quarta-feira, janeiro 23

Uma Resenha Tardia para "Malagueta, Perus e Bacanaço" de João Antônio


Por Paulo Dias
Para Natan Castro, meu amigo de sempre

“Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho,  de abrir uma clareira nas trevas que me cercam”

(Osman Lins)
 

           Os contos apresentados por João Antônio (1937-1996) em “Malagueta, Perus e Bacanaço” de 1963 representam uma quebra de paradigma na literatura brasileira. Seus contos revelam o mundo dos malandros, dos jogadores de sinuca, das prostitutas, dos batedores de carteira, das empregadas domésticas namoradeiras e das crianças abandonadas. A linguagem utilizada – até aquele momento não vista na literatura nacional - traz, em essência, a voz e o lirismo das ruas: gírias são frequentemente usadas. João Antônio retira dos guetos de São Paulo sua poesia latente. E toda a realidade ácida e desnuda desponta, sem igual, em seus contos carregados de heróis e anti-heróis. Os personagens marginalizados marcam presença obrigatória e sua arte de narrar é esculpida laboriosamente.

            João Antônio, antes de tudo, é o “poeta dos malandros”, é o “intérprete do submundo”. Sua escrita revela os abismos, meandros e pântanos da sociedade. Aborda, jornalisticamente, a vida de pessoas que vivem à margem da sociedade.   O conto “Afinação da Arte de Chutar Tampinhas” é um soco no estômago. Um relato autobiográfico seminal.  Em “Meninão do Caixote”, temos um conto exuberante, destilando a vida de um jovem jogador de sinuca. Frases contundentes. Frases exemplares. Linguagem afinada. Um estilismo que alcança os esplendores da literatura universal. E falar do conto “Malagueta, ...” que dá nome ao primeiro livro. É covardia! É de perder o fôlego! É de emudecer!

            “ – Vai sair já? Espera o sol descer um pouco”. 

            Os personagens de João Antônio estão em constante movimento, cinética errante, dinâmica perpetua. Peregrinam pelas ruas de São Paulo como andarilhos em busca de aventuras e desventuras. Procuram qualquer destino: pode ser um jogo de sinuca ou a mulher de um amigo. João Antônio é um nato contista suburbano, que descreve a dura vida nas periferias da cidade grande, e enfatiza minuciosamente o realismo massacrante do dia-a-dia dos foras-da-lei, dos marginalizados de plantão. O cotidiano desses excluídos e marginalizados é narrado, estilisticamente, nas noites e madrugadas, nas bas-fond de São Paulo.

            Merecidamente, João Antônio ganhou o prêmio Jabuti duas vezes: autor revelação e melhor livro de contos. Levou uma vida sem pompas e não era afeito a cerimônias de premiações literárias. Antes, ele preferia discutir literatura em uma escola ou ir a um bar para uma partida de sinuca. Andava sempre com um caderno de anotações para eternizar em seus contos os dizeres e gírias do povo. Gostava de andar entre gente simples: boêmios e marginais. Era frequentador de bordéis. Foi um escritor como poucos, pouquíssimos. Foi um leitor assíduo, entusiasta e fervoroso de Lima Barreto – seu mestre de longa data. As periferias e os malandros eram sua matéria-prima. Enfim, ele transpôs, para os contos, a realidade das pessoas sofridas e esmagadas pela falta de expectativa de um futuro melhor.

            Sem Sombra de dúvida, João Antônio é um nome de destaque na literatura brasileira contemporânea, com sua escrita coloquial e proletária – impregnada de “malandragem viva”. Há uma “confluência entre poesia e narrativa” nos seus contos, como salienta Jane Christina Pereira em sua tese pela UNESP: “A Poesia de Malagueta, Perus e Bacanaço”. O livro de contos “Malagueta, ...” é um baluarte da poesia urbana, é um hino dos malandros, é um canto de denúncia social. Para quê falar? É preciso apenas ler para comprovar.

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