sexta-feira, fevereiro 15

Além das Montanhas e o Cinema Romeno Contemporâneo

Por Paulo Dias

 “Uma grande parte dos erros cometidos neste mundo
foi perpetrada em nome da fé e com absoluta convicção
de que foram feitos por uma boa causa”
(Cristian Mungiu)
             

O cinema romeno contemporâneo tem despertado o fascínio em muitos amantes da sétima arte pelo mundo afora. A dupla de cineastas romenos Cristian Mungiu e Cristi Puiu mostra ao mundo filmes impactantes e reflexivos sobre a condição humana, e é de louvor para um país considerado periférico na produção cinematográfica da Europa e há pouco tempo nas mãos do ditador Nicolae Ceausescu (condenado à morte por vários crimes, incluindo-se genocídio). Nos últimos anos, os filmes dos diretores são destaques nos principais festivais de cinema como o renomado Festival de Cannes. De modo bem diverso, o cinema romeno pauta-se em um realismo acachapante: aborto, assassinato e autoritarismo religioso são temas recorrentes. Principalmente, Mungiu trata em realizar um estudo crítico sobre a sociedade moderna e as relações  entre os indivíduos, abordando os temas supramencionados com clareza e profundidade.
             Cristian Mungiu, em seu espaço de manobra cinematográfico, tem usado de elucubrações sobre a natureza humana no contexto sociopolítico. Por essa via, seus temas realísticos - de um modo geral - despertam nossas reflexões para um mundo demasiadamente hostil. Com efeito, os roteiros bem estruturados e argutos tratam de assuntos bem explícitos na atual sociedade acostumada aos horrores e tragédias cada vez mais hediondas. Não se trata de ser moralista e nem enfadonho visto que o cineasta romeno, de maneira nevrálgica, mostra no écran a realidade crua dos tempos modernos tão bem explorada pelos meios midiáticos.
            Na filmografia recente e soberba de Mungiu, que desponta ao lado de Kléber Machado Filho do Brasil como promessas, há os longas metragens: “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007) (aliás um filme arrebatador), “Conto da Era Dourada” (2009) (um conjunto de curtas-metragens dirigidos por vários diretores romenos com roteiros de Mungiu) e “Além das Montanhas” (vencedor dos prêmios de melhor roteiro e de melhor atriz em Cannes. A bem da verdade, as atrizes protagonistas dividiram o prêmio).
        O drama “Além das Montanhas” (2012) é baseado em uma história verídica que ocorreu em 2005 na Romênia e foi retratada nos livros de não ficção da jornalista Tatiana Nicolescu Bran. O filme tem a diretriz pautada na jovem Alina que retorna para a Romênia com o intuito de reencontrar a bela Voichita, que agora é uma freira em um monastério com ar medieval localizado nas montanhas. As duas  jovens viveram em um orfanato, onde se criou uma grande amizade – ou algo mais profundo - entre elas. Voichita recusa-se a ir para a Alemanha com a ex-companheira, pois agora é uma dedicada freira com seus serviços diários dentro do monastério chefiado por um padre ortodoxo. Em consequência disso, Alina é tomada ou apossada por um crise devido ao amor não correspondido de Voichita. Um detalhe interessante é o diálogo entre as duas amigas, onde Voichita com um discurso ensaiado e pré-programado - quase sempre influenciada pelas conversas com o padre e repetindo seus sermões e conselhos - tenta persuadir a amiga do plano de voltar para a Alemanha. Até exorcismo e crucificação são realizados na “possessa” Alina e essas cenas são antológicas. Com belíssima fotografia, o filme de Mungiu retrata piamente o embate entre o autoritarismo/alienação/fanatismo religioso e o amor obsessivo. Não tomando parte de um ou de outro lado, o cineasta acentua os conflitos religiosos e amorosos em planos longos,  encarregando o espectador de realizar os julgamentos possíveis para tirá-lo da zona de conforto e deixá-lo inerme em interpelações e reflexões, conforme o desenrolar da história.

Trailer

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