sexta-feira, fevereiro 22

Down By Law e o Cinema Indie de Jim Jarmusch



Por Paulo Dias
“I scream, you scream, we all scream for ice cream”

            O cinema independente de Jim Jarmusch marcou de tal modo a indústria cinematográfica estadunidense, que até hoje pergunta-se como um cineasta fez filmes tão marcantes e magistrais com pouco orçamento. É de surpreender qualquer magnata de Hollywood, uma vez que Jarmusch obtém seus recursos a partir de financiamento estrangeiro desde idos da década de 1980 até o presente momento. Jarmusch gosta de ter controle exclusivo sobre o resultado de seus filmes e não se concatena com a interferência destrutiva dos produtores no formato final de suas obras de arte. O verdadeiro artista sabe o custo o que é produzir preciosidades para não ficarem expostas aos mercenários capitalistas e ainda não as relegando nas mãos sedentas da sociedade de consumo.
        Os filmes não comerciais de Jarmusch – diretor e roteirista excepcional - cativam pela simplicidade e pela profundidade, pois tocam em questões altamente cotidianas e tangíveis. O mundo dos marginalizados é seu pano de fundo para críticas ácidas à sociedade estadunidense. O olhar clínico de Jarmusch está voltado para os outsiders, para aqueles que estão à margem dos sonhos burgueses. Constantemente, Jarmusch está às voltas com personagens fracassados em um mundo exacerbadamente competitivo - e massacrante para os desfavorecidos – que se marginalizam ou são marginalizados pelas engrenagens motoras do mundo da barbárie capitalista, onde o lucro desmedido vem em primeiro lugar. De maneira pragmática, o cineasta indie sabe pisar no calo dos poderosos do mundo cinematográfico, mostrando que com pouco, muito se faz.
            Na filmografia do idiossincrático diretor, há as preciosidades: “Estranhos no Paraíso” (1984), “Homem Morto” (1989), “Uma Noite Sobre a Terra” (1991). Nestes filmes citados, Jarmusch dá vazão a uma criatividade estupenda e técnica superficialmente desleixada quanto à dramaticidade, forjando com brilhantismo molduras de uma realidade exasperante a um passo da exatidão ótica das problemáticas sociais: as relações interpessoais.
            
            O filme “Down By Law” de Jarmusch - ficou conhecido no Brasil como “Daunbailó” - é uma peça rara entre comédia e humor negro. O longa de 1986 apresenta personagens que vivem à margem da sociedade - um cafetão, um ex-radialista e um italiano perdido - em uma cela de prisão. Nas sequências iniciais, eles são apresentados no cotidiano de suas vidas errôneas e fragmentadas. Confinados em seus sonhos vazios, Jack e Zack (os músicos John Lurie e Tom Waits respectivamente) recebem  a companhia de Bob (Roberto Benigni em um papel marcante), que injeta humor no enfadonho mundo dos seus companheiros de cela. Bob acaba aproximando o mal-humorado Jack e o fracassado Zack, que se odiavam plenamente, como consequência uma certa amizade é gerada entre os três. A partir de uma fuga surrealista inexplicável, os personagens encontram-se mais encarcerados no mundo exterior à prisão do que na ínfima cela, ao permanecerem marginalizados como sempre. Os cenários externos servem como fio condutor para as sutilezas de Jarmusch no tocante à monotonia e tédio de Jack e Zack, e à busca de sonhos concretos por Bob. De maneira muito diversa dos filmes “Um Condenado à Morte Escapou” de Robert Bresson e  “A um Passo da Liberdade” de Jacques Becker, Jarmusch objetiva dilatar a fragilidade das relações entre seres marginais/marginalizados que harmonizam-se ao ambiente hermético da prisão e contrapõem-se aos cenários abertos do mundo exterior. É uma alegoria para indivíduos asfixiados dentro de uma sociedade excludente por natureza. Em sua cosmovisão cinematográfica, o diretor está preocupado em retratar a vida dos losers.
            A trilha sonora de “Daunbailó” é exemplar, principalmente “Jockey Full of Bourbon” de Tom Waits que acentua o tom marginal do filme, e a fotografia claustrofóbica em preto e branco de Robby Müller mostra, com maestria, o lado decadente e sujo de New Orleans. O plano da fotografia dos três ex-prisioneiros andando por um pântano é estupendo e inesquecível. A câmera de Jarmusch capta, em longos planos reflexivos, a essência de personagens longe de qualquer ideal glorificante. É o mundo áspero de Jarmusch.
Trailer

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