sexta-feira, janeiro 25

Vício Frenético e o Cinema Visceral de Abel Ferrara

Por Paulo Dias
“Senhoras, levantem as barras das suas saias, vamos atravessar o inferno”
(William Carlos Williams)

“Viver é algo perturbador no cinema de Abel Ferrara. É estar às voltas com uma espécie de injustiça cósmica. É aspirar ao absoluto, mas só ter silêncio como resposta. Seus personagens são marcados por uma necessidade de sair de si, por uma espécie de êxtase incontornável”
(Julio Bezerra)

           
            O cinema escatológico/profano e marginal de Abel Ferrara retrata as minúcias de um mundo corrupto, que traz insidiosamente a violência avassaladora como primeiro compromisso. Ancorado no lado mais cruel e obscuro do homem, Ferrara expõe de maneira cáustica e crua – principalmente seus filmes antológicos da década de 1990 - a realidade das ruas, onde impera todas as iniquidades e vilanias possíveis. Em certa medida, podemos dizer que a sociedade lapidada pelo diretor e roteirista estadunidense (cineasta em sentido lato) mostra-se como um reservatório de corrupção tanto moral quanto física. As ruas sujas e decadentes parecem espelhar a própria alma dos protagonistas.
           Em primeiro plano, Ferrara em tom mordaz e sarcástico impregna seus roteiros, ao modo de Samuel Fuller, de toda a crueza visceral da vida, com suas imperfeições e vícios – vícios esses que aprisionam e escravizam os personagens. Em outras palavras, o controverso diretor de “O Rei de Nova York” usa sem subterfúgios o vício, por exemplo, em drogas como um terreno fértil para propagar seu entendimento do mecanismo propulsor da sociedade estadunidense: a ambição desmedida e megalomaníaca. Canonicamente, policiais e traficantes têm um papel de destaque em seus filmes (vide o já citado “O Rei de Nova York” e “Os Chefões”), sendo retratados como seres fetichistas e lascivos. Os ataques em alta voltagem à Igreja Católica em seus filmes causam um certo celeuma e furor nos espectadores desavisados; entretanto, de certa forma, são críticas contundentes à hipocrisia reinante na sociedade burguesa contemporânea.
              A grande obra-prima de Ferrara é “Vício Frenético” (Bad Lieutenant, 1992), em minha modesta opinião, que tem como eixo principal um policial corrupto e viciado (encarnado por Harvey Keitel em uma interpretação espetacular e soberba) em busca intermitente por todos os tipos de drogas pelos guetos de Nova York. Envolvido no mundo das apostas de jogos de beisebol, o policial LT segue errática e resolutamente sem qualquer pudor em uma jornada ao fundo do abismo à la “Uma Estação no Inferno” de Arthur Rimbaud e mergulhado em uma vida degradante de excessos – em frequentes bad trips - como o escritor beatnik William S. Burroughs. Será que o policial LT está seguindo a máxima de William Blake: O caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria?
          O polêmico diretor, em sua visão maniqueísta do mundo, mergulha nosso anti-herói em uma situação aquém de suas próprias forças: no cenário de um estupro de uma jovem freira dentro de uma igreja, que o faz refém de sua consciência e o faz ter contato com o lado há muito tempo esquecido de benevolência e perdão do ser humano. Não por acaso, todos os dilemas impingidos sobre o protagonista revelam uma busca sobre seu próprio eu e podem ser tomados como um veio transcendental em sua vida niilista e hedonista. Em última instância, Ferrara nos coloca à frente de um dilema central: buscar a redenção ou cair nas forças volitivas do mal? Ademais, é preciso fazer uma pequena ressalva: tal como o personagem Raskólnikov de “Crime e Castigo” de Dostoiévski, o passo para a redenção do tenente LT está além de sua vontade e é preciso conhecer o inferno para conhecer a si próprio; inquestionavelmente, Ferrara sabe expor o inferno como ninguém.
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