sexta-feira, fevereiro 8

A Fita Branca e o Cinema da Crueldade de Michael Haneke

Por Paulo Dias

“Apenas a violência pode servir onde reina a violência”
(Bertold Bretch)
“O cinema é a arte da manipulação. Isso é algo que não devemos esquecer nem quando fazemos um filme nem quando o assistimos. O que sempre quis é que meus filmes sugerissem uma dúvida sobre a realidade que eles mostram”
(Michael Haneke)

            Michael Haneke é conhecido como o “cineasta da crueldade” em parte por filmes que abordam a violência de maneira sádica e perturbadora, e também por colocar os espectadores como elementos contempladores de uma ação perversa: a prática aleatória da violência.  De fato, os rótulos nem sempre sintetizam a verdade e, em certa forma, minimizam a obra do cineasta, como é evidenciado no cinema imponente de Louis Malle - denominado “cineasta do escândalo”. É lícito afirmar que a violência – visível e invisível – é a coluna cervical na estrutura fílmica dos longas metragens de Haneke, de tal modo que a natureza humana é revelada ante os atos torturantes e inexoráveis dos protagonistas, sobretudo, como é mostrada explicitamente em “Violência Gratuita”. Nessa perspectiva, Haneke – de maneira ascética – desnovela a apreciação dos espectadores pela violência (seu modus operandi), que está no âmago de várias sociedades atuais e do meio midiático, e destaca sarcasticamente as práticas aterrorizantes de uma necessidade subjacente ao ser humano: a perversão.
             Os personagens centrais em seus filmes trazem, no germe, as sementes da violência tanto psicológica quanto física (vide “O Video de Benny”) e se deleitam com os atos maléficos que praticam aos seus semelhantes, bastante similares ao exposto no filme “Sob o Domínio do Medo” de Sam Peckinpah. Não por acaso, Haneke destrincha contundentemente os prazeres inalienáveis que os protagonistas sentem ao ver seus procedimentos humilhantes, dilacerando suas vítimas sub judice de maneira explícita ou implícita. Assim como em um coliseu, Haneke transpõe os espectadores diretamente para a arena da tela, poeticamente falando, com o intuito de colocá-los tão somente perante os vislumbres de combates sangrentos.
            Na filmografia lacerante do diretor austríaco, há os importantes petardos: “O Video de Benny” (1992), “Violência Gratuita” (1997), “Caché” (2002) e “Amor” (2012) – filme mais recente do cineasta que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e que foi indicado aos Oscar de melhor filme, diretor, atriz, filme estrangeiro e roteiro original. Entretanto, o filme que mais se destaca, até o presente momento, em minha opinião é o emblemático “A Fita Branca” de 2009, também ganhador da Palma de Ouro.
             “A Fita Branca” retrata os princípios da educação alemã baseados na punição, antes do advento do Nazismo, em um vilarejo soturno da Alemanha. Na ótica de Haneke, a educação aviltante praticada nas crianças alemãs resultou, como consequência danosa,  o Holocausto (lembrando: Haneke não leva em consideração os aspectos socioeconômicos como raiz do Holocausto). Com efeito, a hierarquia puritana, implantada rigorosamente no vilarejo, é desmontada quando eventos misteriosos acometem primeiramente: um médico, o filho de uma parteira e o filho do barão de terras. Esses eventos desencadearão na estrutura familiar do vilarejo mais repressão e violência. No arcabouço do filme, toda uma gama de pecados cristãos é abordada desde: masturbação, pedofilia, adultério, etc. Por um lado, os pecados cometidos pelas crianças são punidos exemplarmente pelos adultos. Por outro, os próprios adultos praticam os maiores “crimes” contra as crianças, oprimindo-as sexual e brutalmente.  Poder-se-ia salientar: o preto e branco da fotografia transpõe, enigmaticamente, para a tela a perversidade oculta dos habitantes do vilarejo (tanto dos adultos como das crianças). Maquinalmente, Haneke  objetiva explicar, quadro a quadro, “as raízes do mal” (do mesmo modo como o escritor William Golding faz, em outro contexto, no livro “O Senhor das Moscas”), sob o viés de uma educação castradora e punitiva, e irremediavelmente com sucesso o faz.
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