sexta-feira, janeiro 11

Amores Expressos e o Cinema Asiático

Por Paulo Dias

        O cinema asiático, principalmente a filmografia de Wong Kar-wai, revela-se com elevada maturidade e diversificação. A polarização no tocante aos filmes de artes marciais provocou um atraso na renovação do cinema realizado no leste asiático - majoritariamente na China e no Japão. Não obstante, cineastas do quilate de Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, para citar só os diretores japoneses, endossavam suas preocupações desde os anos 40 na construção de filmes de arte sem esquecer o hábito e o tradicionalismo orientais. De qualquer modo, houve a renovação tárdia do cinema chinês capitaneado por cineastas como Zhang Yimou, John Woo, Hou Hsiao-hsien, Edward Yang, Stanley Kwan, Kaige Chen e Wong Kar-wai nas décadas de 80 e 90, com destaques para as obras-primas: A Cidade das Tristezas, Adeus Minha Concubina e Lanternas Vermelhas.
Como exemplo do representativo cinema asiático, "Amores Expressos" (Chungking Express) de Kar-wai retrata o panorama multifacetado e globalizado da cidade de Hong Kong, com suas influências estrangeiras exacerbadas e pluralidade cultural. Kar-wai cria um mosaico de cenas autossugestivas, que parecem colagens experimentais tal como um videoclip (vide as cenas com a versão em cantonês de 'Dreams' da banda Cranberries) e que transmitem a visão compulsiva de consumo da sociedade, como na comparação das relações amorosas com a validade dos produtos industrializados. Entrementes, a música pop desponta como primeiro ingrediente no filme, ao som repetitivo de "California Dreamin'" dos The Mamas and the Papas em um fast-food, e a influência latente da 'Nouvelle Vague' (dos filmes de Godard e Truffaut) vem à mente ao despontar das cenas iniciais.
A grosso modo, o filme de Kar-wai é pautado em duas histórias desconexas com dois policiais taciturnos como protagonistas, que sentem os infortúnios do rompimento amoroso. Apesar da segunda parte ser superior à primeira, ao meu ver, o filme não perde a cadência e desenvolve-se magistralmente de maneira lacônica. Em certo sentido, o ritmo acelerado da narrativa fragmentada e a fotografia caleidoscópica - bastante peculiar - em luzes néon servem como pano de fundo para as histórias sobre relacionamentos malogrados, que trazem no bojo o esfacelamento dos desejos e sentimentos, destacando o quanto são perenes as relações no mundo atual.

                                                   Trailer do filme

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