sexta-feira, janeiro 18

Gosto de Cereja e o novo Cinema Iraniano

Por Paulo Dias

“Um regime totalitário controla inteiramente o indivíduo, incluindo a privacidade de se permitir pensar. A ninguém é permitida a liberdade de escolha. O totalitarismo político ou religioso priva-nos de um senso de responsabilidade ao privar-nos da liberdade da imaginação. (...) Eu sinceramente acredito que nossa liberdade triunfará através da arte, e não pelos preceitos de uma ideologia, pela simples razão de ser arte, e só a arte permite liberdade de imaginação e originalidade”
   Mohsen Makhmalbaf



            A grande evidência sofrida pelo cinema iraniano nos anos 1990 é em maior parte devida ao diretor e roteirista Abbas Kiarostami, também podemos citar Asghar Farhadi, Jafar Panahi e Mohsen Makhmalbaf como pilares na revolução cinematográfica iraniana. Aliás, os cineastas iranianos estão sofrendo sanções – para não dizer perseguição e tortura – atualmente no regime opressor de Mahmoud Ahmadinejad. No campo fílmico, trabalhos maduros e bem moldados, como “Close-up”, “Através das Oliveiras”, “A Caminho de Kandahar”, “O Balão Branco” e “Gabbeh”, transmitem facetas da realidade em forma singela, mas que enfatizam a condição humana em sua profundidade. Em si, os filmes iranianos exploram temas universais, do domínio mais intimista para o realista, na forma mais imanente e corriqueira da vida.
               Há de se atentar para o fato de que a influência do neorrealismo italiano (vide “A Terra Treme” de Luchino Visconti e “Vítimas da Tormenta” de Vittorio de Sica) no novo cinema iraniano é exposto de maneira flagrante no uso de atores não profissionais, cenários reais e abordagens humanistas.  Outras vertentes do cinema iraniano se apegam a filmes sensibilizantes, ou filmes dramáticos para ser mais preciso, tais como: “Filhos do Paraíso”,  “Tempo de Embebedar Cavalos”, “A Cor do Paraíso” e “A Separação” (obra-prima ganhadora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012).      Como um exemplo da grandeza do cinema realizado no Irã, temos o filme metafórico “Gosto de Cereja” (1997) de Kiarostami,  centrado minimamente em um homem que deseja o suicídio como forma de escape de uma vida melancólica; no entanto, somos pouco informados sobre as circunstâncias para o ato extremo (ao meu ver com o intuito de evitar pré-julgamentos) no decorrer do filme. De fato, o personagem, em sua obsessão lacaniana, segue deliberadamente em um carro nas regiões áridas de Teerã à procura de alguém que o ajude a enterrá-lo. Ao longo de sua jornada fugaz, ele encontra um soldado, um seminarista e um taxidermista, que representam a tríade exército-religião-ciência. Paradoxalmente encantador, o filme – com um caráter quase documental - tem uma carga filosófica subjacente, entremeado por diálogos vivazes que nos fazem inquirir sobre nossa própria existência. Cada cena, psicologicamente, nos insufla a interrogar-nos sobre as vicissitudes da vida e nos faz buscar a irrupção de nossos sentidos e sentimentos sob os auspícios das nossas vivências cotidianas. Como um quebra-cabeças, o espectador é obrigado a juntar as partes inconclusivas da narrativa e, também, a se indagar se o personagem principal concluiu seu objetivo após um final abrupto do filme – devo confessar inclusive que é bastante questionável no sentido de aprovação para uns e rejeição para outros.
            Indubitavelmente, Kiarostami é um dos maiores cineastas das últimas décadas – opinião expressa por nada menos do que Jean-Luc Godard - e tem realizado filmes arrebatadores, que nos encantam e enternecem, difíceis de analisar em todas suas dimensões. “A verdade com que retrata o quadro é suficiente para informar, sem rodeios, problemas sociais, críticas ao autoritarismo, a elementos culturais conservadores e às restrições do governo ao cinema iraniano”, afirma Alessandra Meleiro em “O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social”, sobre a arte cinematográfica de Kiarostami. Por fim, nenhum texto por mais exegético que seja pode transmitir toda a aura por trás dos filmes instigantes de Kiarostami.

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