância contra a ditadura militar no Brasil, com prisão e tortura descritos torrencialmente com afinco e desespero, no mesmo plano de “Memórias do Cárcere” do escritor Graciliano Ramos – preso na era Vargas por suas inclinações comunistas. É um testemunho doloroso sobre os anos de repressão, encarceramento desumano e prisões arbitrárias, à maneira descrita por Franz Kafka no livro “O Processo”, sem qualquer razão e justificativa. O livro de Tavares pauta-se em uma narrativa não-linear, onde há avanços e recuos temporais à medida em que Tavares expõe o momento de instabilidade política que o Brasil vivia nos tempos da presidência de João Goulart até o golpe militar, que instalou a ferrenha ditadura entre 1964 e 1985. 

O jornalista e professor universitário Flávio Tavares engajou-se na luta e resistência contra a ditadura na década de 1960, motivado espiritual e ativamente pelo revolucionário Ernesto Che Guevara, que era “capaz de renunciar a tudo e lutar”. Tavares conheceu Che em Puenta del Leste no Uruguai em 1961 quando tinha 27 anos e era um jornalista encarregado de cobrir a Conferência Econômica e Social da OEA (Organização dos Estados Americanos). Lá, vislumbrou-se com a figura mítica do grande revolucionário e a partir de então sonhou e lutou, à sombra do terror político, por uma sociedade igualitária.

Ideologicamente cristão, o jornalista adentrou à luta armada motivado por uma reação moral e após algumas prisões. A primeira prisão ocorreu quando era colunista político do Jornal “Última Hora”. Posteriormente, foi demitido da Faculdade de Comunicação de Massas da UnB (Universidade de Brasília), quando lecionava a disciplina “História da Imprensa e da Opinião Pública”, devido ao fato de ter sugerido aos alunos várias leituras, dentre as quais “Que Fazer” de Lenin e “Mein Kampf” de Hitler, com o simples objetivo de fazê-los entender a formação da opinião pública. A segunda prisão ocorreu pelo fato de possuir uma biblioteca com livros de propaganda comunista e um livro com a capa estampando explicitamente o símbolo da foice e martelo. Na verdade, foi preso mesmo por conspirar em favor da guerrilha no episódio do foco guerrilheiro em Uberlândia; o grupo era supostamente liderado pelo Dr. Falcão (o próprio Flávio Tavares que atuava na região do Distrito Federal), pois indicou um instrutor militar-revolucionário para treinar o grupo subversivo do Triângulo Mineiro. Tavares fez parte do grupo MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário). Participou de um regaste audacioso, na Penitenciária Lemos de Brito, de presos políticos: ex-marinheiros que foram expulsos da incorporação por serem simpatizantes da esquerda. A terceira prisão ocorreu em 1969 mediante a consequência da operação de guerrilha urbana do grupo, que ocasionou um tiroteio na Avenida Brasil no Rio. Foi preso no dia seguinte à operação por meio de um “dedo-duro”.

As descrições das torturas por choque, espancamento e interrogatórios intermináveis, relatados por Flávio Tavares após a terceira prisão, são de estremecer qualquer indivíduo a ponto de provocar tonturas e ânsia de vômito. São atos ultrajantes e bárbaros praticados nos porões da ditadura nos ditos subversivos – militantes de esquerda e opositores políticos. Não importando sexo ou idade, os “paranoicos” à caça de comunistas realizavam minuciosamente os ensinamentos de tortura do exército dos Estados Unidos, à base do “Dr. Volts”, contra o terror vermelho. Durante sua jornada de militância, as múltiplas mortes ao seu corpo e à sua alma, tanto no Brasil como no Uruguai, dilaceram seu espírito. Tavares rememora seus contatos com Leonel Brizola e Carlos Marighella. Em um certo capítulo, narra o episódio em que Marighella empurrou um carro com a ajuda de um policial de trânsito. Naquela época, Marighella era o homem mais procurado do Brasil. Marighella foi político do PC do B (Partido Comunista de Brasil) e autor do “Manual de Guerrilha Urbana”, que veio a ser adotado pelo grupo alemão Baader-Meinhof.

Um dos pontos essenciais do livro é o episódio do sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick (retratado no filme “O que é isso, companheiro?” de 1997). O resgate do embaixador ocasionou a soltura de Flávio Tavares junto com 14 presos políticos entre eles: Gregório Bezerra (o mais antigo preso político) e José Dirceu (líder estudantil na época) . O grupo trocado pelo embaixador foi enviado para o exílio no México no avião Hércules 56 da FAB (vide o documentário “Hércules 56” de 2006). Há uma foto famosa do grupo de presos políticos, em pé e agachados, mostrando as algemas na frente do avião. Fizeram questão de mostrar as algemas para caracterizar que não eram presos comuns, mas indivíduos que lutaram para libertar a pátria do jugo da tirania.

O sequestro ocorrido em 1977 no Uruguai, quando Tavares era jornalista correspondente vivendo na Argentina, é outro episódio horripilante no relato de suas memórias traumáticas. Viveu no cárcere uruguaio constantemente vendado e algemado, até fora içado por uma roldana. Os fuzilamentos simulados marcaram sua vida. Ficou desaparecido durante trinta dias e preso, seis meses. Novamente, estava nas mãos de outro regime militar. Novamente, conheceu a tortura e a sensação iminente de morte. Tavares afirma no texto: eu fui executado em terra alheia e morri. Só no ano de 1979, devido à anistia, retornou à pátria querida.

“Memórias do Esquecimento” é um livro que emociona, principalmente quando Tavares busca forças nas profundezas do ser dilacerado para não deixar apagar a luz da utopia: um mundo mais igualitário e fraterno. É uma leitura marcante sobre os anos de chumbo. De fato, o Brasil como outros países sul-americanos sofriam de facinorosas ditaduras, onde houve tantos assassinatos e derramamento de sangue daqueles que lutavam esperançosamente por países sem miséria e espoliação. Eram tempos negros. Eram tempos malignos. Os familiares dos desaparecidos políticos até hoje clamam por justiça, ou mesmo por uma certeza de encontrar os restos mortais de seus entes queridos. Só resta uma certeza: foram tempos sombrios de nossa História.

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